O Deus que Permanece e o Pastor que Muda
O ministério pastoral é frequentemente visto pelo que produz na vida dos outros. Observamos os sermões pregados, as pessoas aconselhadas, as igrejas edificadas, os líderes formados e os frutos que, pela graça de Deus, surgem ao longo dos anos. Contudo, existe uma realidade menos visível, mas não menos importante: enquanto o pastor procura servir o povo de Deus, Deus está simultaneamente a servir-se do próprio ministério para formar o pastor.
Nenhum homem entra no ministério acabado. Pode possuir conhecimento, convicções sólidas, zelo e vocação genuína, mas ainda não é o homem que será após décadas de caminhada. O ministério não é apenas algo que ele exerce; é também uma das principais escolas pelas quais Deus o molda.
Poucas vocações colocam uma pessoa em contacto tão constante com a realidade humana. O pastor acompanha alegrias e tragédias, nascimentos e funerais, conversões e afastamentos, reconciliações e conflitos. Aprende a conhecer não apenas as ideias dos homens, mas também as suas fragilidades, medos, contradições e esperanças. Com o passar dos anos, descobre que a vida é mais complexa do que imaginava e que as pessoas são, ao mesmo tempo, mais frágeis e mais preciosas do que supunha.
O ministério também o expõe à responsabilidade. Há decisões a tomar, pessoas a acompanhar, cargas a carregar e situações para as quais não existem respostas fáceis. Aos poucos, o pastor aprende aquilo que muitos servos de Deus aprenderam antes dele: não pode resolver todos os problemas, não pode impedir todas as dores, não pode mudar todos os corações. Essa descoberta, embora por vezes dolorosa, é também libertadora. Deus ensina-o a confiar menos na sua própria capacidade e mais na graça divina.
O Jacó que partiu, tendo passado pela experiência em Betel, não foi o mesmo que retornou, e que então atravessou o Peniel, de onde saiu ferido na “juntura da coxa” e manquejante. Tal como Jacó junto ao Jaboque, muitos pastores atravessam os seus próprios “Penieis”. Há momentos de luta, de perplexidade, de perda e de quebrantamento. Há ocasiões em que a providência divina parece tocar precisamente naquilo em que mais confiavam. E, como aconteceu com o patriarca, algumas dessas experiências deixam marcas permanentes. Contudo, frequentemente são essas marcas que se tornam instrumentos de uma transformação mais profunda.
Ao longo da caminhada, o pastor descobre ainda uma certa solitude própria da vocação. Não se trata necessariamente de isolamento, mas da consciência de que algumas responsabilidades, preocupações e orações só podem ser plenamente partilhadas com Deus. Se essa solitude for habitada pela fé, transforma-se em lugar de comunhão. O servo aprende que existem fardos que apenas a presença do Senhor pode sustentar.
Pouco a pouco, surge uma mudança interior. A impulsividade tende a dar lugar à paciência. A confiança excessiva em métodos e estratégias pode ceder espaço à dependência de Deus. O desejo de controlar resultados tende a ser substituído pela perseverança fiel. A teologia pode deixar de ser apenas algo estudado e passar a ser algo vivido. As verdades pregadas ao púlpito são decisivamente testadas nos hospitais, nos funerais, nas crises e nas alegrias do quotidiano.
É assim que nasce a sabedoria pastoral. Não apenas do estudo, nem apenas da experiência, mas do encontro entre a verdade de Deus e a realidade da vida. O pastor amadurecido não é necessariamente aquele que sabe mais, mas frequentemente aquele que aprendeu a caminhar com maior serenidade, porque já viu a fidelidade de Deus em muitas estações da existência.
No fim, talvez a grande descoberta do ministério seja esta: o pastor imaginava que a sua principal tarefa seria conduzir o povo de Deus. E, de facto, essa é a sua vocação. Mas, ao olhar para trás, percebe que, durante todo o tempo, havia outro Pastor a conduzi-lo. O homem muda. As circunstâncias mudam. As igrejas mudam. As gerações mudam. Mas Deus permanece. E o Deus que permanece caminha com os seus servos ao longo de todas as travessias da vida.
Por isso, o grande fruto de décadas de ministério não é apenas aquilo que o pastor construiu na igreja. É também aquilo que Deus construiu no pastor. Afinal, enquanto ele procurava formar o rebanho, o Supremo Pastor estava a formar o seu servo.
Post scriptum
Muitos dos meus textos e até de algumas ideias para sermões surgem de forma inesperada, sem qualquer planeamento prévio. Por vezes, ocorre-me um pensamento, uma lembrança ou um insight que considero digno de ser guardado. O que faço então? Pego no telemóvel e registo uma breve nota que me permita recuperar a ideia mais tarde. Tenho um espaço específico para isso, onde vou armazenando apontamentos de toda a espécie.
Nem sempre escrevo. Em muitas ocasiões, gravo uma nota de voz. Outras vezes, quando estou a conduzir e a minha esposa segue ao meu lado, peço-lhe ajuda. Ela já se habituou a ouvir algo como: “Nadir, podes pegar no meu telemóvel, abrir aquela aplicação e escrever o seguinte…?”
Este texto começou precisamente assim:
No passado dia 11 de Junho, uma quinta-feira, após o almoço, o meu colega de ministério, pastor Tiago Oliveira, e eu caminhávamos pela Avenida Almirante Reis, em Lisboa, a caminho das instalações da Primeira Igreja Baptista. Durante a conversa, a certa altura, Tiago fez uma observação que tocava exactamente no coração daquilo que viria a tornar-se a ideia central deste texto.
Sem querer perder aquele momento, peguei no telemóvel, pedi-lhe licença e gravei uma breve nota enquanto continuávamos a caminhar. Depois disso, o texto ficou “no forno”, juntamente com muitos outros apontamentos que aguardam o seu tempo de maturação.
Registo este post scriptum não apenas para partilhar um pouco do processo por detrás da escrita, mas também para reconhecer, com gratidão, que a centelha inicial deste texto nasceu de uma observação de Tiago. Fica, portanto, aqui o devido reconhecimento e o meu sincero agradecimento.
Gilson Santos é ministro evangélico baptista por quase quarenta anos. É pastor e missionário em Portugal, onde serve na Primeira Igreja Baptista de Lisboa, no Seminário Martin Bucer e na Rede Reformada. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.