Do Sentido ao Sermão: João Crisóstomo e a Confiança na Escritura

Do Sentido ao Sermão: João Crisóstomo e a Confiança na Escritura

É necessário não apenas examinar as palavras das Escrituras, mas também investigar o sentido; e não se deve aceitar tudo ao pé da letra, mas é necessário examinar a intenção do escritor. (Homilia sobre Gênesis 8:1)

João Crisóstomo (c. 347–407), um dos mais eminentes Pais da Igreja, recebeu o epíteto grego Chrysostomos – “Boca de Ouro” – pela extraordinária eloquência que marcou a sua pregação. Natural de Antioquia, recebeu sólida formação clássica, estudando retórica sob a orientação de Libânio, mestre de grande reputação. Essa herança intelectual conjugou-se com a sua adesão convicta ao cristianismo, dando origem a um perfil raro: um exegeta rigoroso, um pregador popular e um crítico mordaz da corrupção social e eclesiástica.

Não é pequeno o perigo que pesa sobre quem fala em público. Pois se disser algo sem cuidado, ou negligenciar algo de necessário, muitos danos advirão não apenas para si, mas também para os que o ouvem. (Homilia sobre Atos dos Apóstolos 3:1).

Crisóstomo iniciou a sua carreira eclesiástica em Antioquia, primeiro como diácono e depois como presbítero, alcançando grande notoriedade pelas suas homilias. Em 398 foi nomeado Patriarca de Constantinopla, cargo que o colocou no centro da vida religiosa e política do Império. A sua pregação incisiva, denunciando o luxo excessivo e as práticas injustas, provocou resistências crescentes na corte. As tensões com a imperatriz Eudóxia – que se sentiu visada em algumas homilias – e com setores episcopais rivais culminaram no Sínodo do Carvalho (403), que decretou a sua deposição. Após um breve regresso, foi novamente exilado em 404, vindo a falecer em condições duras, em Comana do Ponto, durante uma transferência forçada, em 407.

O Exegeta da Escola de Antioquia

A obra de Crisóstomo é inseparável da tradição hermenêutica da Escola de Antioquia, que privilegiava a leitura literal e histórica da Escritura. Ao contrário da Escola de Alexandria, inclinada a extensas alegorias, Crisóstomo sustentava que a clareza do texto e o seu contexto histórico deviam prevalecer. A sua abordagem caracterizou-se por:

  • Atenção ao contexto: situava cada passagem no horizonte histórico, social e cultural dos seus destinatários originais. Nas homilias sobre Mateus, por exemplo, reconstruiu cuidadosamente o ambiente judaico do século I.

  • Rigor filológico: atento às nuances linguísticas, valorizava a gramática e a sintaxe, explorando a riqueza dos termos hebraicos e gregos. Esse método é notório nas Homilias sobre o Génesis.

  • Alegoria moderada: aceitava a sua utilização apenas quando o género literário ou a evidência textual a justificavam, como nos Salmos ou nos profetas, sempre subordinando a interpretação simbólica ao sentido histórico primário.

  • Crítica ao alegorismo excessivo: advertia contra interpretações que dissolvessem o texto em enigmas arbitrários, considerando que tais práticas desviavam a Escritura da sua função de guia claro para a vida cristã.

Crisóstomo via a Bíblia não como um repositório de mistérios inacessíveis, mas como fonte de ensino ético e espiritual acessível à comunidade cristã.

Devemos examinar não apenas as palavras que são faladas, mas também descobrir a intenção daquele que fala, e o tempo em que foram faladas, e a pessoa a quem foram dirigidas, e a causa pela qual foram faladas. (Homilia sobre Mateus 1:3)

Devemos nos aproximar das Escrituras não de modo casual ou negligente, mas com muito cuidado, e então comunicar aos outros o que aprendemos, não para exibir nosso conhecimento, mas para edificar aqueles que ouvem. (Homilia sobre João 30:1)

A Arte da Pregação

A ligação entre exegese e homilética é um traço marcadamente distintivo do seu ministério. As suas homilias, numerosas e preservadas em coleções substanciais, combinavam clareza expositiva e força persuasiva. Destacam-se três elementos:

  • Linguagem acessível: sem abdicar de profundidade, falava de modo compreensível a públicos diversos, do mais instruído ao mais humilde.

    É necessário que aqueles que ensinam adaptem sua linguagem à capacidade dos ouvintes, e não exibam sua própria habilidade, mas busquem o proveito daqueles que ouvem. (Homilia sobre 1 Coríntios 36:5)

  • Aplicação concreta: relacionava a Escritura com realidades contemporâneas, como a desigualdade social, a avareza dos ricos ou os abusos administrativos. A parábola do Rico e Lázaro serviu-lhe para denunciar, em Constantinopla, a insensibilidade perante os pobres.

  • Recursos retóricos clássicos: usava ironia, imagens vívidas e referências quotidianas, fruto da sua formação em retórica grega. Essa mestria conferia às suas homilias intensidade dramática e poder de mobilização.

Assim, em Crisóstomo, exegese e pregação formavam um só movimento. A fidelidade ao texto, assegurada por análise filológica e contextual, sustentava a pertinência das suas aplicações. A clareza hermenêutica refletia-se na clareza comunicativa, e a confiança na Escritura conferia-lhe coragem para confrontar estruturas de poder. Obras como as Homilias sobre Romanos demonstram a sua capacidade de traduzir argumentos teológicos complexos em linguagem viva e acessível.

Legado

O legado de João Crisóstomo permanece como exemplo de síntese rara: rigor académico, clareza pedagógica e coragem profética. A sua voz, erguida contra o despotismo e a injustiça, mostra que a pregação cristã não é mero exercício retórico, mas exige fidelidade ao texto, coragem diante das pressões e compromisso com a transformação ética da comunidade. Essa herança continua a interpelar-nos enquanto pregadores, teólogos e comunidades cristãs, em especial em contextos de tensões políticas e sociais.

Se examinarmos as Escrituras com cuidado, e não de modo superficial, poderemos alcançar a salvação; se nelas meditarmos continuamente, aprenderemos a reta doutrina e a vida perfeita. Pois, ainda que alguém seja duro de coração, teimoso ou soberbo, e de ordinário pouco aproveite, ainda assim retirará algum fruto deste contacto e receberá benefício — talvez não de tal modo que logo se dê conta, mas não deixará de o receber. Se até quem passa diante da loja de um perfumista, ou nela permanece por algum tempo, sai impregnado do aroma, mesmo contra a sua vontade, quanto mais não acontecerá a quem entra na igreja. Assim como a ociosidade gera mais ociosidade, também do exercício nasce uma disposição pronta. Ainda que estejas cheio de inumeráveis pecados, ainda que te sintas impuro, não evites permanecer aqui.

Perguntar-se-á: “De que me serve ouvir, se não pratico?” Não é pouco lucro reconhecer-se miserável; este temor não é inútil, este receio não é despropositado. Se ao menos gemeres dizendo: “Ouço, mas não faço”, certamente virás a praticar, mais cedo ou mais tarde. Não é possível que quem fala com Deus e escuta Deus falar não obtenha proveito. (Homilia 53 no Evangelho de João)

Para um acervo das obras de João Crisóstomo, em especial as suas homilias, acesse Migne – Patrologia Graeca et Cetera Graeca Scripta. Para um índice das obras de Crisóstomo em Inglês na plataforma do Google Books, acesse Roger Pearse; Thoughts on Antiquity, Patristics, Information Access, and More.


Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir e pai de duas filhas. Este texto foi finalizado na variante linguística do português europeu.

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