Pular para o conteúdo

A Cidade do Rio de Janeiro no Século XVI

A Capitania do Rio de Janeiro formou-se na porção setentrional da Capitania de São Vicente. A região ficara relegada e não houve interesse em seu povoamento. Não tendo sido ocupada por portugueses, a região da baía de Guanabara sofreu a tentativa de colonização por parte dos franceses, entre 1555 e 1567, a chamada França Antártica. Com a fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1565, a capitania reverteu para a Coroa portuguesa como Capitania Real do Rio de Janeiro – o território de São Sebastião coincidia com o da, igualmente, recém-criada capitania do Rio de Janeiro.

A Captura do Forte Coligny, 1575, André Thévet (1502-1590). Ilustração extraída de La Cosmographie Universelle, 1575, Tomo II, p. 908

A Captura do Forte Coligny, 1575, André Thévet (1502-1590). Ilustração extraída de La Cosmographie Universelle, 1575, Tomo II, p. 908, original online aqui. Tamanho grande aqui.

 O assalto das forças de Mem de Sá (“Armee des Portugues”) ao Forte Coligny (“Ilha de Villegagnon”) na Baía de Guanabara, em 15 de março de 1560. A ilustração mostra com relativa clareza a referida batalha. Observe-se que os franceses estavam instalados na Ilha de Sergipe, onde se localizava o Forte Coligny (“Fort des Françoys”). Do lado ocidental, a “Henry Ville”. Após a batalha, os franceses espalharam-se pela baía.

O GOVERNO DA CAPITANIA NO SÉCULO XVI

No século dezesseis, a capitania fluminense conheceu a liderança política da família Sá. Esta família, desde Mem de Sá, e do primeiro mandatário Estácio de Sá (1565-1567), teve presença marcante, lutando contra os indígenas, estabelecendo as bases da cidade, incentivando sua proteção, ampliação e desenvolvimento ao longo de mais de três décadas em que, direta ou indiretamente, governou a região. Estácio de Sá deixara a Capitania do Espírito Santo em 20 de janeiro de 1565 e em 1 de março de 1565 fundou São Sebastião do Rio de Janeiro. Após a violenta guerra contra os franceses e os índios Tamoios, foi instalada a cidade, no lado ocidental da baía de Guanabara. Estácio de Sá e seus comandados montaram, em 1565, o primeiro arraial na área onde, atualmente, está instalada a Escola de Educação Física do Exército, na Urca. O local da fundação era protegido por paliçadas, e foi descrito em cartas pelo padre José de Anchieta. Em 1567, dois anos depois da fundação da cidade, os portugueses ocupam o Morro do Castelo (“Morro de São Januário”), mais seguro, debruçado sobre a Baía. Entre as primeiras construções estão a Igreja de São Sebastião e o Colégio dos Jesuítas. Ao redor deste, a vida colonial organizou-se inicialmente, espalhando-se os habitantes pelas ladeiras do morro. O primeiro mandatário combateu os franceses e seus aliados indígenas por mais dois anos, tendo contado com o suporte da esquadra comandada por Cristóvão de Barros, bem como reforços comandados pessoalmente por seu tio Mem de Sá, assim como com a pacificação e a mobilização dos indígenas pelos padres jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega.

Última Batalha. In: Hans Staden; Suas Viagens e Captiveiro entre os Selvagens do Brasil.

Última Batalha. In: Hans Staden; Suas Viagens e Captiveiro entre os Selvagens do Brasil. Traducção da primeira edição original, com annotações explicativas. São Paulo: Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, 1900, p. 112. Online aqui. Original: Americae Tertia pars Memorabile Provinciae Brasiliae. Frankfurt, 1595. Online aqui. Tamanho grande aqui.

Em 18 de janeiro de 1567 Mem de Sá retornou à Guanabara para ajudar Estácio de Sá a expulsar os franceses e dominar os Tamoios. Os relatos são de que a última batalha dos portugueses e Temiminós contra os franceses e Tamoios, chamada “Batalha das Canoas”, ocorreu na Praia de Uruçu-Mirim (atual praia do Flamengo) em 20 de janeiro de 1567, dia de São Sebastião.

Salvador Correia de Sá, o Velho, governou a capitania por duas vezes. Ele desenvolveu uma política de povoamento, com distribuição de sesmarias e no fomento dos engenhos de açúcar, no estímulo do comércio com a região do Rio da Prata e costa africana e na promoção de entradas pelos sertões do Rio de Janeiro em busca de metais preciosos. Em seu segundo governo teve início o que alguns têm denominado da “dinastia carioca” dos Correia de Sá. Com grande e enorme prestígio, por quase um século, três gerações da família governariam o Rio de Janeiro repetidas vezes. A atual Ilha do Governador possui esse nome por ter sediado um engenho de açúcar da família Sá, que foi proprietária de metade da ilha. Gradativamente, os engenhos de açúcar vão se espalhando por todo o recôncavo da Baía de Guanabara. Um exemplo de tal movimento foi Cristóvão de Barros, o quarto governador da capitania, em rigor, governador-geral do Sul. Havendo auxiliado na expulsão dos tamoios e franceses da Baía de Guanabara e arredores, Cristóvão de Barros foi possuidor de extensas sesmarias na região da atual Magé. Foi ele o construtor do primeiro engenho naquela região, nas proximidades do rio Magepe e próximo ao Morro da Piedade, o que já assinalava o regime de plantation naquela região do Recôncavo.

Durante o governo de Antônio Salema, o quinto governador (1575-1578), sabe-se que foi implementada uma política agressiva contra os tamoios que habitavam ao redor da atual Lagoa Rodrigo de Freitas, a fim de deixar a área livre para a implantação de fazendas de cana-de-açúcar. Durante o seu governo foi organizada uma expedição contra os franceses, que haviam estabelecido a Feitoria Maison de Pierre em Cabo Frio para exploração de pau-brasil. Reuniu-se um exército de portugueses apoiado por uma tropa de índios catequizados, com o objetivo de exterminar o domínio franco-tamoio que perdurava no litoral norte da capitania. Da chamada Guerra de Cabo Frio participou Dom Antônio de Mariz Coutinho, o Velho (1536-1584), um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.

No alvorecer do século dezessete tem início o primeiro governo (1602-1608) de Martim Correia de Sá, filho de Salvador Correia de Sá, o Velho. Foi Martim Correia de Sá o primeiro carioca a governar a Capitania Real do Rio de Janeiro. Este fato assinala que, na virada do século, já se assistia o emergir de uma geração autóctone na elite da ainda jovem capitania fluminense.

Baía do Rio de Janeiro e a Cidade de S. Sebastião, ca. 1574, Luís Teixeira.

Baía do Rio de Janeiro e a Cidade de S. Sebastião, ca. 1574, Luís Teixeira. In: Roteiro de todos os Sinais, Conhecimentos, Fundos, Baixos, Alturas e Derrotas que há na costa do Brasil, desd’o Cabo de Santo Agostinho até o Estreito de Fernão de Magalhães. Biblioteca da Ajuda, Lisboa. Mapa extraído de História da Colonização Portuguesa do Brasil. Edição Comemorativa do Primeiro Centenário da Independência do Brasil. Volume III: A Idade Média Brasileira (1521-1580). Porto: Litografia Nacional, 1924, p. 230, Extra-texto. Online aqui. Tamanho grande aqui. 

O mapa assinala a “Cidade Velha”, próximo ao monte “Pão da Sucar”, onde, em 1565, foi instalado o primeiro arraial (área onde hoje está instalada a Escola de Educação Física do Exército, na Urca). Em 1567, dois anos depois da fundação da cidade, os portugueses ocuparam o Morro do Castelo, mais seguro, debruçado sobre a Baía: “Cidade de S. Sebastiam”. Entre as primeiras construções estão a Igreja de São Sebastião e o Colégio dos Jesuítas. Um pouco acima da cidade, em terras jesuíticas, está a aldeia de Martinho, lugar onde inicialmente se estabeleceu a aldeia conduzida por Arariboia. Ao norte, o mapa indica a direção dos “montes que chamam Órgãos”. Identifica-se ainda ao norte a foz dos rios “Magepe” e “Suruy”. Ao nordeste, identifica a foz dos rios Guaxindiba e Macacu – informa-se que este último “entre 20 legoas pella terra detro”. No leste da Baía: “Aqui há pao do melho!”

A PRIMEIRA FREGUESIA E A PRELAZIA

Com o avanço colonizador, e até o final do século dezoito, dezenas de freguesias serão estabelecidas no Rio de Janeiro, partindo-se do litoral em direção ao sertão. Tais polos cristãos serão estabelecidos pela igreja romana em parceria com a “nobreza da terra”.

Durante todo o período colonial e até o império, quando o Estado e a Igreja eram casados, as freguesias eram circunscrições ou polos locais de “cristianização”. O rei exercia o governo civil e religioso no ultramar através de seus representantes, entre eles os clérigos que se tornavam funcionários ao receberem a côngrua paga pela Fazenda Real. (Fridman, 2009). Termo lusitano originado no latim e cujo núcleo conceitual era o fiel “filho da grei” (filii ecclesiae > filigrês > freguês), “freguesia” era a circunscrição eclesiástica de uma paróquia. O território da freguesia era submetido à jurisdição espiritual de um cura, que também exercia a administração civil: na freguesia eram feitos os registros de nascimento e batismo (este integrando tanto na vida eclesiástica quanto na “cidadania”), os casamentos, testamentos e os óbitos… O coração da vida regional estava, em rigor, na igreja paroquial, onde também eram realizadas as celebrações e festas; estas, por sua vez, cumpriam crucial papel, especialmente nas regiões onde o convívio social era muito difícil e bastante restrito.

Os paroquianos (ou “fregueses”), assistidos imediatamente pelos “presbíteros” nas freguesias locais, eram, em rigor, ovelhas do bispo, cuja jurisdição era uma diocese. Os bispos eram considerados nobres vinculados à Coroa real, e cada bispado supunha a exis­tência de uma cidade. A primeira diocese foi a da Bahia, criada em 1551. Separada por razões especiais de um bispado, a prelazia ou vigararia é uma área de transição para a categoria de diocese na qual um sacerdote representa o poder legal com autonomia administrativa. Superado o período dos franceses, e instalada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em 1565, desde então o Rio de Janeiro estava sujeito à jurisdição espiritual do bispo da Bahia. Em 19 de julho de 1575, o papa Gregório XIII, por meio da bula In supereminenti militantis Ecclesiae, criou a Prelazia de São Sebastião do Rio de Janeiro, a qual foi governada por nove prelados, até que o bispado do Rio de Janeiro foi concebido no terceiro quartel do século seguinte.

Na capitania real do Rio de Janeiro, a primeira freguesia foi a de São Sebastião, criada em 1569 com área coincidente com o termo da capitania, e cuja sede veio a se estabelecer no Morro do Castelo. O historiador Joaquim Veríssimo Serrão, com base nas cartas de sesmarias passadas no período de 1585 a 1598, estima que cerca de quarenta a cinquenta sesmeiros vieram de outras capitanias para colonizar a cidade e os seus arredores, o que poderia significar um aumento de duzentos a trezentos habitantes na região pelo final do século dezesseis. (Serrão, 2008). No início do século dezessete, a cidade do Rio de Janeiro começou a descer o morro do Castelo, no qual havia se instalado no século anterior, dando início à ocupação da várzea que ficava localizada entre quatro grandes morros: o morro do Castelo, o morro de Santo Antônio, o morro de São Bento e o morro da Conceição.

São Sebastião do Rio de Janeiro, 1640. Recorte de mapa por João Teixeira Albernaz I

DUAS ALDEIAS NO LESTE DA BAÍA DE GUANABARA

Concomitantemente à instalação das freguesias, a política de aldeamentos da Coroa portuguesa foi essencial ao projeto de colonização. Do século dezesseis ao dezenove, as aldeias de repartição foram o espaço privilegiado de inserção dos índios no mundo colonial português. Do século dezesseis ao dezenove, as aldeias indígenas estabelecidas na colônia foram objeto de preocupação das autoridades e de intensas disputas entre diferentes agentes sociais nelas interessados. “Os índios, afinal, desempenharam imprescindíveis papéis nos processos de conquista e colonização em todas as regiões da América, com importância variada, conforme os diferentes tempos e espaços”. [Almeida, 2015]. Nas aldeias os diferentes povos misturaram-se e transformaram-se em súditos cristãos e passaram a servir ao Império português. A historiografia atual, sem desconsiderar a violência que caracterizou o fenômeno, ressalta a importância de se tomar em conta o entrelaçamento das histórias indígenas e das histórias coloniais, imbricadas desde a chegada dos europeus às Américas, e já não contempla a relação apenas em termos unilaterais eurocêntricos, ou com uma compreensão de passividade “plástica” dos grupos etnolinguísticos de ameríndios.

A aldeia de São Lourenço foi fundada em 1568, sendo a primeira da capitania. Formou-se, principalmente, por índios Temiminós vindos do Espírito Santo, onde tinham se estabelecido devido a conflitos com Tamoios. Retornaram ao Rio de Janeiro para lutar ao lado dos portugueses contra franceses e Tamoios e, em decorrência dessa atuação, Arariboia, líder dos Temiminós, recebeu terras para constituir seu aldeamento na capitania. Inicialmente, foi criada a aldeia de Martinho que, por razões de defesa, localizou-se, na recém-criada cidade, em terras dos jesuítas. (Almeida, “Presença..”, 2019, p. 42). Martim Afonso Arariboia recebeu de Mem de Sá uma sesmaria a 16 de março de 1567 – em terras que foram de Dom Antônio de Mariz Coutinho, o Velho (1536-1584) e de sua mulher, Isabel Velho (1541-1619). A aldeia mudou-se em 1573 para o leste da Baía, defronte da cidade. Embora as terras de São Lourenço tenham sido concedidas a Arariboia, documentos posteriores relativos aos conflitos pelas terras não deixam dúvidas sobre o caráter coletivo do patrimônio. A aldeia se tornou importante baluarte de defesa da cidade, e a administração “espiritual” e “temporal” ficou sob os cuidados de missionários da Companhia de Jesus.

A localização da Aldeia de São Barnabé. Recorte do Mapa “Baixada da Zona do Litoral da Bahia do Rio de Janeiro”. Carta Topográfica da Capitania do Rio de Janeiro, por Manoel Vieira Leão, em 1767.

Recorte do Mapa “Baixada da Zona do Litoral da Bahia do Rio de Janeiro”. Carta Topográfica da Capitania do Rio de Janeiro, por Manoel Vieira Leão, em 1767. Online aqui, com melhor detalhamento topográfico aqui.

A Aldeia de São Barnabé foi criada para abrigar parentes e amigos dos índios da aldeia São Lourenço, que teriam chegado de outras regiões próximas. Inicialmente a aldeia foi instalada em terras do Colégio, em Cabuçu. Entretanto, tendo em vista que as terras doadas pelos portugueses eram poucas, requereram-se terras para além do rio Macacu, a fim de constituir uma nova aldeia. As terras foram concedidas em 1578 por despacho de Salvador Correia de Sá, o Velho. Em 1583, os próprios índios solicitaram a confirmação da sesmaria, que lhes foi concedida no mesmo ano em Lisboa. Observe-se, pois, que os índios aldeados reivindicaram as terras e sua demarcação com base na doação de 1578 e na confirmação de 1583. São Barnabé foi administrada por jesuítas e reunia, além de índios Temiminós, também Maromomis, Goitacazes, entre outros. É provável que os índios Tupiniquins e Tupinambás também tenham vivido em São Barnabé, já que haviam se misturado com os Temiminós nas aldeias no Espírito Santo. [Almeida, “Presença…”, 2015]. O padre José de Anchieta, denominado “o apóstolo do Brasil”, prestou serviços a Mem de Sá na conquista e na fundação do Rio de Janeiro, e há registo de sua presença diversas vezes na aldeia de São Barnabé. O historiador jesuíta Simão de Vasconcelos chegou a atribuir a Anchieta a realização de dois milagres na região.

Com São Lourenço e São Barnabé, as duas aldeias de repartição estabelecidas a leste da Baía da Guanabara, por acordos entre líderes indígenas e autoridades, teve início, no Rio de Janeiro, a política de aldeamentos da Coroa Portuguesa.

As Aldeias de São Lourenço e São Barnabé. Recorte. Adaptado de FRIDMAN, Fania. Cartografia fluminense no Brasil imperial. Anais do 1º Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica, Paraty, 2011

As Aldeias de São Lourenço e São Barnabé. Recorte.
Fonte: FRIDMAN, Fania. Cartografia fluminense no Brasil imperial. Anais do 1º Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica, Paraty, 2011. p. 20. Online aqui. Adaptado.

A seguir, uma cronologia simples nas raízes do catolicismo fluminense:

  • 1565 – Instalação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi em 1565;
  • 1568 – A aldeia São Lourenço, que virá a se estabelecer a leste da baía da Guanabara;
  • 1569 – Criada a primeira freguesia, a Sé de São Sebastião, com área coincidente com o termo da capitania;
  • 1575 – Instituída a prelazia do Rio de Janeiro;
  • 1578 – A aldeia de São Barnabé, na região do rio Macacu.

Em síntese: Desde o início, o morro do Castelo (também chamado morro do Descanso, morro de São Januário, alto da ou alto de São Sebastião) havia sido ocupado no século dezesseis. Por lá se localizavam: a igreja de São Sebastião (a Sé da cidade); a casa da Câmara e Cadeia; a casa do Governador; a igreja dos Jesuítas; e o colégio de São Sebastião – este último também pertencente à Companhia de Jesus. Em 1575 foi criada a prelazia do Rio de Janeiro. No leste da baía, dois aldeamentos por jesuítas seguiam o seu curso: São Lourenço e São Barnabé.

ALGUNS DOS PRIMEIROS POVOADORES

Alguns fidalgos portugueses lutaram ao lado de Estácio de Sá e ajudaram a fundar a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Outros chegaram nos anos subsequentes. Suas famílias são as primeiras povoadoras do território fluminense – hoje tem-se conhecimento de várias dessas famílias. Aqui passaremos a apresentar brevemente cinco desses povoadores, utilizando como recorte alguns que se casaram ainda na segunda metade do século dezesseis, começando a suscitar descendência nos dois últimos quarteis do referido século. Os estudiosos da genealogia, em particular, e a historiografia, em geral, já se têm dedicado a identificar os povoadores do Rio de Janeiro, porém, não raramente, incluem também aqueles cujas famílias tiveram início no século dezessete.

As primeiras famílias fluminenses, seja por razões circunstanciais, ou de fidalguia e linhagem, ou por variáveis fundiárias, estabeleceram casamentos entre si, inclusive com primos em primeiro grau. Isto foi bastante comum. Aqui, entretanto, consideramos apenas cinco dentre os primeiros povoadores no século dezesseis, cuja descendência direta (logo, não em linhas colaterais), nos dois séculos seguintes, chegará a um casal específico na região açucareira a leste da Baía de Guanabara, em finais do século dezoito, no atual município fluminense de Itaboraí. Aqueles cujos casamentos são claramente identificados (ou mesmo persuasivamente estimados) ainda no século dezesseis foram coloridos em tom de amarelo; o casal para o qual convergem as linhagens é identificado em azul. Se quiser situar o casal dentro de uma história mais ampla, recomendamos a leitura prévia de nosso texto aqui.

1. Dom Antônio de Mariz Coutinho, o Velho (c.1536-1584) foi um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro, em 1565, acompanhando Estácio de Sá. Era filho de Afonso Lopes de Mariz, senhor da Quinta do Paço Velho em Mariz, Barcelos, e fidalgo da Casa Real, e de Dona Branca de Mello, descendente do rei Afonso III de Portugal. Antônio de Mariz Coutinho, o Velho, casou-se com Isabel Velho (1541-1619), natural de Ponte de Lima, Viana do Castelo. Antônio de Mariz e Isabel Velho foram proprietários de terras no local da “Ponte dos Marinheiros” (nas proximidades da atual Av. Presidente Vargas), e também na região da atual Niterói. Martim Afonso Arariboia recebeu de Mem de Sá uma sesmaria a 16 de março de 1567 – em terras que foram de Antônio de Mariz e Isabel Velho. Durante o governo de Antônio Salema, o quinto governador (1575-1578), Antônio de Mariz participou da Guerra de Cabo Frio, com o objetivo de exterminar o domínio franco-tamoio que perdurava no litoral norte da capitania.

Dentre os descendentes do casal, um filho foi o conhecido D. Diogo de Mariz Loureiro, que ocupou várias posições na cidade do Rio, inclusive como segundo Provedor da Fazenda Real e Juiz da Alfândega na Capitania do Rio de Janeiro, cargo que seu pai ocupara. Um neto foi o prelado Antônio de Mariz Loureiro, nomeado por D. João IV, e que assumiu em 1644 a administração eclesiástica do Rio de Janeiro. Outros descendentes posteriores foram a Viscondessa de Itaboraí e sua irmã, a Viscondessa do Uruguai, assim como o poeta Manoel Álvares de Azevedo.

José de Alencar imortalizou a figura de Dom Antônio de Mariz no romance O Guarani – livro que inspirou Carlos Gomes no libreto de sua conhecida ópera, Il Guarany. José de Alencar romanceou a vida de Dom Antônio e inventou-lhe uma filha de nome Cecília, ou ”Ceci”, protagonista da trama, que se apaixonou pelo índio Peri. Observe-se, entretanto, que Antônio de Mariz e Isabel Velho nunca foram proprietários de um solar situado à beira do Rio Paquequer, e nem consta que tenham tido uma filha chamada Cecília.

2. Crispim da Cunha Tenreiro, nascido em Évora por volta de 1547, foi genro de Antônio de Mariz e Isabel Velho, tendo se casado com Isabel Velho de Mariz, nascida no Rio de Janeiro em 1565 – que seria, assim, irmã da fictícia “Ceci”, do romance “O Guarani”. Crispim Tenreiro poderia ser incluído numa geração posterior a de seus sogros; não obstante, é aqui inserido pois seu matrimônio ocorreu ainda no século dezesseis, por volta de 1587.

Informa Elysio Belchior que a “cidade velha deixou de existir fisicamente, visto que em 1574, o local onde a edificaram foi incluído na sesmaria dada por Cristóvão de Barros ao juiz do peso do pau brasil, Crispim da Cunha”. O mesmo autor informa que Crispim da Cunha Tenreiro, criado de Cristóvão de Barros, viera com este de Portugal. (Belchior, 1965, p. 82). Crispim exerceu o ofício de Feitor e Almoxarife da Fazenda Real no Rio de Janeiro até 1588. Em 1591, exerceu o cargo de Provedor Mor da Fazenda Real e Juiz da Alfândega. Dois anos mais tarde, foi nomeado Provedor dos Ausentes. Integrou a Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 1587 e 1618. Ainda vivia em 1627, quando já contava oitenta anos.

Isabel de Mariz e Crispim Tenreiro foram donatários da ermida de Santo Antônio, que servirá à fundação do Convento de Santo Antônio, hoje situado no Largo da Carioca. Silva (PUC-Rio, 2010) informa que em 1591, “com a chegada dos religiosos carmelitas à cidade, sesmeiros da região em que estava a ermida cederam terras para que nelas os religiosos se estabelecessem”. Conforme a escritura de doação por parte de Crispim da Cunha Tenreiro, então provedor da Fazenda, e sua esposa, Isabel de Mariz, firmada em novembro desse ano, a presença da capela já era uma significativa referência, pois o documento especifica a terra como “hum chão (…) no outeiro da lagoa defronte de Santo Antonio”. (Silva, p. 20-21). Conclui Silva que, mesmo após a chegada dos primeiros franciscanos, o lugar permaneceu sendo designado como “Morro de Santo Antônio”.

Há muitos descendentes do casal Crispim da Cunha Tenreiro e Isabel de Mariz que se tornaram conhecidos na antiga nobreza de terra fluminense. O também Provedor da Fazenda Real, Francisco da Costa Barros, foi um genro do casal. Outro genro foi o capitão Domingos de Azeredo Coutinho e Melo, como se pode conferir abaixo.

Quadro 1: Linhagem por Dom Antônio de Mariz e Crispim da Cunha Tenreiro

3. Capitão Aleixo Manoel Albernaz, o Velho (c. 1538-1626), referido geralmente apenas como “Aleixo Manoel”, nasceu na Ilha do Faial, nos Açores, havendo falecido no Rio de Janeiro em 25 de janeiro de 1626. Casou-se por volta de 1572, provavelmente no Rio de Janeiro, com Francisca da Costa Homem, igualmente açoriana, natural de Ilha Terceira, filha do Capitão Jordão Homem da Costa. Bogaciovas apresenta o Capitão Aleixo Manoel Albernaz:

De acordo com Carlos Barata, já se achava no Rio de Janeiro em 21 de fevereiro de 1568, quando apareceu na qualidade de testemunha na posse de umas terras dos Jesuítas. Foi capitão de infantaria da cidade do Rio de Janeiro, onde faleceu em 25 de janeiro de 1626 […]. Recebeu carta de sesmaria de chãos para construir casa de morada, em 7 de fevereiro de 1602, na cidade do Rio de Janeiro. Foi qualificado como cidadão da mesma cidade e morador nela, e que havia [vinte e três anos] que ele comprara os ditos chãos […]. Entre 1568 e 1584 não consta de documentos cariocas, o que faz especular que não residisse na cidade do Rio de Janeiro. Ali foi membro da câmara nos anos de 1584, 1587, 1588, 1592 e 1609 […]. Segundo Oliveira Belchior, apesar de ser considerado um dos conquistadores do Rio de Janeiro, e de ter ido para essa cidade em companhia do Capitão Mor Estácio de Sá, seu nome não consta dos beneficiários das primeiras sesmarias distribuídas pelo fundador do Rio de Janeiro, pois as primeiras terras datam de 1586. (Bogaciovas, pp. 95-96)

Aleixo Manoel recebeu sesmarias na região do Jaguaré em 1586 e 1587; em 1596, terras no rio de Capivari; em 1598, novamente em Jaguaré. De acordo com o livro Construtores e Artistas do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, Aleixo Manuel ergueu, por volta de 1582, uma ermida que tinha por orago Nossa Senhora da Conceição. Esta ermida ele e sua mulher doaram para a Ordem de São Bento, em 13 de maio de 1596. Os monges beneditinos ali construíram a Abadia de Nossa Senhora do Montserrat – o Mosteiro de São Bento.  Um dos primitivos nomes da atual Rua do Ouvidor foi Rua Aleixo Manuel, em homenagem a esse povoador ou a seu filho do mesmo nome.

Entre os descendentes do Capitão Aleixo Manoel Albernaz, o Velho, consta Francisco da Fonseca Diniz, alcunhado o “Gadelha”, que foi, segundo consta, o primeiro médico carioca. Uma filha do capitão Aleixo Manoel e Francisca da Costa Homem foi Beatriz da Costa (Homem), nascida por volta de 1590 na cidade do Rio de Janeiro, onde se casou cerca de 1613 com o Dr. Jorge Fernandes da Fonseca. Este foi qualificado como cristão-novo, por ocasião da habilitação à Ordem de Cristo de seu neto, Baltazar de Abreu Cardoso, em 1698 (aqui.)

4. Capitão-Mor João de Sousa Pereira Botafogo, nascido em Elvas, Portoalegre, no alentejo português, por volta de 1540. O genealogista Luiz Gonzaga da Silva Leme (1852-1919) apresenta-o:

Era este João de Sousa Pereira Botafogo natural de Elvas onde seus pais e avós tiveram casa que foi confiscada por ordem régia, por causa de suas insistências e soberbas resistências à justiça e outros motivos pelos quais foram perseguidos. Alcançou esta perseguição a João de Sousa Pereira, como membro da família; porém, como a esse tempo a rainha deixava passar em paz aos criminosos que vinham a conquista de índios no Brasil, passou ele com esse intento ao Rio de Janeiro, quando se fazia aí a guerra contra o gentio Tamoio. Como este Botafogo era destemido e de reconhecida nobreza, foi feito capitão de uma das canoas de guerra e mandado a Cabo Frio a impedir o contrato do pau brasil em que os franceses estavam comerciando. Foi tão feliz nessa empresa que, pelejando com valor e ousadia com os franceses, conseguiu vencê-los fazendo prisioneiros entre outros a [Toussaint Grugel], cabo da armada, valoroso francês que foi levado ao Rio de Janeiro e foi o tronco dos [Amaral Gurgel] daquela cidade e que depois se espalharam em S. Paulo. Do Rio de Janeiro passou a S. Vicente, onde também a guerra contra os bárbaros gentios andava ateada e, mostrando o seu valor e destreza militar, o tomou por genro o capitão do presídio Manoel da Luz Escorcia Drumond. (SILVA LEME, Luiz Gonzaga da. Genealogia Paulistana, p. 508, online aqui).

João de Sousa Pereira Botafogo casou-se com Maria da Luz Escorcio Drummond, filha de Manoel da Luz Escorcio Drummond e Bárbara Rodrigues. Como bandeirante, fez várias incursões pelo sertão. A pesquisa do clérigo Hélio Abranches Viotti (1996, p. 16) permite identificá-lo como o Capitão-Mor que governou a Capitania de São Vicente em 1595, através de uma nomeação do governador D. Francisco de Sousa, e também como chefe da bandeira enviada por este. Em 23 de junho de 1627, com cerca de oitenta e cinco anos, teria sido testemunha no processo do Padre Anchieta em 1620 e 1627, onde também consta os nomes de seus pais. O historiador e ensaísta Alfredo Ellis Junior, em artigo no Correio Paulistano, em 17 de julho de 1923, esclarece alguns detalhes que restavam confusos, e arremata: “Botafogo foi Capitão-Mor de fato e de direito” (Ellis Jr, p. 4, aqui).

A enseada de Botafogo teve como primeira denominação “Le Lac” (o Lago), dada pelos franceses. Depois, os portugueses lhe puseram o nome de “Francisco Velho”, que foi mordomo de Estácio de Sá e fundador da confraria de São Sebastião. Somente a partir de 1641 passou a se chamar “Botafogo”, por ter ali residido João Pereira de Souza Botafogo. O nome de enseada estendeu-se à antiga Chácara de São Clemente, atual Bairro de Botafogo.

Quadro 2: Linhagem pelos Capitães Aleixo Manoel Albernaz e João Pereira de Sousa Botafogo

5. Capitão Julião Rangel de Macedo (1544-1625) foi filho do abade Damião Dias Rangel, prelado-titular de Santo Isidoro, Marco de Canaveses, no ano de 1540, e de Violante Bernardes. Um ancestral, Pedro Álvares Rangel, foi fidalgo da Casa do rei D. Afonso III. O Conselheiro Macedo Soares, descendente de Julião Macedo, em sua Nobiliarquia Fluminense, obra clássica da genealogia fluminense, informa que Julião foi fidalgo da Casa do rei D. Filipe I de Portugal. Teria chegado ao Rio de Janeiro, em companhia do Governador-Geral Mem de Sá e passado à conquista do Rio de Janeiro.

Elysio de Oliveira Belchior apresenta desta forma a Julião Rangel de Macedo (com atualização ortográfica minha):

Fidalgo da Casa de El Rei D. Filipe I de Portugal e II da Espanha. Chegou ao Rio de Janeiro, em companhia do Governador-Geral Mem de Sá: um ano depois da conquista definitiva da cidade (1568) em despacho aposto à petição que lhe fora dirigida por Julião Rangel, acha-se consignado este fato. “Viera comigo na Armada em serviço de Sua Alteza – disse Mem de Sá – e ajudara a guerrear neste dito Rio de Janeiro, contra os franceses e contrários, de que Deus me dera muita vitória”.

Não lhe foram propícios os primeiros anos de moradia na cidade, pois em 1567 viu-se injustamente envolvido no que foi, ao que parece, o precursor dos crimes passionais do Rio de Janeiro: o assassinato do serralheiro Francisco da Costa, morto à flechadas no sítio da Carioca. Saiu absolvido do processo, mas por inadvertência deixara a cidade durante o inquérito, o que lhe valeu ser degredado por três anos no próprio Rio de Janeiro.

Aos 20 de março de 1568 alegou a Mem de Sá os serviços prestados nas guerras da Guanabara e narrou-lhe que ele “suplicante fora preso e acusado nesta cidade da morte de um Francisco da Costa de que saíra solto e livre e que por sua desobediência de cometer ir-se sem (…) licença desta cidade, saíra pelo dito caso condenado em três anos de degredo para este dito Rio”; por isto pediu ao Governador “lhe fizesse mercê de o habilitar para que sem embargo do dito degredo pudesse servir qualquer oficio de que fosse encarregado nesta dita cidade e seus termos”.

Não teve dúvida Mem de Sá em deferir a solicitação, valendo-se dos poderes que seu regimento o investiu: “Se alguns homens que para as ditas partes do Brasil foram, ou ao diante forem degradados, me fizerem lá tais serviços na terra ou no mar, que vos pareça que merecem, e devam ser habilitados para poder servir ofícios… caso não forem degradados por furto ou falsidades” – estatuía El-Rei – tinha o Governador o arbítrio de concedê-la ou não.

Tais ofícios vieram-lhe logo a seguir. Escrivão da Câmara do Rio do Janeiro, em 1568, subscrevia-se em 1569 e 1570, como escrivão d’ante o Senhor Capitão Salvador Correa de Sá. Novamente nomeado escrivão do Conselho, por provisão dada em Salvador a 5 de outubro de 1571, registrada no Rio de Janeiro, a 24 de novembro de 1571. Aos 11 de outubro de 1571, ao ser também nomeado escrivão dos órfãos, referiu-se aos motivos que o levaram à Bahia.

Para obter este cargo, expôs a Mem de Sá que “há cinco anos reside no Rio de Janeiro em serviço de Sua Alteza […] e ora veio a esta cidade por mandado do Capitão Salvador Correa de Sá a pedir socorro a Vossa Senhoria para o Cabo Frio pede a V. Senhoria havendo respeito do acima dito lhe faça mercê de um ofício de Escrivão de Órfãos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro sem embargo de o servir Pero da Costa tabelião das notas”.

Deferido o pedido, não foi pacífica a posse do cargo. Seu ocupante protestou contra a nova designação, apresentando embargos contra o ato do Governador, que de nada valeram, pois era certo de que “por direito não podia acumular o cargo de Tesoureiro de Defuntos e Escrivão de Órfãos”. O juiz Antônio de Mariz não consentiu, por isso, que Pedro da Costa continuasse a exercer o ofício em apreço, mandando que entregasse a Julião Rangel, por inventário, os papéis e cartório, sob pena de multa de cem cruzados. O “cumpra-se” do juiz é de 26 de novembro de 1571. Aos 26 de julho de 1583 foi provido por Salvador Correia de Sá no cargo de Ouvidor, “por ora estar vago o cargo de ouvidor desta cidade e capitania e eu não o poder servir por muitas ocupações que tenho com meu cargo de serviço do dito Senhor e com ajudar […] a armada que vai para o estreito de Magalhães”.

Saiu eleito oficial do conselho, no ano de 1589. Aos 28 de fevereiro de 1592 subscreveu a carta doando aos franciscanos a ermida de Santa Luzia. Recebeu em sesmaria, aos 31 de janeiro de 1569, [mil] braças ao longo do mar e [mil e quinhentas] para o sertão, da banda dalém partindo com Sancho Rabelo, e, a 4 de setembro de 1589, obteve mais [três mil] braças para o sertão em Guaasu. Consta ter recebido terras na Tijuca, que depois passaram para Gonçalo Correia de Sá e Martim de Sá; afirma ainda A. J. Melo de Morais ter sido o morro da Glória sesmado a “Julião Rangel de Macedo, o qual passou a seu filho Francisco Rangel”.

Vivia ainda em 1595, quando o Pe. Provincial do Brasil, da Companhia de Jesus, recebeu instruções do Pe. Geral, para comunicar a “um Julião Rangel, do Rio de Janeiro, que a licença que lhe deu o Pe. Beliarte para se sepultar na nossa Igreja e a sua mulher, filhos e filhas, que morressem em seu poder, não o entenda de maneira que haja de adquirir ius sepulturae.” (Belchior, 1965, p. 385, atualização ortográfica minha.)

Julião Rangel de Macedo casou-se por volta de 1574 com Beatriz (“Brites”) Fernandes Sardinha, filha de João Gomes Sardinha e Felipa Gomes. Gilberto de Abreu Sodré Carvalho reúne bons argumentos para mostrar o parentesco entre Beatriz (“Brites”) Fernandes Sardinha e Dom Pero Fernandes Sardinha, o primeiro bispo no Brasil – embora divergindo, com boas razões, da tese amplamente disseminada de que seria irmã deste.

Sobre a investidura de dom Pero se tem que, por bula papal de 12 de junho de 1514, criou-se o Bispado de Funchal, passando a ele a jurisdição sobre o Brasil. Por nova bula papal, de 25 de fevereiro de 1551, o Brasil foi desmembrado do Bispado de Funchal para constituir bispado à parte, sufragâneo do Arcebispado de Lisboa. O primeiro bispo foi dom Pero Fernandes Sardinha, que em 22 de junho de 1552 chegou à Bahia. Dom Pero morreu tragicamente, em 1556, quando de viagem para o Reino. (Carvalho, 2018, p. 26).

Julião Macedo e Beatriz Sardinha foram genitores de Paula Rangel de Macedo, mulher do já referido Diogo de Mariz Loureiro, filho de Antônio de Mariz e de Isabel Velho. Diogo foi oficial da Câmara do Rio de Janeiro, em 1599, e nomeado aos 31 de dezembro de 1606 para o cargo de Provedor da Fazenda Real da Alfândega do Rio de Janeiro, que seu pai, já ocupara antes. Isabel Rangel de Macedo, filha do capitão Julião e D. Brites, casou-se em 1614 com Balthazar de Abreu Souto Maior; o casal suscitou descendentes, vários dos quais se tornaram amplamente conhecidos. Entre alguns dos conhecidos descendentes do Capitão Julião Rangel de Macedo estão o Conde de Figueiredo, o Marechal Rangel de Vasconcelos e o cientista Oswaldo Cruz.

Quadro 3: Linhagem pelo Capitão Julião Rangel de Macedo

Na primeira metade do século dezessete, várias famílias também contam nas lista de povoadores do Rio de Janeiro. Para as nossas finalidades aqui, destaco dentre elas as que foram encabeçadas por Domingos de Azeredo Coutinho e Melo, Balthazar de Abreu Souto Maior, Antônio Pacheco Calheiros, Francisco Viegas e Miguel Aires Maldonado. Os dois primeiros já aparecem nos quadros acima. E para mais informações sobre Domingos de Azeredo Coutinho e Miguel Aires Maldonado, confira o nosso texto aqui.

Algumas referências bibliográficas:

  1. ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. “Aldeias indígenas no Rio de Janeiro colonial: espaços de ressocialização e de reconstrução identitária e cultural”. Fronteiras & Debates, vol. 2, no. 1, p. 119-147, 2015. Online aqui.
  2. ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. “Presença e atuação indígena na cidade do Rio de Janeiro colonial: das origens ao século XIX”. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, no. 16, 2019, pp. 33-50. Online aqui.
  3. ALMEIDA, Wanderson Santos de. Gente da Terra: Relações de Poder na Capitania do Espírito Santo (séx. XVI-XVII). Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), 2019, 148p. Online aqui.
  4. BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Brasiliana, 1965.
  5. BELCHIOR, Elysio. “Estácio de Sá e a fundação do Rio de Janeiro”. História, São Paulo, 27 (1), 2008. Online aqui.
  6. BOGACIOVAS, Marcelo Meira Amaral. “Albernazes e Homens da Costa”. Revista da ASBRAP nº 11, 2005, pp. 89-124. Online aqui.
  7. CARVALHO, Gilberto de Abreu Sodré. “Rio de Janeiro: Fundação, Disputas e Ocupação Sociopolítica da Guanabara (Séculos 16 e 17)”. Revista da ASBRAP n.º 25, 2018, pp. 1-34. Online aqui.
  8. FRAGOSO, João. “A nobreza da República: notas sobre a formação da primeira elite senhorial do Rio de Janeiro (séculos XVI e XVII)”. Topoi (Rio J.) vol.1 no.1, Rio de Janeiro, jan./dez. 2000, pp. 45-122. Online aqui.
  9. FRIDMAN, Fania. “Freguesias fluminenses ao final do Setecentos”. Revista do Instituto De Estudos Brasileiros (IEB), no. 49, mar/set, 2009, p. 91-143. Online aqui.
  10. FRIDMAN, Fania. Cartografia fluminense no Brasil imperial. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Anais do I Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica. 2011. Online aqui.
  11. MACEDO SOARES, Antonio Joaquim de. Nobiliarquia Fluminense ou Genealogia das Principais e Mais Antigas Famílias da Corte e da Província do Rio de Janeiro. Edição ampliada e publicada por seu filho, o desembargador Julião Rangel de Macedo Soares. 2 Volumes. Niterói: Imprensa Estadual do Rio de Janeiro, 1947.
  12. NOVAES, Maria Stella de. “A capitania do Espírito Santo e a defesa do Rio de Janeiro”. Revista de História (USP), vol. 31, no. 63, São Paulo, 1965, pp. 99-111 . Online aqui.
  13. OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo. Vitória: Secretaria de Estado da Cultura/Secretaria de Estado da Educação, 2008.
  14. OLIVEIRA, Victor Luiz Alvares. “Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”. BiblioAtlas – Biblioteca de Referências do Atlas Digital da América Lusa. Online aqui. Data de acesso: 28 de abril de 2020.
  15. RHEINGANTZ, Carlos Grandmassom. As primeiras famílias do Rio de Janeiro: séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro, Brasiliana, 1967.
  16. RICHA, Lênio Luiz. “Azeredos Coutinhos e Mello”. In: Os Títulos Perdidos. São Paulo: Genealogia Brasileira. Online aqui. Data de acesso: 28 de abril de 2020.
  17. ROSENDAHL, Zeny; CORRÊA, Roberto Lobato Corrêa. “Difusão e Territórios Diocesanos no Brasil: 1551–1930”. Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Universidad de Barcelona. Vol. X, no. 218 (65), 1 de agosto de 2006. Online aqui.
  18. SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro no Século XVI. Rio de Janeiro: Andrea Jakobsson Estúdio Editorial, 2008.
  19. SILVA, Cesar Augusto Tovar. “Os frades e a cidade. A instalação da ordem franciscana no Rio de Janeiro colonial”. Rio de Janeiro: Associação Nacional de História, 2010. Online aqui.
  20. VIOTTI, Hélio Abranches. “Qualificação e Depoimento das Testemunhas nos Processos Anchietanos mais Antigos”. Revista da ASBRAP nº 3, 1996, pp. 9-56. Online aqui.

___________

Texto por Gilson Santos em 26/05/2020. Integra Integra um projeto mais amplo de genealogia e história familiar, do qual o autor faz parte ao lado de vários outros da família. Para contatos com o autor, clique aqui.