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De Aboadela para o Centro-Norte Fluminense

Na segunda metade do século dezoito, sobretudo por conta do ouro de Minas Gerais, foi grande o fluxo de emigrantes do Norte de Portugal para o Brasil. Muito antes, porém, ao Norte de Portugal a emigração para o Brasil tivera início logo após o “descobrimento”, e se tornou numericamente significativa no século dezessete. No século dezoito, com o desenvolvimento da mineração na economia colonial, aportaram na colônia centenas de milhares de colonos portugueses. No início do século dezenove, as invasões francesas sobre o território português deram-se em três momentos, entre 1807 e 1811. É neste período que se transfere para o Rio de Janeiro a Corte portuguesa, o que resultou em grande emigração portuguesa para a antiga província do Rio de Janeiro, até a independência do Brasil no início da terceira década daquele século. Naquele período, o porto do Rio de Janeiro torna-se-á o principal destino ultramarino de portugueses. Após a independência, nas próximas três décadas a imigração portuguesa experimentará alguma estagnação.

O Lugar do Outeiro, Freguesia de Aboadela, AmaranteObserve-se, por conseguinte, que, ao iniciar o século dezenove, era imenso o fluxo de notícias, informações, pessoas e familiares entre a região Norte de Portugal e o Brasil. Este fenômeno se acentuou com a transferência da monarquia da Casa de Bragança para o Rio de Janeiro. No caso específico da freguesia de Aboadela, em Amarante, o fenômeno foi incrementado com a projeção que ganhará a Família Clemente Pinto na região da cafeicultura fluminense, e posteriormente junto à corte no Brasil, em particular no Segundo Império. Tornou-se dinâmico o fluxo de notícias, informações, pessoas e familiares entre Aboadela e a região Centro-Norte Fluminense, onde estavam as principais fazendas da Família Clemente Pinto, em especial do Barão de Nova Friburgo e de seus descendentes. No pequeno conglomerado de casas do lugar denominado “Outeiro”, em Aboadela, lugar de origem da família Clemente Pinto, os relatos de sua projeção e enriquecimento, com amplas terras no Brasil, foi se tornando lendário. O Barão de Nova Friburgo tornou-se uma espécie de símbolo, quase um mito. Além disso, as fazendas e empreendimentos diretos e indiretos dos Clemente Pinto no Brasil atraíram gente da região de Amarante, como de toda a região do Tâmega, para neles trabalhar como mão de obra livre, em particular pela metade do século. Os familiares no Brasil formavam, assim, as suas correntes de imigrantes – observe que, a esta altura, estabelecida a nação brasileira, já não estamos mais nos referindo a “colonos”, mas a imigrantes.

Vilas e Cidades Fluminenses (até 1850)

A família Clemente Pinto teve participação decisiva na colonização do Centro-Norte Fluminense, inicialmente com uma sesmaria em Cantagalo, mais especificamente na região do atual distrito cantagalense de Boa Sorte, e depois com fazendas de café ao longo do Vale do Paraíba, especialmente no território compreendido entre o Paraíba e o Rio Grande. Foram eles que colonizaram boa parte da região. Em suas muitíssimas, vastas e opulentas fazendas, utilizaram-se amplamente da mão de obra escrava, desde a região de Nova Friburgo até São Fidélis. Retrato dos Barões de Nova Friburgo, Emil BauchPor essas fazendas palmilharam os antigos religiosos capuchinhos em seu trabalho de catequização. Foi por iniciativa dos Clemente Pinto que a ferrovia adentrou à região, com estações que permitiram o escoamento da produção de suas fazendas, e que, por sua vez, facilitou o fluxo de pessoas, mercadorias e serviços através do Centro-Norte fluminense. Naquela região dos antigos “Sertões de Macacu”, como exemplo, a ferrovia teve estação em Santa Rita do Rio Negro (atual Euclidelândia), e chegou, por fim, até Itaocara e Portela – lugares cruciais nas origens brasileiras de nossa família. Foram os Clemente Pinto que deram nome à estação de Portela, ponto final daquele ramal férreo, o qual tinha em Niterói o seu ponto de partida. 

Antônio Clemente Pinto (1795-1869), o primeiro Barão de Nova Friburgo, foi, segundo alguns, o quarto homem mais rico durante o império brasileiro, e segundo outros, inclusive em documentos estrangeiros, de longe o mais economicamente proeminente. Sabe-se que ele iniciou as suas atividades como traficante de escravos, por meio do qual seguiu acumulando fortuna, a qual atingiu o ápice com o “ouro negro”, produto da rubiácea. Entre as muitas obras opulentas do Barão, está a residência familiar na cidade do Rio de Janeiro, denominada Palecete de Nova Friburgo, o qual posteriormente tornou-se conhecido como “Palácio do Catete” – palácio dos presidentes da república brasileira até a transferência da capital para Brasília. Entre diversas outras obras de grande monta, estão o Palacete do Gavião, na fazenda de mesmo nome em Cantagalo, e a residência de inverno em Nova Friburgo, atual sede do Country Clube daquela cidade serrana.Brasão de Armas, Primeiro Barão de Nova Friburgo

Foi em tal contexto que o jovem José Ribeiro dos Santos (1839-1894), nascido lá no pequenino lugar do Outeiro, na freguesia de Aboadela, a “porta de entrada do Marão”, veio a engrossar a massa de emigrantes portugueses que se destinou ao Centro-Norte Fluminense na segunda metade do século dezenove – período em que cresceu muito a imigração portuguesa para o Brasil, e cujo ápice dar-se-á na primeira metade do século vinte. Já se dispõe de informação documental para afirmar-se, com bastante segurança, que desde 1815, época de D. João VI no Rio de Janeiro, já se tinha familiares dos avós maternos de José Ribeiro dos Santos residindo no Brasil. Outros familiares certamente se estabeleceram na região, dentre os quais a sua tia materna e madrinha no pedobatismo católico, Maria Joaquina dos Santos (1819-1901), cuja família se estabeleceu inicialmente na freguesia de Santa Rita do Rio Negro (cuja sede era a atual Euclidelândia), e que depois estabeleceu residência em Nova Friburgo – lugar da antiga residência do Barão de Nova Friburgo – onde, por fim, será ela sepultada no Cemitério São João Batista, deixando na região numerosa descendência.

Recorte: Província do Rio de Janeiro em 1888

José Ribeiro dos Santos casou-se em 21 de abril de 1866 com uma fluminense nascida no interior da então imensa e próspera região de Cantagalo. Este casamento, suas primeiras núpcias, foi na igreja matriz da freguesia de São José de Leonissa (atual Itaocara). O sogro, que constituíra numerosa família, era um português natural da freguesia da Ajuda, em Lisboa. José Ribeiro dos Santos teve, ao longo dos dois casamentos, um total de doze filhos. O primogênito dentre eles, o meu trisavô, estabeleceu residência no distrito (então) itaocarense de Três Irmãos, conquanto na margem direita do rio Paraíba, no território que dará origem ao distrito de Portela. A esposa era também brasileira, filha de um casal procedente da freguesia de São Roque dos Altares, ao norte da Ilha Terceira, nos Açores, arquipélago português. Cesar Ribeiro dos Santos (1867-1905) encontra-se sepultado em Portela, no município de Itaocara, e a esposa, após uma viuvez de sessenta e quatro anos (!), sepultada em Cardoso Moreira, município no troço fluminense do rio Muriaé. Ambos brasileiros, descendentes diretos de portugueses, representantes da grande leva que teve a sua origem no ciclo cafeeiro fluminense – força motriz da economia brasileira após o ciclo mineiro. Com a crise cafeeira, a região, que foi imensamente impactada (e da qual nunca se recuperou), testemunhará uma diáspora. Inicialmente, o movimento dispersivo será principalmente para contextos rurais alternativos e adjacentes – geralmente em municípios do Norte fluminense, Zona da Mata mineira ou no Sul capixaba, e, gradativamente, e especialmente no pós-guerra, engrossando o fenômeno denominado “êxodo rural”, amplamente estudado e conhecido.

Gilson Santos em frente à Igreja Matriz de Cantagalo, RJ

Gilson Santos em frente à Igreja Matriz de Cantagalo, RJ, que foi a primeira freguesia em toda a região Centro-Norte fluminense. Na antiga freguesia de Cantagalo casaram-se, em 01/10/1834,
Manoel José Gomes e Ricarda Cordeiro de Resende, pais da quarta avó de Gilson. O nubente era português; a nubente descendia de duas famílias pioneiras da região.

Texto por Gilson Santos, em 3/04/2020. Integra um projeto mais amplo de genealogia e história familiar, coordenado pelo autor e envolvendo outros da família. Para contatos com o autor, clique aqui.