Pular para o conteúdo

“E agora, José?”

Joseph the Carpenter (José, o Carpinteiro), 1642, Georges de la Tour

Joseph the Carpenter (José, o Carpinteiro), 1642, Georges de la Tour (French Baroque Era Painter, 1593-1652), oil on canvas, 130 cm × 100 cm, Musée du Louvre, Paris, France.

Em Portugal os nomes próprios repetiram-se muitíssimo. Tome-se em consideração a cultura milenar, na qual se dava nomes cristãos aos filhos, bem como a prática generalizada de dar ao bebê que recebia o batismo católico o nome em homenagem ao padrinho ou madrinha. Como exemplos de nomes próprios comuns, há os bíblicos, tais como José, Pedro, João, Anna e Maria; os nomes da história cristã, tais como Antônio, Francisco, Bento, Rita e Clara; ou nomes prezados à cultura lusitana, tais como Manoel, Joaquim, Catarina e Thereza. Muitos nomes assumem a forma masculina e feminina, como por exemplo: Antônio(a), Bento(a), Manoel(a), Joaquim/Joaquina. 

D. José I de Portugal

Entre os nomes próprios masculinos, José é provavelmente o mais comum. Talvez o mais notável português com este nome tenha sido D. José I, da dinastia Bragança. Terceiro filho de D. João V, conquanto o segundo varão, D. José era lisboeta, nascido em 1714, e governou Portugal de 1750 até sua morte, em Sintra, em 1777. O reinado de José I, definido como um “déspota esclarecido”, foi marcado sobretudo pelas políticas do seu secretário de Estado, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699–1782), o Marquês de Pombal, que reorganizou as leis, a economia e a sociedade portuguesa, transformando Portugal num país moderno.

Foi no período de D. José que aconteceu o terrível terremoto de Lisboa, em 1 de novembro de 1755. A cidade foi devastada pelo tremor de terra, pelo maremoto e ainda pelos incêndios que se seguiram, tendo sido subsequentemente reconstruída de forma muito hábil, com traçados modernos que até hoje encantam os visitantes na baixa pombalina de Lisboa. D. José também sofrerá a tentativa de regicídio em 3 de setembro de 1758, sobrevivendo, porém, ao atentado. Em seu governo a Companhia de Jesus foi declarada ilegal e os jesuítas expulsos de Portugal e das colônias. O Marquês de Pombal, a partir de 1770, quando adquiriu o referido título, não conhecerá oposição, e terá quase exclusivamente o poder de governar Portugal. Em 1822, Pedro I, um bisneto de D. José, tornar-se-á o primeiro imperador do Brasil.

Assim, na segunda metade do século dezoito, o grande nome em Portugal não era mais um João ou um Pedro. Era um José, que contava com um Sebastião José como o mais influente em seu governo.

Estátua Equestre de D. José I, 1775, Joaquim Machado de Castro

Estátua Equestre de D. José I, 1775, Joaquim Machado de Castro (Escultor Português, 1731-1822), escultura em bronze, Praça do Comércio, Lisboa, Portugal.

Padres Josés em Campanhó

Em 13 de março de 1770, o Marquês de Pombal, do Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, em Lisboa, enviou uma carta ao arcebispo de Braga, em nome do rei D. José, apresentando José Martins de Carvalho, da Comarca de Vila Real, para vigário colado na freguesia de Santa Bárbara de Campanhó. Não se tratou, entretanto, do único vigário em Campanhó cujo nome era José. Houve outros. José Peixoto, vigário anual daquela paróquia, em resposta a um questionário enviado pelo desembargador e vigário geral, oferecera uma descrição da freguesia de Campanhó em 7 de março de 1758, da qual cito partes com atualização ortográfica e gramatical:

Fica na província de Trás-os-Montes, pertence ao Arcebispado de Braga primaz, comarca de Vila Real, termo da Vila de Ermelo, freguesia de Santa Bárbara de Campanhó. É anexa da Abadia de Ermelo deste mesmo concelho. […] Está situada em uma serra junto ao Marão […]. Santeyo, milho-maês e milho alvo, e algum vinho de árvores muito verdes e de tudo um pouco; o mais é centeio. […] É couto do Excelentíssimo Marquês de Marialva. […] Não tem correio e se serve do correio de Amarante, que chega no domingo e parte na quinta, e que dista daqui três léguas. Dista dez léguas de Braga e sessenta e seis de Lisboa. […] Chama-se as fraldas do Marão. É um braço que vem de todo o alto do Marão e acaba no Rio Olo […]. Cria-se nesta gado: bois e vacas, cabras e ovelhas. Há nela lobos e raposas, algumas perdizes e coelhos. Não há outros bichos… Sim, há alguns porcos monteses. […] Há um rio que passa pelo fundo desta freguesia que se chama o rio Olo, que tem seu princípio em Lamas do Olo. Nasce pequeno e logo daí a meia légua corre arrebatado […]. Não é navegável e nem se pode navegar […]. Morre no Rio Tâmega […].

“Vento e Campanhó, uma coisa só”, diz um adágio regional. Sede da freguesia tão detalhadamente descrita pelo antigo presbítero em meados do século dezoito, Campanhó é uma antiga e pequena “aldeia”, ao norte de Portugal, na região serrana que divide os distritos do Porto e Vila Real. Situa-se literalmente em uma encosta no alto de uma serra. Observadas à distância, as edificações naquele lugar parecem dependuradas. Para lá chegar é preciso “esgueirar-se” pelas encostas de um dos braços da Serra do Marão; há pontos nas imediações acima de oitocentos metros de altitude. As estradas são sinuosas, com alguns trechos estreitos, os quais têm ao lado despenhadeiros que trazem ao visitante de primeira viagem, e pouco afeito à altitude, algum frio na barriga. A vista, não obstante, é esplendorosa! Às noites de inverno a água congela nas rochas graníticas que caracterizam aquele solo, e no alto da serra por vezes há nevascas. A serra do Marão faz divisa entre os municípios de Amarante e Mondim de Basto, ambos banhados pelo Rio Tâmega.

Campanhó é referida nas Inquirições de 1258, de D. Afonso III (1210–1279), como fazendo parte da paróquia de São Vicente de Ermelo. Tornou-se instituição paroquial posteriormente ao século quatorze, dependendo de Ermelo sob diversos aspectos. Por meados de 1530, Campanhó tinha sete moradores e o lugar de Tejão, na mesma freguesia, contava com cinco moradores. No ano de 1757 havia ali naquela aldeia de montanha trinta famílias (“fogos”, isto é, casas ou locais habitados) e 115 habitantes. Segundo o padre José Peixoto, em 1758 a Igreja de Santa Bárbara de Campanhó tinha três altares. O antigo cruzeiro de Campanhó retrata “O Senhor dos Aflitos”. Até 31 de dezembro de 1853 a freguesia pertencia ao concelho de Ermelo, altura em que este foi extinto, passando então a integrar o de Mondim de Basto. Por decreto de 1895 foi agrupada no concelho de Celorico de Basto e anexada ao mesmo por decreto do ano seguinte, o qual suprimiu o concelho de Mondim de Basto. Voltará a este por decreto de 13 de janeiro de 1898. Pertenceu à diocese de Braga até a criação da de Vila Real. Tornou-se autônoma por decreto-lei de 31 de dezembro de 1936, e desde 2013 teve o seu território integrado na União de Freguesias de Campanhó e Paradança.

Campanhó, Mondim de Basto, Vila Real, Portugal

Outros Josés em Campanhó

Nos primeiros tempos do reinado de D. José I em Portugal, Thereza [Gonçalves] da Costa nasceu em Campanhó em 22 de fevereiro de 1753. Nasceu gêmea de uma irmã chamada Engrácia, e foi a segunda a nascer. As meninas eram filhas de Manoel da Costa Carrilho e de sua esposa, Maria Gonçalves. Félix Ribeiro, filho de Antônio Garcia e Maria Jacinta Ribeiro, nascido em 16 de junho de 1758 na freguesia de Aboadela (antiga “Ovelha do Marão”), em Amarante, subiu a serra e lá se casou com Thereza, na Igreja de Santa Bárbara de Campanhó, em 28 de janeiro de 1782. Dois Josés estavam entre as quatro testemunhas; o oficiante foi o pároco José Teixeira Mourão, que já em 10 de junho de 1763 fora encomendado, por quatro meses, para aquela paróquia.

Casados, Félix Ribeiro e Thereza da Costa estabeleceram sua família mais abaixo, na encosta ocidental da serra do Marão, em Aboadela, no local de origem da mãe dele, na mesma colina em que está a antiga igreja paroquial de Santa Maria de Aboadela. Porém, o primeiro filho do casal nascera no alto da serra, ainda em Campanhó. Foi mais um José na vida de Thereza! O avô paterno desta chamava-se José, e o primeiro filho de Thereza recebeu o nome de seu irmão, também José, o qual foi o padrinho de batismo do menino.

Assim, o menino José Ribeiro, filho primogênito, nasceu em Santa Bárbara de Campanhó, em 29 de dezembro de 1782 e foi ali batizado no dia cinco de janeiro seguinte pelo pároco José Teixeira Mourão, o mesmo que oficiara, quase um ano antes, o casamento de seus pais. Por conta do nome de seu pai, ele passou a ser chamado José Ribeiro Félix, alcunha que foi igualmente transmitida aos seus descendentes imediatos. 

Nascido no alto de um dos braços do Marão – lugar onde hoje giram várias pás gigantes das turbinas para energia eólica – José Ribeiro Félix é meu sexto avô. Ele se casou em Aboadela com Maria Garcia Mendes, em 7 de julho de 1811, e o casal residiu no lugar do Outeiro, bem junto ao vale do rio Ovelha, lugar da família da esposa. Ele faleceu em 11 de novembro de 1859, vinte dias após o falecimento da esposa.

Igreja de Santa Bárbara de Campanhó e Cruzeiro do Senhor dos Aflitos

Igreja de Santa Bárbara de Campanhó e Cruzeiro do Senhor dos Aflitos

Uma linhagem joseense

Um neto de José Ribeiro Félix nasceu no lugar do Outeiro, em Aboadela, em 19 de dezembro de 1839, tendo sido batizado no dia 21 seguinte na pia batismal daquela paróquia. Filho primogênito, trata-se agora de José Ribeiro dos Santos, este último sobrenome o da família mondinense de sua mãe. Este, assim como muitos de seus amigos, familiares e conterrâneos, emigrou para o Brasil. Tal qual muitos meninos e rapazes portugueses de seu tempo, ele deixou a pátria pela foz do Rio Douro, e contava na época com quinze anos. Em 13 de dezembro de 1854 ele teve o registro de seu passaporte, no Governo Civil do Porto. Destinava-se ao porto do Rio de Janeiro. Como não se contava com o recurso de fotografia, as características físicas foram descritas: “rosto redondo”, “cabelos e sobrancelhas castanhos”, “olhos pardos”, “nariz e boca regulares” e “cor natural”. A estatura não foi oferecida, pois se tratava de um adolescente em fase de crescimento. Também não se apontou qualquer “sinal particular”, lesão ou deficiência.

Pela época, estava no auge a cultura cafeeira no curso do Vale do Paraíba no Centro-Norte fluminense, e muitos amarantinos em geral, e aboadelenses em particular, estavam na região. O Centro-Norte fluminense recebera o pioneirismo e impulso econômico por meio de uma família natural de Aboadela. João Clemente Pinto (1752-1819), nascido no lugar do Outeiro, em Aboadela, foi o primeiro sesmeiro da família na região. O seu sobrinho e futuro genro, Antônio Clemente Pinto (1795-1869), tornou-se o mais célebre amarantino no Brasil. Nascido igualmente no lugar do Outeiro, na freguesia de Aboadela, aos 6 de janeiro de 1795, e batizado no dia doze seguinte na igreja paroquial, Antônio Clemente Pinto tornar-se-á o Barão de Nova Friburgo – que dentre muitos feitos, está o da construção do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, para sua residência.

Procedendo de uma família vizinha dos Clemente Pinto no pequeníssimo lugar do Outeiro em Aboadela; embora tendo as famílias antigas relações; embora seu pai tenha tido como padrinho de batismo o pai de Antônio Clemente Pinto, o futuro Barão no segundo império brasileiro, as origens modestas do menino José Ribeiro dos Santos estavam bem longe de uma família nobre, entretanto. Ele estabeleceu, com enormes lutas, grande descendência por meio de seus doze filhos, oito homens e quatro mulheres. Aos vinte e seis anos, ele se casara, em suas primeiras núpcias, em São José de Leonissa (futura Itaocara), em 21 de abril de 1866, com Manoela Gomes de Azeredo. O sogro era um português natural da freguesia da Ajuda, em Lisboa, que se casara na vila fluminense de Cantagalo em 1834. José Ribeiro dos Santos é o meu quarto avô.

José Augusto dos Santos, Esposa e primeiro filho - 1918Um neto de José Ribeiro dos Santos nasceu às onze horas da manhã em 2 de maio de 1890, em São José de Leonissa (futura Itaocara), à época no município e comarca de São Fidélis. Chamava-se José Augusto dos Santos. Quanto ao “José”, nenhuma novidade! Recebeu-o de seu padrinho no pedobatismo católico, o avô materno, açoriano natural da Ilha Terceira, que também era um José. Já o “Augusto” lhe foi transmitido e aos seus irmãos; “Augusta”, segundo nome de sua mãe, foi transmitido às suas três irmãs. Com cento e quatorze dias de nascido, recebeu o batismo católico em 24 de agosto daquele ano, na igreja paroquial de São José de Leonissa. O vigário que o batizou foi José Joaquim Pereira de Carvalho. José Augusto dos Santos é o meu bisavô.

Filho primogênito e neto de dois Josés portugueses, José Augusto dos Santos perdeu o pai aos quinze anos. Não contando agora com os dois avôs e o pai, viu-se projetado ao homem mais velho dentro do núcleo familiar, tendo ainda outros seis irmãos, todos menores. Tal qual seu antigo ancestral português no século dezoito, deslocou-se inicialmente para uma região serrana no (atual) município fluminense de Cambuci. Recém-casado, sua intenção era ali cultivar café. Nesta “Serra da Esmeralda” converteu-se e, juntamente com a esposa, foi batizado por uma igreja batista. No alto daquela serra nasceu meu avô, um outro filho primogênito. Posteriormente, este José estabeleceu a sua família na região norte do município fluminense de São Fidélis. A esposa, que pela parte paterna era de linhagem alemã, nascera naquele norte fidelense, na vila que é a sede do distrito.

Um neto de José Augusto dos Santos nasceu na região desbravada pelo avô, em 26 de outubro de 1941. Foi o segundo, de um total de doze filhos, todos nascidos naquele interior. Mais um José, cujo nome homenageia o avô. Homem simples, mas de índole inquieta, deu início à sua família no mesmo lugar em que nasceu e cresceu. É herdeiro de uma longa linhagem joseense, que atravessa o Atlântico e chega ao alto da Serra do Marão, ao norte de Portugal. Este José é o meu pai, e a primeira casa em que residi foi a mesma em que moraram os meus bisavós, e na qual residiram, por um período, os meus avós.

“E agora, José?”

O meu nome remete à minha mãe e gosto dele. Portanto, eu não me chamo José. Mas bem que poderia. Um dos meus irmãos, sim, chama-se José – com um nome composto que remete para o meu pai e meu avô. Curiosamente, resido há vinte e um anos num lugar denominado São José. Gilson Santos em Campanhó, Serra do Marão, PortugalO rio que corta a cidade em que moro, após percorrer centenas de quilômetros levará as suas águas para a região em que nasci. Este rio banhará a cidade em que foi sepultado o meu quarto avô. A seguir, o rio passará pela vila em que está sepultado o meu trisavô e na qual nasceram meu bisavô e seus sete irmãos. Seguindo o seu curso, imediatamente o rio banhará a cidade sede do município em que nasceu meu avô; alguns poucos quilômetros adiante, passará pela vila em que nasceu minha bisavó, a qual, ao lado do esposo, repousa naquele interior. Seguindo o seu curso, o rio atravessará a cidade em que nasci, e, por fim, a cidade na qual estão sepultados os meus avós e na qual vivem os meus pais.

Os meus pensamentos, tais quais o rio em seu curso, compelem a meditar nesta longa sucessão joseense de minha ancestralidade patronímica. Vem-me à memória a conhecida pergunta de Drummond: “E agora, José?”

Sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Texto por Gilson Santos, 13/02/2020. O texto resulta de um projeto mais amplo de genealogia e história familiar, coordenado pelo autor e envolvendo outros integrantes da família. Para contatos com o autor, clique aqui. Obra consultada: LOPES, Eduardo Teixeira. Mondim de Basto; Memórias Históricas. Produção gráfica de MEDISA – Edições e Divulgações Científicas, Lda, 2000, 518p.