Aprender a Envelhecer no Ministério
Introdução
Todos os pastores sabem que devem preparar sermões. Sabem que devem preparar líderes, preparar a igreja para os desafios do futuro e preparar pessoas para enfrentar o sofrimento, a enfermidade e a morte. No entanto, nem sempre param para considerar uma realidade inevitável: também precisam preparar-se para a sua própria velhice.
O remédio contra o envelhecimento é a morte antes de sua chegada. A velhice, contudo, não chega de repente. Ela aproxima-se lentamente, quase sem ser percebida. Primeiro surgem pequenas limitações físicas. Depois aparecem mudanças no ritmo de trabalho, na disposição, na resistência e na capacidade de recuperação. Mais tarde, começam as transições ministeriais, familiares e pessoais que acompanham esta fase da vida. Por isso, a questão não é saber se um pastor envelhecerá. A questão é saber como envelhecerá.
A Escritura apresenta a velhice não apenas como um tempo de fragilidade, mas também como uma estação de maturidade, sabedoria e fruto. O salmista afirma que os justos, mesmo na velhice, continuam a dar fruto (Salmo 92:12–15). A meta, portanto, não é simplesmente chegar aos últimos anos da vida, mas chegar a eles com fidelidade, lucidez espiritual e utilidade para o Reino de Deus. Preparar-se para a velhice não é um exercício de pessimismo. É um acto de prudência cristã.
A Identidade para Além da Função
Talvez uma das transições mais difíceis para muitos pastores seja descobrir quem são quando já não conseguem fazer tudo o que faziam antes. Durante décadas, a vida ministerial ocupa o centro das rotinas. O pastor prega, aconselha, visita, lidera reuniões, acompanha famílias e toma decisões. Aos poucos, a função passa a ocupar um espaço tão amplo que pode tornar-se difícil distinguir entre a identidade pessoal e o papel ministerial.
Contudo, antes de ser pastor, o homem é discípulo de Cristo. Esta verdade parece simples, mas torna-se especialmente importante à medida que os anos avançam. O ministério é uma vocação preciosa, mas não constitui o fundamento último da identidade cristã. A nossa identidade repousa na união com Cristo e não no cargo que ocupamos.
Quando esta realidade está bem estabelecida, as mudanças próprias da idade são geralmente enfrentadas com maior serenidade. O pastor pode aceitar limitações sem sentir que perdeu o seu valor. Pode reduzir responsabilidades sem concluir que perdeu o seu propósito. Pode deixar determinadas funções sem abandonar o seu chamado fundamental de seguir e servir a Cristo. Envelhecer bem começa, em grande medida, aqui: aprendendo a distinguir entre aquilo que fazemos e aquilo que somos.
O Legado para Além da Própria Geração
A maturidade ministerial produz uma mudança de perspectiva. Nos primeiros anos, o foco costuma recair sobre aquilo que o pastor precisa construir. Com o passar do tempo, cresce a consciência daquilo que precisa deixar preparado.
Nenhum ministério terreno é permanente. Nenhum líder permanece para sempre. Por isso, uma das responsabilidades mais importantes de um pastor maduro consiste em preparar aqueles que virão depois dele. Moisés preparou Josué. Paulo preparou Timóteo e Tito. O próprio Senhor Jesus investiu grande parte do seu ministério na formação daqueles que continuariam a obra após a sua ascensão.
Há uma diferença significativa entre construir um ministério e construir pessoas. Programas podem desaparecer. Estruturas podem mudar. Mas homens e mulheres formados para servir a Cristo continuam a influenciar gerações.
Por essa razão, o pastor que envelhece com sabedoria aprende a deslocar parte das suas energias da execução para a formação. Continua a servir, mas passa a investir mais profundamente na transmissão de experiência, discernimento e maturidade. Uma das marcas mais belas da velhice cristã é a capacidade de alegrar-se ao ver outros assumir responsabilidades que antes lhe pertenciam.
Cuidar do Instrumento do Ministério
Ao longo da história da igreja, não foram poucos os ministros que se desgastaram excessivamente em nome de uma dedicação sincera ao serviço cristão. Contudo, existe uma diferença entre sacrificar-se por amor a Cristo e negligenciar de forma imprudente os recursos que Deus confiou.
O corpo, a mente e a vida emocional não são obstáculos ao ministério. São instrumentos através dos quais o ministério é exercido. Por isso, cuidar da saúde física não deve ser visto como luxo nem como expressão de vaidade. Trata-se de uma questão de mordomia. Assim, tanto quanto nos seja possível, alimentação adequada, actividade física compatível com a idade, descanso suficiente e acompanhamento médico regular são medidas simples que frequentemente produzem benefícios duradouros.
O mesmo se aplica à saúde emocional. O ministério expõe o pastor a pressões constantes, conflitos, decepções, perdas e sobrecargas que nem sempre são visíveis para os outros. Ignorar estas realidades não as elimina. Pelo contrário, tende a agravá-las.
Da mesma forma, a saúde espiritual exige atenção contínua. Existe sempre o risco de substituir a comunhão pessoal com Deus pela actividade religiosa. O homem pode continuar a falar sobre Deus mesmo quando a sua própria alma já não encontra repouso n’Ele.
A preparação para a velhice começa muito antes da velhice chegar. Muitas das condições que acompanharão os últimos anos da vida são moldadas pelas escolhas realizadas décadas antes. Por isso, cuidar hoje do corpo, da mente e da alma é também uma forma de preparar o ministério de amanhã.
A Prudência dos Anos Futuros
A confiança do cristão está em Deus. Esta afirmação permanece verdadeira na juventude, na maturidade e na velhice. Contudo, a mesma Escritura que nos ensina a confiar na providência divina também enaltece a prudência, o planeamento responsável e a boa administração dos recursos recebidos.
Durante os anos de maior vigor, é relativamente fácil imaginar que a capacidade de trabalho permanecerá sempre disponível. Porém, a realidade é que as forças diminuem, as necessidades aumentam e algumas circunstâncias tornam-se menos previsíveis. Preparar-se para esse tempo não é falta de fé; é uma expressão de sabedoria.
Neste contexto, a estabilidade financeira tende a adquirir um significado particular. O objectivo não é acumular riqueza nem transformar o património numa medida de sucesso ministerial. O propósito é reduzir vulnerabilidades desnecessárias e proporcionar condições dignas para a própria vida e para aqueles que dependem de nós.
Para muitos pastores, uma das expressões mais concretas dessa prudência consiste em procurar, quando possível, uma residência estável para os anos futuros. Não como símbolo de prosperidade, menos ainda como ostentação de opulência, mas como dignificante abrigo. Não como motivo de orgulho, mas como forma de proteger a família numa fase em que a capacidade de gerar rendimentos poderá ser menor. Há uma serenidade especial em saber que o cônjuge e a família possuem um lugar seguro para viver quando os anos avançarem. A confiança continua depositada em Deus, mas utiliza-se, com gratidão, os meios que Ele providencia.
Preparar-se financeiramente para a velhice não deve significar viver-se obcecado pelo futuro. Significa reconhecer que a prudência também faz parte da mordomia cristã.
Construir Relações para os Últimos Capítulos da Vida
Ao pensar na velhice, muitas pessoas concentram-se exclusivamente nas questões económicas ou de saúde. Contudo, uma das maiores riquezas dos últimos anos da vida encontra-se frequentemente nos relacionamentos construídos ao longo do caminho. Nenhuma casa substitui uma família próxima. Nenhuma segurança financeira substitui a presença de pessoas que amam genuinamente. Por isso, uma preparação sábia para a velhice inclui também o cultivo intencional das relações familiares.
O primeiro círculo dessa preparação encontra-se no casamento. Com o passar dos anos, muitos dos papéis que ocuparam grande parte da vida — criação dos filhos, responsabilidades profissionais e exigências ministeriais — sofrem alterações. Nesta nova etapa, torna-se ainda mais importante que marido e mulher não sejam apenas companheiros de tarefas, mas companheiros de vida. O vínculo conjugal amadurecido pelo tempo transforma-se frequentemente numa das maiores fontes de estabilidade emocional e espiritual da velhice.
Em seguida surgem os filhos. Muitos pastores investiram profundamente na vida da igreja e fizeram-no por amor sincero ao Senhor. Contudo, a dedicação ministerial não deve impedir o investimento na própria família. A velhice saudável costuma ser precedida por décadas de presença, diálogo, afecto e cuidado. Os filhos dificilmente se aproximam dos pais apenas porque estes envelheceram. Normalmente aproximam-se porque, ao longo dos anos, foi construída uma relação de confiança.
Isto não significa que os filhos devam ser vistos como um plano de segurança para o futuro. A responsabilidade dos pais continua a ser preparar-se da melhor forma possível para os anos vindouros. Mas significa reconhecer que relações familiares saudáveis se tornam uma bênção inestimável quando as limitações aumentam.
Há ainda uma dimensão particularmente preciosa representada pelos netos. Muitos avós descobrem, nesta fase da vida, oportunidades que não possuíram quando os filhos eram pequenos. O ritmo desacelera. As prioridades reorganizam-se. Surge espaço para conversas, histórias, oração e convivência. Os netos talvez não se recordem de todos os sermões pregados pelo avô. Mas poderão recordar-se da forma como ele viveu a sua fé, das histórias que contou e das orações que fez por eles.
Neste sentido, a velhice pode tornar-se uma estação privilegiada para a transmissão do legado espiritual da família. Mais amplamente, os descendentes herdam muito mais do que bens materiais. Herdam exemplos, valores, memórias, hábitos e convicções. Um pastor que chega aos últimos anos da vida rodeado por filhos, netos e familiares que conhecem a sua história de fé recebeu uma dádiva cujo valor ultrapassa qualquer património terreno.
Não Envelhecer Sozinho
Existe, porém, uma realidade que não pode ser ignorada: nem toda a preparação para a velhice pode ser concentrada no âmbito familiar. Ao longo dos anos, muitos pastores desenvolvem uma extensa rede de contactos ministeriais. Conhecem inúmeras pessoas, participam em conferências, aconselham famílias e acompanham comunidades inteiras. No entanto, nem sempre essas relações se transformam em amizades profundas.
A velhice tende a revelar a diferença entre popularidade e amizade. Os admiradores podem desaparecer. Os amigos permanecem. Por isso, uma preparação sábia para os anos futuros inclui o cultivo de relacionamentos sinceros e duradouros. Homens e mulheres que conhecem as nossas alegrias, as nossas lutas, as nossas fragilidades e que permanecem presentes independentemente das funções que exercemos.
A própria igreja local desempenha um papel importante neste processo. A comunhão cristã não foi criada apenas para os tempos de prosperidade. Foi criada para que os membros do corpo de Cristo caminhem juntos em todas as estações da vida. Quando a juventude passa, as forças diminuem e os ritmos mudam, a presença de uma comunidade saudável torna-se ainda mais valiosa.
Ninguém foi chamado a envelhecer sozinho. Deus, na sua bondade, concede família, amigos e igreja para que os últimos capítulos da caminhada sejam vividos em comunhão, gratidão e esperança.
Da Produtividade à Fecundidade
Talvez uma das mudanças mais significativas da velhice seja a necessidade de redefinir o que significa ser útil. Durante grande parte da vida, a utilidade costuma ser medida pela capacidade de realizar tarefas, assumir responsabilidades, liderar projectos e responder a múltiplas exigências. O ministério pastoral, em particular, tende a valorizar intensamente a actividade. Sermões são preparados, visitas são realizadas, reuniões são conduzidas e decisões são tomadas.
Com o passar dos anos, porém, a realidade impõe novos limites. O corpo já não responde com a mesma rapidez. A energia torna-se mais escassa. Algumas responsabilidades deixam de poder ser assumidas da mesma forma. É precisamente neste momento que muitos homens enfrentam uma crise silenciosa. Se o valor da vida foi construído apenas sobre aquilo que produzem, a redução da actividade será interpretada como perda de significado.
Mas a Escritura apresenta uma perspectiva diferente. O fruto espiritual nem sempre está associado à intensidade da actividade. Muitas vezes está ligado à profundidade da influência. Há uma forma de serviço que pertence especialmente à maturidade. É a doce face do ministério que se expressa na sabedoria, na presença, no aconselhamento ponderado, na oração perseverante e no encorajamento paciente.
Portanto, o pastor que envelhece bem aprende gradualmente a trocar parte da sua produtividade pela sua fecundidade. Talvez pregue menos vezes. Talvez viaje menos. Talvez já não esteja presente em todas as decisões. Contudo, a sua vida continua a produzir fruto através da experiência acumulada, da estabilidade que transmite e da perspectiva que oferece às gerações mais novas. Neste sentido, a velhice não representa necessariamente uma diminuição da utilidade. Pode representar uma transformação da forma de servir.
O justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro no Líbano. Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos: serão viçosos e florescentes; para anunciarem que o Senhor é recto: ele é a minha rocha, e nele não há injustiça. (Salmo 92:12–15, ARC-SBP).
Aprender a Diminuir
Uma das lições mais difíceis da maturidade consiste em aceitar que o Reino de Deus continuará sem nós. Sabemos esta verdade teologicamente desde o início do ministério. Contudo, experimentá-la existencialmente é algo diferente. Chega o momento em que outros pregam, lideram, aconselham e assumem responsabilidades que durante anos estiveram sob os nossos cuidados. Algumas decisões passam a ser tomadas por uma nova geração. Novas vozes surgem. Novos métodos aparecem.
Nem sempre esta transição é simples. Existe a tentação de resistir, de controlar excessivamente ou de permanecer no centro de tudo durante mais tempo do que seria saudável. Porém, a maturidade cristã conduz-nos noutra direcção. João Baptista ofereceu uma das mais belas expressões desta verdade quando declarou: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (João 3.30). Estas palavras não pertencem apenas ao início do ministério cristão. Pertencem também à sua etapa final.
Envelhecer bem implica aceitar que Cristo permanece o centro da sua igreja. Nunca fomos indispensáveis. Sempre fomos servos. Paradoxalmente, é nesta libertação da necessidade de protagonismo que muitos pastores encontram uma nova paz. Já não precisam demonstrar nada. Já não precisam provar a sua relevância. Podem simplesmente continuar a servir com humildade, alegria e gratidão.
A Beleza dos Últimos Anos
A cultura contemporânea valoriza intensamente a juventude, a velocidade e a inovação. Por isso, muitas vezes olha para a velhice quase exclusivamente através das lentes da perda. (cf. aqui)
A Escritura, porém, oferece um quadro mais rico. Sem negar as limitações que acompanham o envelhecimento, ela reconhece a dignidade dos cabelos brancos, a beleza da experiência acumulada e o valor da perseverança demonstrada ao longo de décadas.
Existe algo profundamente belo num homem que caminhou durante muitos anos com Deus. A sua fé pode ter sido amplamente testada por alegrias e tristezas. Já atravessou crises, decepções, enfermidades e perdas. Já viu respostas surpreendentes às suas orações e também caminhos que permaneceram misteriosos. Ainda assim, continua a confiar.
A velhice cristã não é a celebração da força humana. É o testemunho da fidelidade de Deus. Cada ruga, cada limitação e cada memória carregam consigo a história de uma graça que sustentou o crente ao longo da sua peregrinação.
Conclusão
Preparar-se para a velhice não é preparar-se para o fim da utilidade. É preparar-se para uma nova forma de fidelidade. Por isso, o pastor sábio cuida da sua alma, da sua saúde, da sua família e dos recursos que Deus lhe confiou. Forma sucessores. Cultiva amizades. Investe nos filhos e netos. Aprende a viver para além da função que exerce.
Mas, acima de tudo, aprende a manter os olhos fixos em Cristo. No princípio do ministério, Cristo foi a razão do chamado. Ao longo do ministério, Cristo foi a força para perseverar. E, nos últimos anos da caminhada, Cristo continua a ser a esperança que sustenta. A verdadeira preparação para a velhice não consiste apenas em organizar os aspectos práticos do futuro. Consiste em aprofundar a comunhão com aquele que prometeu: “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mateus 28:20).
No fim, o maior desejo de um pastor não deve ser preservar a influência, conservar a força ou prolongar o protagonismo. Deve ser terminar a carreira com fidelidade. Chegar ao final da jornada podendo olhar para trás com gratidão, olhar para a frente com esperança e descansar na certeza de que o Senhor que o chamou na juventude continuará a sustentá-lo na velhice. Porque a glória do ministério nunca esteve na força do pastor. Sempre esteve na fidelidade do Pastor Perfeito.
E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória. (1 Pedro 5:4, ARC-SBP).
Gilson Santos é ministro evangélico baptista por quase quarenta anos. É pastor e missionário em Portugal, onde serve na Primeira Igreja Baptista de Lisboa, no Seminário Martin Bucer e na Rede Reformada. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.