Pregação: Um Compromisso que Permanece
Poucas actividades ocupam lugar tão central na história do cristianismo quanto a pregação. Desde os patriarcas, passando pelos profetas, por Cristo e pelos apóstolos, até aos grandes períodos de renovação da igreja ao longo dos séculos, a Palavra proclamada esteve no centro da vida do povo de Deus. Em épocas de vigor espiritual, a pregação ganhou força e profundidade; em tempos de declínio, geralmente perdeu a sua centralidade, cedendo espaço ao formalismo religioso, à superficialidade doutrinária ou à acomodação cultural.
Apesar disso, o próprio conceito de pregação tornou-se progressivamente difuso em muitos contextos contemporâneos. Frequentemente, o púlpito é tratado como espaço para comentários motivacionais, discursos terapêuticos, opiniões pessoais ou análises culturais superficiais. Noutros casos, a pregação é reduzida a um exercício de eloquência religiosa, desligado da exposição séria das Escrituras. Isto torna necessário recuperar uma pergunta fundamental: afinal, o que é a pregação?
No seu sentido mais essencial, a pregação cristã é a proclamação pública da Palavra de Deus. O verbo grego κηρύσσω (kēryssō), amplamente utilizado no Novo Testamento, transporta a ideia de anunciar oficialmente uma mensagem recebida de outro. O pregador cristão não fala primariamente em seu próprio nome. Actua como mensageiro da Palavra divina.
Esta compreensão distingue a pregação cristã de uma simples palestra religiosa. O centro da pregação não é a criatividade do pregador, mas a autoridade das Escrituras. Por isso, a tradição reformada insistiu em que a verdadeira pregação ocorre quando a Palavra de Deus é fielmente exposta e aplicada à igreja.
Neste contexto, ganha relevância a ideia de pregação expositiva. Mais do que utilizar textos bíblicos como ponto de partida para ideias previamente concebidas, a pregação expositiva procura derivar a sua mensagem do próprio texto sagrado, respeitando o seu contexto histórico, literário e teológico. Haddon Robinson definiu a pregação expositiva como “a comunicação de um conceito bíblico derivado e transmitido através de um estudo histórico, gramatical e literário de uma passagem no seu contexto”. Esta definição preserva algo essencial: a autoridade do sermão não repousa na personalidade do pregador, mas na fidelidade ao texto bíblico.
A tarefa do pregador não é competir com as Escrituras, mas servi-las. Por essa razão, a pregação sempre exigiu mais do que habilidade retórica. Requer reverência diante do texto sagrado, disciplina no estudo, discernimento espiritual e consciência pastoral.
As raízes desta compreensão atravessam toda a revelação bíblica. Ainda antes da formação de Israel como nação, Noé é descrito como “pregador da justiça” (2 Pedro 2:5). Em Moisés, porém, a proclamação da Palavra assume forma mais claramente reconhecível. O livro de Deuteronómio, por exemplo, possui a estrutura de grandes discursos dirigidos ao povo às vésperas da entrada em Canaã, reunindo instrução, exortação e aplicação pactual.
Posteriormente, sacerdotes, levitas e escribas exerceram funções ligadas ao ensino público das Escrituras. Neemias 8 oferece um dos retratos mais importantes deste processo: Esdras lê o Livro da Lei diante do povo, enquanto os levitas explicam o sentido do texto para que todos compreendam a leitura. Nos profetas, a pregação assume contornos ainda mais intensos. Isaías, Jeremias, Ezequiel, Amós e tantos outros surgem como homens levantados para confrontar o pecado, denunciar a idolatria e chamar o povo ao regresso ao Senhor, ao mesmo tempo que anunciam esperança futura e redenção messiânica.
No entanto, é na pessoa de Jesus Cristo que a pregação alcança a sua expressão suprema. O ministério público de Cristo começa pregando: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 4.17). Os Evangelhos apresentam Jesus continuamente ensinando nas sinagogas, nas casas, junto do mar, nos caminhos e nos montes. A sua pregação possuía autoridade singular: “porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mateus 7:29).
Particularmente no Evangelho de Mateus, os grandes discursos de Jesus estruturam o ensino do Reino de Deus. O Sermão do Monte apresenta a ética do Reino. O Sermão Missionário instrui os discípulos acerca da missão e do sofrimento. O Sermão das Parábolas revela os mistérios do Reino. O Sermão da Igreja trata da vida comunitária, do perdão e da disciplina. O Sermão Profético dirige o olhar para o juízo e a consumação futura. Estes discursos mostram que, para Cristo, a pregação não ocupava lugar periférico. Era instrumento central da manifestação do Reino de Deus.
Após a ressurreição, esta centralidade permanece. Os apóstolos compreenderam que haviam sido enviados principalmente para proclamar o evangelho. Em Pentecostes, Pedro levanta-se para anunciar Cristo crucificado e ressurrecto. Paulo percorre cidades expondo publicamente as Escrituras. A igreja nasce e expande-se pela Palavra pregada. Entre as últimas palavras do apóstolo Paulo encontram-se aquelas com as quais insta Timóteo:
“Conjuro-te, pois, diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo, que há-de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino, que pregues a palavra, instes, a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina; porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores, conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas.
Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério” (2 Timóteo 4:1–5, ARC/SBP).
A história posterior do cristianismo confirma esta centralidade. Na era apostólica, a proclamação pública do evangelho foi o principal instrumento da expansão cristã. Nos séculos patrísticos, pregadores como João Crisóstomo e Agostinho de Hipona uniram profundidade teológica, exposição bíblica e aplicação pastoral, ajudando a formar a consciência doutrinária da igreja antiga.
Na Idade Média, a centralidade da pregação sofreu relativo enfraquecimento em muitos contextos. A liturgia sacramental passou gradualmente a ocupar o centro visível da vida eclesiástica, enquanto o uso do latim e o distanciamento entre clero e povo limitaram o acesso às Escrituras. Ainda assim, figuras como Bernardo de Claraval e Francisco de Assis mantiveram viva, em diferentes aspectos, a importância da palavra proclamada, enquanto John Wycliffe e os valdenses anteciparam elementos que mais tarde seriam retomados pela Reforma.
Contudo, foi na Reforma Protestante do século XVI que a pregação voltou a ocupar o centro da vida da igreja de maneira decisiva. Os reformadores compreenderam que a renovação da igreja dependeria do regresso das Escrituras ao púlpito. A doutrina da Sola Scriptura reorganizou o culto, o ministério e a própria identidade da igreja. O púlpito ganhou centralidade visível. A exposição bíblica tornou-se novamente elemento dominante da adoração cristã.
Martinho Lutero pregava continuamente sobre Romanos, Gálatas e os Salmos, enfatizando a justificação pela fé. Ulrico Zuínglio desenvolveu a lectio continua, expondo livros inteiros da Bíblia de forma sequencial. João Calvino, em Genebra, ofereceu um dos maiores modelos históricos de pregação expositiva contínua, percorrendo praticamente toda a Escritura ao longo do seu ministério.
Posteriormente, os puritanos aprofundaram ainda mais a dimensão pastoral da pregação. Mantiveram a centralidade bíblica da Reforma, mas acrescentaram forte preocupação com a aplicação experimental da verdade ao coração humano. A pregação puritana procurava iluminar a mente, alcançar a consciência e mover a vontade.
Os grandes despertamentos espirituais posteriores continuaram ligados à recuperação da pregação. Jonathan Edwards, George Whitefield, Charles Spurgeon e tantos outros demonstram que os períodos de maior vitalidade da igreja quase sempre estiveram associados ao regresso da Palavra proclamada com clareza, profundidade e poder espiritual.
O mundo contemporâneo, porém, alterou profundamente a maneira como as pessoas ouvem e processam a linguagem. A cultura da velocidade, da fragmentação e da imagem produziu um ambiente menos disposto à escuta prolongada, à reflexão profunda e à argumentação contínua. Neste contexto, a pregação cristã enfrenta uma das suas maiores tensões históricas.
A dificuldade não está apenas fora da igreja. Em muitos ambientes evangélicos, o sermão cede lugar a formas híbridas de comunicação: palestras motivacionais, discursos terapêuticos, entretenimento religioso ou exibições personalistas. Frequentemente, a Escritura permanece apenas como ponto de partida simbólico para mensagens construídas em torno da experiência humana.
Historicamente, a igreja compreendeu que a autoridade da pregação derivava da autoridade da Palavra de Deus. Quando o texto bíblico deixa de governar o sermão, o púlpito passa inevitavelmente a ser ocupado pela subjectividade do pregador, pelas expectativas do público ou pelas exigências do mercado religioso.
Paradoxalmente, o próprio vazio contemporâneo revela a necessidade permanente da pregação. Em meio à saturação de vozes, opiniões e narrativas concorrentes, permanece a necessidade de uma palavra que não dependa apenas da instabilidade humana. Quanto mais fragmentada se torna a experiência humana, mais necessária se torna a exposição coerente das Escrituras.
Por isso, a recuperação da pregação não depende apenas de técnicas homiléticas mais sofisticadas. Depende, sobretudo, de um regresso à convicção de que Deus continua a falar por meio da sua Palavra.
Após décadas de ministério da Palavra, algumas percepções tornam-se inevitáveis. A primeira delas é que a Palavra de Deus permanece maior do que o pregador. Gerações mudam, culturas transformam-se e o próprio ministro amadurece e envelhece, mas as Escrituras continuam a falar com surpreendente actualidade e profundidade.
Também se torna evidente para mim que a pregação molda profundamente quem prega. O contacto contínuo com o texto bíblico confronta, corrige, consola e instrui o próprio expositor. Em certo sentido, ninguém permanece o mesmo após anos vivendo sob a disciplina do estudo e da proclamação das Escrituras.
Ao mesmo tempo, quase meio século de ministério permite-me perceber que a verdadeira relevância da pregação não pode ser medida apenas por números, visibilidade ou impacto imediato. Muitas vezes, o seu efeito mais profundo ocorre silenciosamente: na formação gradual da igreja, na consolidação da fé, na preservação doutrinária e na transmissão fiel do evangelho entre gerações.
Métodos mudam. Contextos históricos alteram-se. Ferramentas de comunicação multiplicam-se. Ainda assim, a necessidade fundamental da igreja permanece a mesma: homens chamados por Deus abrindo as Escrituras diante do povo e anunciando fielmente o evangelho de Jesus Cristo.
Talvez por isso os períodos de maior vigor espiritual na história da igreja tenham estado quase sempre ligados ao regresso da Palavra pregada. Porque, no fim, a igreja continua a ser edificada da mesma forma como começou: pela proclamação das Escrituras.
Gilson Santos é ministro evangélico baptista por quase quarenta anos. É pastor e missionário em Portugal, onde serve na Primeira Igreja Baptista de Lisboa, no Seminário Martin Bucer e na Rede Reformada. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.