Quem são, afinal, os filhos de Deus?

Quem são, afinal, os filhos de Deus?

No senso comum religioso, sobretudo em contextos culturalmente cristãos, tornou-se quase proverbial a afirmação de que “todo mundo é filho de Deus”. A frase costuma aparecer em momentos de conciliação, quando se deseja afirmar igualdade entre as pessoas ou suavizar tensões morais. Nesse uso popular, ela funciona como uma declaração de dignidade humana: todos possuem valor, todos merecem respeito, todos pertencem, de algum modo, à mesma família moral.

Essa intuição não surge do nada. Ela se apoia em pressupostos amplamente disseminados na cultura moderna: a convicção de que todos os seres humanos são iguais em dignidade, uma antropologia relativamente optimista acerca da natureza humana e uma religiosidade afectiva que prefere acentuar a proximidade entre Deus e a humanidade. Assim, a expressão “todos são filhos de Deus” acaba servindo como fórmula ética de inclusão. Mais do que uma afirmação teológica precisa, ela se torna um modo simples de dizer que ninguém deve ser tratado como inferior.

Contudo, mesmo quando examinada apenas à luz desses próprios pressupostos culturais — deixando-se de lado, por um momento, o conceito bíblico de filiação — a afirmação encontra dificuldades. A experiência histórica e social revela uma realidade humana profundamente ambígua. A mesma humanidade capaz de compaixão e criatividade é também capaz de violência, corrupção vil, exploração e destruição sistemática do próximo. Se a metáfora da filiação sugere alguma afinidade moral entre pai e filhos, a discrepância entre o caráter que se atribui a Deus e o comportamento humano coletivo torna a expressão imensamente frágil como descrição da realidade. Na prática, ela funciona muito mais como ideal ético do que como constatação empírica.

Quando nos voltamos para as Escrituras, surge ainda outro elemento importante: o próprio uso da palavra “filho” possui um alcance mais amplo do que a mera descendência biológica. No hebraico בֵּן (bēn) e no grego υἱός (huiós), o termo frequentemente indica afinidade de caráter, pertença a uma esfera ou participação em determinada realidade. Por isso a Bíblia fala em “filhos da luz”, “filhos do reino”, “filhos da desobediência”, “filhos das trevas”, “filhos da ira”, “filhos do diabo” ou “filhos de Belial”. Em tais expressões, “filho” designa alguém cuja vida é caracterizada pela realidade mencionada. A linguagem filial, portanto, comunica identidade moral e pertencimento espiritual.

À luz desse uso bíblico mais amplo, o Novo Testamento trata a filiação a Deus de maneira bastante definida. Ela não aparece como uma condição universal da humanidade, mas como uma relação que surge na esfera da redenção. O prólogo do Evangelho de João expressa isso com clareza: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (João 1.12). A filiação é descrita como dom recebido, não como realidade natural. Paulo utiliza a linguagem jurídica da adoção — υἱοθεσία (huiothesía) — para explicar que Deus introduz os crentes em sua família mediante a obra de Cristo (Romanos 8.15; Gálatas 4.4–5) —  ressaltando a obra de Cristo de expiação do pecado. Essa filiação também está ligada ao novo nascimento operado por Deus e confirmada pelo testemunho do Espírito.

No fundo, toda a teologia do Novo Testamento acerca da filiação converge para um ponto decisivo: a singularidade da filiação de Jesus Cristo. Ele é chamado μονογενής (monogenēs), o Filho unigênito. Sua relação com o Pai não é adquirida nem derivada; ela é própria e eterna. Cristo não se torna Filho — Ele é o Filho. O Credo Niceno-Constantinopolitano (381 d.C.) estabeleceu a linguagem que se tornaria normativa para a cristologia ortodoxa. Ele afirma:

“Cremos em um só Senhor, Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai.”

Assim, a linguagem nicena salvaguarda com precisão que o Filho participa plenamente da divindade. Séculos depois, a Confissão de Westminster (1647) incorporará essa tradição trinitária clássica, e quando os baptistas particulares redigem a Confissão de 1689, eles praticamente reproduzem essa mesma formulação.

“Na unidade da Divindade existem três pessoas, da mesma substância, poder e eternidade: Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo; o Pai não procede de ninguém, nem é gerado; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.” (CFB 1689, 2, §3. Itálicos meus)

É precisamente por causa dessa filiação única que outros podem ser chamados filhos de Deus. Como escreve o apóstolo Paulo acerca de Jesus Cristo, Ele é “o primogénito entre muitos irmãos” (Romanos 8.29). Assim, a ordem teológica torna-se clara. Cristo é Filho por natureza; os crentes tornam-se filhos por adoção. A filiação deles não existe de forma independente, mas em união com o Filho verdadeiro. No fim das contas, não é a humanidade em geral que define o que significa ser filho de Deus. É a relação eterna entre o Pai e o Filho que estabelece o critério, e é pela participação nessa relação — mediante Cristo e pelo Espírito — que alguém pode, no sentido pleno do evangelho, chamar Deus de Pai.


Gilson Santos é ministro evangélico baptista por quase quarenta anos. É pastor e missionário em Portugal, onde serve na Primeira Igreja Baptista de Lisboa, no Seminário Martin Bucer e na Rede Reformada. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.

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