Inclusividade e Discernimento no Reino de Deus

Inclusividade e Discernimento no Reino de Deus

Entre a fidelidade doutrinária e a generosidade cristã

“Quem não é contra nós, é por nós.”
— Marcos 9.40 (ARA)

A missão cristã, ao longo da história, sempre precisou lidar com o desafio de discernir entre a fidelidade doutrinária e a amplitude da ação de Deus fora dos limites imediatos da própria comunidade. Nesse ponto, a sabedoria bíblica, segundo nos parece, oferece um princípio duplo: inclusividade cristocêntrica e discernimento doutrinário.

Jesus, ao repreender o exclusivismo dos discípulos, declarou: “Quem não é contra nós, é por nós” (Marcos 9.40). O contexto de tais palavras é claro: os discípulos viram alguém expulsando demônios em nome de Jesus, mas tentaram impedi-lo por não pertencer ao grupo dos doze. A resposta de Jesus corrige a tendência sectária e afirma que o critério de inclusão não é, em rigor, a filiação a um grupo específico, mas a fidelidade ao nome e à causa de Cristo. Essa postura revela uma inclusividade prudente, que reconhece a possibilidade de autêntico serviço ao Reino mesmo fora dos círculos imediatos de nossa convivência eclesiástica.

O apóstolo Paulo, por sua vez, em carta escrita da prisão, observa que alguns pregam a Cristo “por inveja e porfia”, tentando mesmo aumentar a sua aflição. Ainda assim, ele se alegra porque, de todo modo, “Cristo está sendo pregado” (Filipenses 1.15-18). Paulo não ignora as motivações erradas, mas celebra o facto de que o conteúdo anunciado é verdadeiro e o nome de Cristo está em evidência. Aqui se aprende que o evangelho não é refém das intenções humanas, e que a soberania de Deus pode fazer frutificar mesmo aquilo que nasce de corações imperfeitos, desde que a verdade de Cristo seja preservada.

Por outro lado, o mesmo Paulo é implacável quando se trata de falsificações do evangelho. Em 2 Coríntios 11.13-15, ele denuncia os “falsos apóstolos”, que distorcem a verdade e se mascaram como ministros de justiça. Em Gálatas 1.8-9, ele chega a declarar anátema sobre qualquer um — inclusive anjos, hipoteticamente — que anuncie outro evangelho. Ou seja, há um limite claro para a tolerância cristã: o conteúdo da mensagem. Inclusividade não pode ser confundida com relativismo doutrinário, e discernimento não pode ser confundido com espírito faccioso.

Essa tensão se expressa também em episódios como o de Apolo (Atos 18), que, embora limitado em sua compreensão, foi instruído com graça por Priscila e Áquila, e se tornou poderoso pregador da verdade. E na prudência de Gamaliel (Atos 5), que, sem abraçar a fé cristã, reconheceu que resistir à obra de Deus pode ser uma luta inútil contra o próprio Senhor.

Assim, a maturidade cristã, para além do zelo, exige sabedoria bíblica enraizada nas Escrituras, para distinguir entre o que é erro e o que é apenas diferente. Há realidades que desafiam nossos padrões eclesiásticos ou culturais, mas não necessariamente atentam contra o evangelho. É possível encontrar irmãos sinceros que, por formação ou tradição, pensam de forma diversa em questões secundárias, sem que isso os torne opositores de Cristo. O zelo sem discernimento pode levar ao sectarismo, enquanto o discernimento sem humildade pode se converter em arrogância espiritual. É preciso desenvolver um senso teológico equilibrado, que se mantenha firme na verdade, mas que também seja capaz de reconhecer a ação soberana de Deus em vasos que não escolhemos.

Entre o que é ameaça ao evangelho e o que é expressão legítima da graça em outros campos do Reino, reside uma zona que demanda discernimento pastoral, paciência e escuta. A fidelidade não exige aliança com todos, mas também não autoriza hostilidade automática contra todos que não compartilham exatamente de nossa confissão, denominação ou estilo. A verdade bíblica deve ser o nosso norte, mas não deve ser uma desculpa pecaminosa para desamor. A defesa da ortodoxia deve ser permeada de ortopatia (sentimentos corretos) e de ortopraxia (ações corretas), conforme o modelo de Cristo: cheio de graça e de verdade (João 1.14). A correção de Apolo por Priscila e Áquila (Atos 18.26) é exemplo de como se pode contribuir para o amadurecimento de um irmão, sem o rejeitar sumariamente. Já a firmeza paulina contra os falsos mestres em Gálatas e Corinto mostra que a verdade não pode ser negociada quando a essência do evangelho de Cristo está em jogo.

Portanto, a Igreja de Cristo é chamada a caminhar nesse binômio: sendo sábia em sua inclusividade na comunhão com os que verdadeiramente pregam Cristo crucificado e ressurreto, mesmo que estejam fora do nosso círculo institucional imediato; e sendo sábia em seu discernimento e firme diante dos que deturpam o evangelho, ainda que venham com aparência piedosa, linguagem espiritual e títulos religiosos. O critério de avaliação não é a simpatia nem a proximidade, mas sim a centralidade de Cristo, a fidelidade à Escritura e os frutos do Espírito. Nem tudo que é diferente deve ser combatido, e nem tudo que parece cristão deve ser acolhido. O chamado é para uma fidelidade robusta, mas também para uma comunhão generosa. Afinal, o evangelho é verdadeiro e poderoso demais para ser monopólio de um grupo, e precioso demais para ser diluído por falsificações. Trata-se do “evangelho das insondáveis riquezas de Cristo” (Efésios 3.8). A Cristo, e somente a Ele, pertence a obra e a glória.

Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e missionário em Portugal, onde serve na Primeira Igreja Baptista de Lisboa, no Seminário Martin Bucer e na Rede Reformada. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.

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