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A Fábula do Lobo Traficante – Fernando Portela

Wolf and Fox Hunt, c. 1615–21, Peter Paul Rubens

Wolf and Fox Hunt, c. 1615–21, Peter Paul Rubens (Flemish Baroque Era Painter, 1577-1640), Oil on canvas, 96 5/8 x 148 1/8 in. (245.4 x 376.2 cm), Metropolitan Museum of Art, New York, USA

A sociedade dos cordeiros condenou aquele lobo a vinte anos de prisão. Era terrível o seu crime: tráfico de entorpecentes. Por sua causa, milhares de cordeirinhos destruíram suas vidas. O lobo era o inimigo público número um.

Vinte anos depois, apesar desse e de outros lobos-traficantes terem sido presos, a sociedade dos cordeiros estava mergulhada no vício. Era um problema de segurança nacional. Talvez por isso um repórter resolveu entrevistar aquele lobo, à saída da penitenciária. Estaria ele arrependido? Teria consciência do que provocara? Sentia-se injustiçado?

Afinal, a sociedade dos cordeiros cumprira rigorosamente a lei. Só que alguma coisa estava errada. Lobos-traficantes eram presos todos os dias, enquanto aumentava o consumo de drogas. Qual a opinião de um lobo que pagou vinte anos por um dos piores crimes contra a humanidade?

— Você quer mesmo saber? — foi logo falando o lobo. — O problema não se restringe a mim nem aos que me seguiram nessa profissão. Eu cometi parte do crime, reconheço, comercializando um produto proibido…

— E quem cometeu a outra parte? — indagou o repórter, ele próprio irritado com a desfaçatez do lobo.

— Ora, a sociedade dos cordeiros! — afirmou o lobo. Acaso fui eu que provoquei a corrida ao tóxico? Como seria possível eu me tornar um traficante se não houvesse procura do meu produto?

“Isso faz sentido”, pensou o repórter. E arriscou outra pergunta:

— Como a sociedade dos cordeiros poderia ter evitado tudo isso?

— Ora, pergunte a ela, respondeu o lobo. Mas dificilmente a sociedade dos cordeiros concordará que tem parte dessa culpa. Para isso, seria necessário que cada cordeiro, em particular, meditasse sobre sua própria vida e o que considera melhor para o seu rebanho. Mas você sabe que meditar, refletir, ponderar e se autoanalisar é muito difícil, quando há tantos lobos à disposição para assumir todas as culpas.

Quando a entrevista com o lobo-traficante foi publicada, a sociedade dos cordeiros reagiu: os lobos são criminosos irrecuperáveis, cínicos, arrogantes e diversionistas.

Para eles, só mesmo a pena de morte.

(Fernando Portela. Gazeta do Povo, Curitiba, 15/03/1984. Apud PRATES, Marilda. Reflexão & Ação em Língua Portuguesa, 8.ª série. São Paulo: Editora do Brasil, 1984)

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