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Entre duas velhas pontes da Região Maronesa

Um cibo de terra roubado
A um mar de pinheiros sem fim,
Um monte e um Rio ao lado,
E lá no meio – Mondim!!!

É assim que Luís Jales Oliveira, escritor e poeta regional, carinhosamente tratado por “Ginho”, situa e louva o lugar em que nasceu: Mondim de Basto. O “monte” celebrado, “constantemente enorme e onipresente” pelos quatro cantos daquele lugar onde o Minho acaba e Trás-os-Montes começa, trata-se do Monte Farinha, que os geólogos apontam como oriundo do topo do Alvão. Local privilegiado, e cercado de lendas, místicas e tradições, o Monte Farinha é um miradouro excepcional. Nas milenares fragas de granito daquele monte, a uma altitude de mil metros, ergue-se o santuário da “Senhora da Graça”, originalmente erigido no século dezesseis, que tem atraído ao longo da história multidões de fiéis e romeiros. Muitos também sobem ao topo do monte para turismo ou para práticas desportivas de múltiplas modalidades.

No alto do monte, quando o visitante dirige o olhar para o poente, destaca-se uma serpente de água movendo-se de norte para sul. O “rio ao lado” é o fabuloso Tâmega, que, em seu curso médio-inferior, atravessa, tal qual aorta, as Terras de Basto, tendo em sua margem esquerda a bucólica e atapetada ribeira mondinense. A importante via pluvial sempre foi um obstáculo para as comunicações entre as povoações. Na Idade Média, entretanto, a construção de pontes e calçadas era considerada uma importante obra de misericórdia. “Era um serviço religioso e chegou mesmo a ser um ideal de santidade construir pontes, quer prestando serviço material, quer reunindo o numerário suficiente para a sua edificação”. No trecho português, sobre o Tâmega foram construídas importantes e históricas pontes de cantaria: as pontes de Chaves (que remonta ao tempo do imperador Trajano), Cavez, Mondim, Amarante e a antiga ponte de Canaveses – este último, o local em que o Tâmega empresta as suas águas ao Douro. Além das pontes, as alternativas eram os vários vaus existentes entre Mondim e Canaveses, que em maio são fáceis de transpor. Como exemplos, temos o vau de Sete Fontes e o Vau dos Barões, junto à Mondim, que comunica o lugar de Paradança ao de Arnóia, este situado no vizinho município de Celorico de Basto.

Rio Tâmega em Portugal - População Residente (2011)

A antiga “Ponte de Mondim” sobre o Tâmega foi construída em data incerta antes de 1549 e substituída pela atual, cujo projeto foi ordenado em 1842 por D. Maria II. A necessidade de uma ponte naquele lugar era já documentada em 1282, visto que, a partir do século dez, a travessia do Tâmega em Mondim tornara-se muito frequente, pois ficava em uma variante do trajeto para Santiago de Compostela de quem procedia de Trancoso e Lamego. A antiga ponte teria também facilitado o tráfego e a interligação entre as antigas estradas romanas da região.

“Um cibo de terra roubado a um mar de pinheiros sem fim”, o atual concelho de Mondim de Basto, cuja sede é a vila de mesmo nome, demarca o distrito de Vila Real, ao qual pertence, dos de Braga e Porto. O território é limitado de Nordeste a Sudeste pelas serras do Alvão e Marão. Entre os concelhos vizinhos, ao Sul está o de Amarante, no distrito do Porto. A história da região é milenar, e desde a época dos romanos é traçada com alguma linearidade, ganhando fortes contornos católicos romanos no período da Idade Média, em especial a partir do século treze.

Freguesias no Concelho de Mondim de Basto, Vila Real

VILAR DE VIANDO

Do topo do Monte Farinha, quando o visitante dirige o olhar para o Sul, contempla o recorte, de nascente para poente, de um dos principais afluentes do Tâmega em sua margem esquerda. O Rio Cabril nasce perto de Bilhó, passa por Vilar de Ferreiros e deságua no rio Tâmega junto à freguesia de Mondim, após um percurso de cerca de quatorze quilômetros, sendo também nesta freguesia que se situa a maior parte da sua bacia hidrográfica. Rio truteiro e de águas cristalinas, faz mover moinhos, irriga campos de cultivo e fertiliza a bacia de Vilar de Viando, antes de chegar à sua foz. No Planalto das Gevancas, região da nascente do Cabril, existe hoje o sítio arqueológico onde foram encontrados vestígios da cultura pré-histórica.

Vilar de Viando é o nome amplo para a região na margem sul do rio Cabril. Além da antiga “vila” com este nome, a região inclui diversos lugares, tais como Pombal, Fundo, Mota, Campo de Cima, Tapada, Ramada, Alto da Corda, dentre outros. A história da antiga “aldeia” de Veando remonta aos tempos anteriores ao nascimento de Cristo. Os romanos chegaram à Península Ibérica em 218 a.C., no contexto da Segunda Guerra Púnica. Eles denominavam castra às povoações principais pré-romanas, bem fortificadas e sempre nas coroas dos montes e colinas. Na revista O Archeólogo Português há referência a um “Castro de Vilar de Viando”, o qual era “um ponto estratégico de grande importância pelas condições topográficas”… Com a chegada dos romanos, os colonos mais poderosos adquiriram grandes propriedades agrícolas, cuja exploração estava centralizada na villae. As villae rústicas foram os núcleos iniciais dos atuais povoados. Na região de Mondim, villae de Venandus foi uma delas. Segundo Valério Máximo, por volta do ano 137 a.C., na região se teria acampado, com as suas tropas, o cônsul Décimo Júnio Bruto Galaico, contemporâneo dos irmãos Graco, no tempo da república romana.

Nas inquirições de D. Afonso II, em 1220, faz-se referência ao castelo de Gonsagêldiz e ao Castelo de Garcia Pais em Vilar de Viando. No “numeramento” de 1530, ordenado por D. João III, havia na vila de Mondim trinta e oito residências, e em “Vylar de Vyãdo” cinquenta e sete, sendo esta, então, a aldeia mais populosa no termo do concelho. No alvorecer do século dezoito havia ali uma “Capela de Vilar de Viando”. Mais tarde, uma capela de São João, de que não há memória, ficava no lugar de Campo de Cima da aldeia de Vilar de Viando, “junto das casas onde vivia o Padre Manoel Gomes”. Uma ermida antiga no lugar, e que permanece até aos dias atuais, é a capela de Santa Luzia.

O lugar de Vilar de Viando, Mondim de Basto

Na Idade Média havia localidades com relativa importância e, portanto, caminhos que as ligavam entre si. As vias romanas perduraram e serviram de base ao lançamento das estradas medievais, cuja conservação pertencia às populações, por normas emanadas das próprias autoridades locais, sendo as pessoas multadas se não o fizessem. Em Vilar de Viando passava a antiquíssima Média-Via – a qual se integrava ao amplo sistema que ligava Favaios por Panoias em Vila Real a Chaves, ao norte. A noticiar a passagem in loco da antiga via, os lugares chamados Paradança (Parada d’ansar, ou Parada Ansere) e Pardelhas (Paradela). As vias de comunicação medievais mantiveram-se quase inalteráveis até à “revolução” feita pelo ministro Fontes Pereira de Melo (1819-1887).

De Mondim para Ermelo, a referida via medieval atravessava os rios Cabril e Olo, onde foram construídas, respectivamente, as pontes de Vilar de Viando e a de Várzea, em Ermelo. A conhecida ponte de cantaria sobre o rio Cabril interligava a antiga vila de Veando à vila de Mondim. Construída em granito da região, a ponte em Vilar de Viando foi edificada, provavelmente, na Baixa Idade Média, como indica a sua tipologia com um único e amplo arco de volta perfeita, de aduelas estreitas e compridas, com tabuleiro em cavalete e possantes reforços a montante e a jusante. As tradições vulgares dizem que por ela passaram exércitos romanos e franceses, sendo também percurso dos peregrinos de Santiago. Está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1990 e em 2003 sofreu obras de reabilitação.

Gilson Santos na ponte medieval sobre o Rio Cabril em Vilar de Viando, Mondim de Basto.

Gilson Santos na ponte medieval sobre o Rio Cabril em Vilar de Viando, Mondim de Basto.

Assim como todo o concelho de Mondim, Vilar de Viando conheceu, desde os princípios do século dezessete, a partida de pessoas em demanda à “Terra Prometida”. E assim, ser mondinense era ter algum familiar no Brasil, que partira “desfiado em lágrimas silenciosas, desesperadamente agarrado aos baús e às malas de viagens que levavam coladas no interior, a estampa de Nossa Senhora da Graça, encafuados nos porões bafientos e miseráveis dos navios com a Cruz de Cristo nas velas insufladas” (OLIVEIRA, p. 14).

Dentre os mondinenses nascidos em Vilar de Viando, que demandaram ao Brasil, está Manuel Gonçalves Meirelles (ca. 1707—1777). Este, um dos fundadores de Triunfo, histórico município riograndense, berço de conhecidos personagens da história gaúcha, e cujo passado é fortemente vinculado à Revolução Farroupilha. Tendo sido palco de vários combates, como a Batalha do Fanfa, quando Bento Gonçalves foi preso, Triunfo nasceu de duas sesmarias doadas no ano de 1752, e que pertenceram ao mondinense Manoel Gonçalves Meirelles e a Francisco da Silva, ambos casados com filhas do madeirense Jerônimo de Ornellas Menezes e Vasconcellos, povoador inicial de Porto Alegre, e que seguiria para Triunfo por volta de 1754, onde, por fim, foi sepultado. O genro, Manoel Gonçalves Meirelles, casara-se com a terceira filha (daquele matrimônio), Antônia da Costa Barbosa, em Viamão, onde batizara seus seis primeiros filhos, nascidos no Porto do Dornelles, também em Viamão, entre 1743 e 1754. Pouco antes, havia Meirelles obtido a sesmaria na região da atual Triunfo. Manoel Gonçalves Meirelles faleceu em Triunfo, a 28 de agosto de 1777; ele é o avô materno de Bento Gonçalves, a quem legou considerável influência. Bento Gonçalves da Silva (1788-1847), triunfense cujas origens pelo lado materno estão, portanto, em Vilar de Viando, e que acabaria por proclamar a ”República do Rio Grande do Sul” na Revolução Farroupilha, teve sua história romanceada por Letícia Wierzchowski Gomes em A Casa das Sete Mulheres, original do roteiro adaptado em uma minissérie brasileira, com cinquenta e um capítulos, produzida pela Rede Globo em 2003.

JUNTO A DUAS VELHAS PONTES

Na freguesia de Mondim de Basto, o sobrenome Gonçalves era, de longa data, muitíssimo comum. Por sua vez, até a parte final do século dezoito, o sobrenome Santos foi muitíssimo raro nos documentos eclesiásticos. No caso específico de nossa ancestralidade familiar, o sobrenome Santos aparece pela primeira vez nos registros do pedobatismo católico dos dois primeiros filhos do casal Geraldo Gonçalves (1749-1802) e Engrácia Martins Diniz, (1751-1815), mondinenses naturais de Vilar de Viando, que se casaram em 28 de janeiro de 1776. Emergindo pela primeira vez nos dois anos seguintes, o sobrenome Santos evidenciava um significativo vínculo do núcleo familiar com uma “família Santos”, à época em Lisboa. Desde então, pode-se verificar uma transmissão ininterrupta do sobrenome aos descendentes de Geraldo Gonçalves e Engrácia Diniz. Em particular, destaco aqui Manoel José Gonçalves dos Santos, meu sexto avô, sempre referido nos documentos com o sobrenome Santos. Embora quatro significativas possibilidades se destaquem, até o presente momento não se obteve, com total clareza, o porquê do surgimento do sobrenome Santos no contexto da família Gonçalves em Vilar de Viando.

O casal mondinense Manoel José Gonçalves dos Santos (1783-1852) e Clara Joaquina de Moura (c. 1793-1873) residiu inicialmente no lugar do “Fundo” de Vilar de Viando, terra dos ancestrais dele, nas imediações da ponte medieval sobre o Cabril. O bisavô paterno de Manoel dos Santos nasceu no final do século dezessete na vizinha freguesia mondinense de Vilar de Ferreiros, vindo a estabelecer sua família em Viando; a família Diniz, da qual descendia a mãe, tinha raízes antigas ali mesmo, no contiguo lugar de Pombal. No “Fundo” de Vilar de Viando, Manoel Gonçalves dos Santos e Clara de Moura tiveram os primeiros filhos, dentre os quais se encontrava a minha quinta avó. Gilson Santos junto à ponte românica no Lugar da Rua em Aboadela, AmarantePosteriormente ao sepultamento dos pais, Manoel dos Santos se mudou para o outro lado da serra maronesa, para a freguesia de Santa Maria de Aboadela de Ovelha do Marão, pouco mais de vinte quilômetros ao sul de Vilar de Viando. Deixava, assim, a circunscrição eclesiástica onde foram sepultados os seus ancestrais – a maior parte deles na igreja matriz de São Cristóvão de Mondim de Basto, outros, porém, na Capela do Santíssimo Sacramento e da Paixão do Senhor. No início da década de 1820, a família estabeleceu-se no “Lugar da Rua”, bem junto à ponte românica sobre o rio Ovelha, e ali nasceu a maior parte dos filhos.

O Rio Ovelha, cuja nascente está nas encostas ocidentais da Serra do Marão, é um outro afluente do Tâmega em sua margem esquerda. A região denominada Ovelha do Marão foi uma antiga Beetria e posteriormente uma Honra (senhorio nobre) no reino português, tendo recebido de D. Sancho I o seu primeiro foral, à mesma época em que Ermelo, isto é, em abril de 1196. A ponte românica sobre o rio Ovelha é um dos símbolos mais importantes da “aldeia”, e um dos mais destacados exemplos da arquitetura românica da região. Ela foi erguida no início do século dezessete durante a dinastia filipina, tendo sido construída em granito e juntas preenchidas com argamassas e seixos, e possui quatro arcos de volta perfeita de diferentes tamanhos. Na margem esquerda situa-se um cruzeiro do século dezessete, à entrada da ponte, junto ao parapeito à montante, tendo inscrição com a data de construção na face frontal. O símbolo é uma cruz latina lisa, de secção circular. Paralelo ao cruzeiro situa-se o antigo pelourinho de Aboadela. Em Portugal, os pelourinhos ou picotas (esta, a designação mais antiga e popular) dos municípios localizavam-se sempre em frente ao edifício da câmara e marcavam o local onde se aplicavam as penas. Os presos eram amarrados às argolas e açoitados ou mutilados, consoante a gravidade do delito e os costumes da época. Apesar de muitos pelourinhos terem sido destruídos pelos liberais a partir de 1834, visto os considerarem um símbolo de tirania, este permaneceu praticamente intacto. O fato de a localidade possuir um pelourinho demonstra o seu estatuto e importância durante o período medieval.

Seguindo-se alguns quilômetros por aquela mesma estrada em direção ao Porto, chega-se ao Rio Tâmega, sobre o qual foi erguida a histórica e mais emblemática ponte de toda aquela região: a Ponte de São Gonçalo de Amarante. A tradição local reporta que, no século treze, São Gonçalo “tinha observado bastas vezes os grandes perigos que corriam os viandantes e os peregrinos durante a maior parte do ano, devido ao vultuoso e impetuoso caudal do rio, o qual frequentemente voltava as barcas de passagem, provocando muitos afogamentos de pessoas e de animais, além da perda de numerosas e valiosas mercadorias”. Assim, a tradição corrente é que, por volta de 1250, o beato Gonçalo de Amarante (1187-1262) construiu ou reconstruiu esta ponte, com os recursos oriundos de esmolas por ele obtidas na região. A ponte sofreu com desmoronamentos e em 1782 foi iniciada a reconstrução com projeto de Carlos Amarante (1748-1815), tendo sido completada em 1791. Palco de um episódio na heroica defesa contra as tropas napoleônicas durante a Segunda Invasão Francesa, a ponte encontra-se classificada como Monumento Nacional desde 1910.

Gilson Santos junto à Ponte de São Gonçalo, em Amarante. No painel de azulejo do banco, o pelourinho e a ponte de Aboadela de Ovelha do Marão.

Gilson Santos junto à Ponte de São Gonçalo, em Amarante. No painel de azulejo do banco, o pelourinho e a ponte de Aboadela de Ovelha do Marão.

Texto por Gilson Santos, em 02/03/2020. Integra um projeto mais amplo de genealogia e história familiar, coordenado pelo autor e envolvendo outros da família. Para contatos com o autor, clique aqui. Obras consultadas: 1. LOPES, Eduardo Teixeira. Mondim de Basto; Memórias Históricas. Produção gráfica de MEDISA – Edições e Divulgações Científicas, Lda, 2000, 518p. 2. MAGALHÃES, Francisco A. C., História de Amarante, 2a. edição. Amarante: Câmara Municipal de Amarante, 2008, 277p. 3. OLIVEIRA, Luis Jales. Mondim de Basto, 2016, 66p. 4. PEREIRA, André Filipe Castro. O Turismo Fluvial no Rio Tâmega. Universidade do Minho, 2014, 134p. 5. PEREIO, Xerardo (Coord.). Patrimônio Cultural Jacobeu, turismo e peregrinação: O Caminho Português Interior de Santiago de Compostela (CPIS). Tenerife: Pasos, RTPC, 2019, 220p.