Quando o Filho Pode Ir Além do Pai

Quando o Filho Pode Ir Além do Pai

Há uma cena antiga e muitíssimo tocante, narrada por Homero na Ilíada, que continua surpreendentemente actual. Antes de voltar à batalha, Heitor toma o pequeno filho nos braços e ora para que ele se torne um homem forte e honrado. Mas Heitor vai além. Ele deseja que, um dia, digam acerca do menino:

“Este é muito melhor do que o pai.”

Há algo profundamente nobre nessa aspiração. O homem inseguro deseja perpetuar-se. O homem verdadeiramente grande deseja transmitir-se. O primeiro teme ser ultrapassado; o segundo alegra-se ao ver o crescimento daqueles que formou.

Talvez uma das marcas mais silenciosas da decadência humana seja exactamente a incapacidade de formar sucessores sem rivalidade. Em muitas áreas da vida — família, liderança, política, ministério, academia, empresas — não é raro encontrar pessoas que preferem controlar a formar, centralizar a desenvolver, manter dependência a produzir maturidade. Há pais que não suportam ver os filhos tornarem-se autónomos. Há líderes que se sentem ameaçados quando os liderados crescem. Há mestres que receiam discípulos brilhantes. Há pastores que, inconscientemente, transformam a igreja num sistema de dependência emocional e funcional. Nesse ambiente, a retenção substitui o legado.

A Escritura oferece uma direcção muito diferente. Moisés prepara Josué e publicamente lhe transfere autoridade. Barnabé abre espaço para que Paulo de Tarso ocupe progressivamente o centro da missão apostólica. Paulo, por sua vez, investe em Timóteo pensando em gerações futuras de homens fiéis. Mas talvez ninguém tenha expressado esse princípio com tanta beleza quanto João Batista:

Convém que ele cresça e que eu diminua” (João 3.30).

Essa talvez seja uma das formas mais raras de maturidade espiritual e humana: alegrar-se sinceramente quando outro floresce. A lógica narcísica deseja aplauso contínuo. A lógica da maturidade deseja continuidade fecunda. O problema é que formar alguém exige renúncia. Quem forma verdadeiramente precisa aceitar deixar de ser o centro; repartir espaço; correr o risco de comparação; suportar a própria relativização histórica. Nem todos suportam isso. Por essa razão, algumas pessoas preferem a companhia permanente dos imaturos. Os imaturos confirmam centralidade. Os maduros introduzem reciprocidade. E a reciprocidade exige humildade.

A ética bíblica, porém, aponta noutra direcção. O líder cristão não existe para produzir dependentes perpétuos, mas para cooperar no aperfeiçoamento dos santos (Efésios 4.12). O pai não existe para eternizar infantilidades emocionais no filho, mas para prepará-lo para a vida. O mestre não existe para monopolizar brilho, mas para multiplicar sabedoria. Há algo profundamente belo quando um homem já não necessita ser o maior da sala para conservar dignidade. Talvez um dos sinais mais elevados de carácter seja precisamente este: plantar árvores sob cuja sombra talvez nunca nos sentemos — e ainda assim alegrar-nos porque outros descansarão ali.

E talvez seja exactamente por isso que a antiga cena de Heitor continue a atravessar os séculos. No breve instante em que remove o elmo, toma o filho nos braços e deseja que ele se torne “melhor do que o pai”, Heitor revela uma forma rara de grandeza. Não a grandeza do homem que precisa permanecer insuperável, mas a do homem suficientemente livre para desejar que aquilo que começou nele floresça ainda mais plenamente na geração seguinte. Há honra profunda num pai que não teme o crescimento do filho, num mestre que não receia o brilho do discípulo, num líder que não transforma pessoas em extensão do próprio ego. Talvez a verdadeira nobreza comece exactamente aí: quando alguém já não vive apenas para preservar o próprio nome, mas para transmitir vida, coragem, verdade e esperança de modo tão generoso que outros possam ir além dele.

O salmista sintetizou toda a lógica desse princípio para além da órbita humana, transcendendo-a. E nela todos os verdadeiros filhos quedam em renúncia diante do Pai. Todos são aqui superáveis, em aspiração por uma glória infinita e eterna além de si mesmos:

“NÃO a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade” (Salmo 115.1).

Gilson Santos é ministro evangélico baptista por quase quarenta anos. É pastor e missionário em Portugal, onde serve na Primeira Igreja Baptista de Lisboa, no Seminário Martin Bucer e na Rede Reformada. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.

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