Os Americanos Contribuem para Missões Porque São Ricos?

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Os Americanos Contribuem para Missões Porque São Ricos?

Quando se fala do extraordinário investimento missionário proveniente dos Estados Unidos, uma explicação surge com frequência: os americanos contribuem para missões porque são ricos.

À primeira vista, a afirmação parece razoável. Os Estados Unidos estão entre as maiores economias do mundo e, durante muitas décadas, uma grande parcela da sua população tem desfrutado de um nível de prosperidade superior ao observado em grande parte dos demais países. Parece natural que uma sociedade mais rica disponha de maiores recursos para financiar igrejas, seminários, missionários, editoras, universidades e projectos humanitários. Contudo, a questão merece uma análise mais cuidadosa.

O cristianismo evangélico norte-americano é vasto e diversificado. É composto por centenas de milhares de congregações espalhadas por cidades, subúrbios e zonas rurais. Embora as megaigrejas recebam grande atenção mediática, elas representam apenas uma pequena fracção do conjunto. A vida eclesiástica quotidiana continua a acontecer, em larga medida, em igrejas pequenas e médias, sustentadas por famílias de classe média, pequenos empresários, profissionais liberais, trabalhadores qualificados, agricultores, professores e funcionários públicos. Esta observação é importante porque corrige uma percepção comum. O sistema missionário evangélico norte-americano não foi construído principalmente por milionários. Foi construído por milhões de contribuintes regulares.

Ao longo de gerações, desenvolveu-se entre muitos evangélicos uma cultura de contribuição voluntária e sistemática. Não se trata apenas de fazer uma oferta ocasional quando surge uma necessidade especial. Em muitas igrejas, contribuir para a obra cristã tornou-se parte normal da vida de fé. Os membros são encorajados a sustentar a igreja local, apoiar a formação teológica, participar em projectos missionários e contribuir para a evangelização em diferentes partes do mundo.

Por essa razão, o fenómeno missionário norte-americano não pode ser explicado apenas pela riqueza. Se a prosperidade fosse a causa principal, seria de esperar que todos os países ricos — e ainda mais especificamente aqueles tradicionalmente cristãos — produzissem movimentos missionários de semelhante dimensão. A experiência histórica demonstra que isso não acontece. Existem sociedades muito prósperas que apresentam níveis reduzidos de mobilização missionária, enquanto outras comunidades cristãs, com recursos bastante mais modestos, revelam extraordinária capacidade de sacrifício e dedicação. A riqueza pode fornecer meios. Mas os meios, por si só, não produzem visão, compromisso ou generosidade.

Por detrás do investimento missionário norte-americano encontram-se convicções teológicas profundamente enraizadas. Durante mais de dois séculos, grande parte do evangelicalismo dos Estados Unidos foi moldada pela convicção de que a proclamação do Evangelho é uma responsabilidade permanente da Igreja. Dessa convicção nasceram agências missionárias, sociedades bíblicas, instituições de formação ministerial, redes de plantação de igrejas e inúmeros projectos de evangelização transcultural.

Não é por acaso que muitos dos maiores movimentos missionários protestantes modernos surgiram em ambientes marcados por forte confiança na autoridade das Escrituras, na centralidade da conversão e na necessidade da proclamação do Evangelho. Quando essas convicções enfraquecem, frequentemente enfraquece também o impulso missionário.

Há que se ressaltar um aspecto profundo e que deve merecer a nossa atenta consideração. A generosidade cristã raramente é explicada apenas pela capacidade económica. Ela está ligada àquilo em que as pessoas acreditam. Os recursos seguem as convicções. O coração orienta a carteira e o bolso e a conta bancária.

É precisamente isso que Paulo observa ao escrever sobre as igrejas da Macedónia. O apóstolo não destaca a prosperidade daqueles crentes. Pelo contrário, fala da sua tribulação e da sua profunda pobreza. Contudo, afirma que essa mesma pobreza “superabundou em grande riqueza da sua generosidade” (2 Coríntios 8.2). Aos olhos humanos, a equação parece contraditória. Aos olhos de Paulo, ela é perfeitamente coerente, porque a origem daquela generosidade não estava na abundância dos recursos, mas na abundância da graça de Deus. As igrejas macedónias compreenderam que participar da obra de Deus era um privilégio. Deram não porque lhes sobrava muito, mas porque criam profundamente. A sua generosidade tornou-se uma expressão visível da sua fé.

Talvez seja esta a resposta mais adequada à nossa pergunta inicial. Os americanos que contribuem para missões vivem certamente numa sociedade que produziu grande prosperidade económica. Mas essa prosperidade, por si só, não explica o fenómeno. O verdadeiro motor do investimento missionário encontra-se na combinação entre convicção teológica, visão missionária, cultura de mordomia cristã e disposição para colocar recursos ao serviço do Reino de Deus.

Em última análise, a história da Igreja demonstra que a riqueza pode mesmo ampliar a generosidade, mas não a cria. A generosidade nasce quando homens e mulheres passam a ver os seus recursos não apenas como propriedade pessoal, mas como instrumentos confiados por Deus para a realização dos seus propósitos. Foi assim na Macedónia do primeiro século. Em larga medida, tem sido também assim em grande parte do movimento missionário evangélico norte-americano.

Gilson Santos é ministro evangélico baptista por quase quarenta anos. É pastor e missionário em Portugal, onde serve na Primeira Igreja Baptista de Lisboa, no Seminário Martin Bucer e na Rede Reformada. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.

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