Assimetria Ministerial, Pastoreio Compartilhado e a Centralidade de Cristo
Reflexões sobre ministérios pastorais assimétricos e maturidade eclesial
A história da igreja cristã — e, de modo particular, a história da tradição reformada — testemunha que Deus, em sua soberania, por vezes concede à sua igreja pastores muito sábios, grandemente experimentados e com uma vasta e extraordinária gama de dons. Homens cuja clareza teológica, força expositiva, estatura espiritual e capacidade de liderança fazem com que seus ministérios ultrapassem os limites do contexto local e marquem gerações. Esses ministérios não devem ser vistos com suspeita, nem relativizados por receio de personalismo. Eles são, via de regra, dons reais de Deus para a edificação do seu povo.
Entretanto, a mesma história revela que tais ministérios geralmente carregam consigo uma tensão estrutural inevitável. A concentração visível de dons — especialmente no ministério da Palavra — tende a produzir uma assimetria ministerial que, se não for espiritualmente discernida e pastoralmente tratada, pode gerar dependência excessiva da figura do pastor, fragilidade sucessória e sobrecarga pessoal. O objetivo deste texto não é submeter tais ministérios a juízo crítico severo, mas aprender com o modelo, extraindo princípios que ajudem a igreja a permanecer saudável, centrada em Cristo e preparada para o futuro.
Ministérios pastorais assimétricos: natureza e legitimidade
Por assimetria ministerial entende-se a concentração funcional de dons e influência em um pastor, reconhecida pela congregação, sem que isso implique negação da pluralidade de presbíteros ou da igualdade essencial do ofício pastoral. Trata-se de uma assimetria de dons, não de dignidade; de experiência ministerial, não de qualificação; de função exercida, não de status ontológico.
A própria Escritura reconhece que Deus, por sua livre e soberana graça, distribui dons de forma desigual (1Co 12), e a história da igreja confirma que, em determinados momentos, a voz de um pastor se torna especialmente determinante para a edificação do rebanho. Na tradição reformada moderna, ministérios como os de Charles Haddon Spurgeon (1834–1892) e D. Martyn Lloyd-Jones (1899–1981) ilustram esse fenômeno de modo exemplar. Ambos foram homens profundamente comprometidos com a teologia reformada, grandes pregadores bíblicos e líderes espirituais cuja influência moldou suas congregações e alcançou muito além delas.
É importante afirmar com clareza: não há nada de intrinsecamente errado nesse tipo de ministério. Pelo contrário, muitos dos períodos de maior clareza doutrinária, renovação espiritual e formação pastoral na história da igreja estão associados a homens assim. Estes podem emergir justamente da fidelidade ao “Supremo Pastor e Bispo” – uma fidelidade geralmente custosa, cuja trajetória demonstra elevado sacrifício. Ministérios assimétricos podem gerar estabilidade teológica, vigor expositivo, formação de líderes e defesa firme da verdade em tempos de confusão. Sob alguns aspectos, tais homens exercem ministérios que não podem ser substituídos ou replicados. Têm eles uma medida de fé e visão que muitos reconhecem não ser comum. Eles respondem, com habilidosa ação estratégica, a demandas ministeriais de sua geração.
Tensões inerentes e limites estruturais
Todavia, a mesma assimetria que produz abundância de frutos visíveis traz consigo limites reais. Quando a identidade da igreja passa, ainda que de modo não intencional, a ser fortemente associada a um único pastor, surgem desafios previsíveis: dificuldade de partilhar o púlpito sem comparações, centralização do cuidado pastoral, dependência simbólica da congregação e, não raramente, grande dificuldade no momento da sucessão.
Esses limites não decorrem, necessariamente, de falhas morais, teológicas ou de caráter do pastor. Em muitos casos, resultam da própria dinâmica criada pela concentração prolongada (e não raramente bem-sucedida) do ministério da Palavra e da liderança espiritual em uma só figura. A história demonstra que, após o encerramento de ministérios dessa natureza, as congregações frequentemente enfrentam períodos de redefinição identitária, podendo até mesmo perder consistência, mesmo quando os sucessores são fiéis e piedosos. Estes sucessores podem, inclusive, experimentar grandes desafios para prover a congregação de simbolismo e estabilidade. “O pastor fulano não fazia desse jeito!” “Nosso antigo pastor faz muita falta nessa área!”.
A questão decisiva, portanto, não é se Deus concede pastores de dons assimétricos — Ele o faz —, mas como esses pastores e suas igrejas lidam com essa realidade enquanto o ministério está em curso.
O eixo cristológico: Solus Christus aplicado ao pastoreio
Aqui se impõe um princípio teológico fundamental: Solus Christus. Cristo é o único Pastor absoluto da igreja. Toda autoridade pastoral é derivada, delegada e ministerial. Nenhum pastor, por mais dotado que seja, foi chamado a ocupar o centro da esperança, da identidade ou da confiança última do rebanho. É memorável o exemplo do profeta João Batista, que disse: “Eu não sou o Cristo” (Jo 1.20). Ele apontava para o Cristo.
Quando Solus Christus é apenas afirmado confessionalmente, mas não praticado pastoralmente, a assimetria tende a se cristalizar. Quando, porém, esse princípio é vivido de forma consciente e intencional, ele se torna o antídoto espiritual contra efeitos tóxicos da concentração ministerial excessiva.
Caminhos intencionais para a superação saudável da assimetria
Pastores que reconhecem em si mesmos dons concentrados podem — e devem — agir deliberadamente para que suas igrejas amadureçam além da dependência pessoal. Isso começa por uma reafirmação pública e constante da centralidade de Cristo. A linguagem pastoral, a forma de tomar decisões e a condução do ministério precisam deixar claro que a igreja pertence a Cristo, não ao pastor. Em síntese: É mister um deslocamento simbólico do “pastor como eixo” para “Cristo como Pastor”, afirmando o pastor como servo visível do governo e pastoreio de Cristo.
Um passo essencial é a autolimitação voluntária do protagonismo. Isso exige abrir mão, conscientemente, de controlar todos os processos, mesmo quando isso parece mais eficiente. Líderes que são favorecidos com muitos dons podem ser perfeccionistas e centralizadores, pois, afinal, são eficientes em muito do que fazem. Assim, compartilhar o púlpito, permitir diferentes estilos de exposição e aceitar a imperfeição como parte do amadurecimento do corpo ensinam, na prática, que a autoridade reside na Palavra proclamada fielmente, e não no carisma do pregador. É preciso resistir à tentação de “resolver tudo”; compartilhar visibilidade, mesmo com perda aparente de excelência; entender a autolimitação como disciplina espiritual.
Igualmente necessário é o investimento na pluralidade pastoral funcional. Presbíteros precisam ter voz real, não apenas formal. Decisões devem ser colegiadas de fato, e não apenas ratificadas. Formar pares espirituais — e não extensões do próprio ministério — é um exercício de humildade que protege tanto o pastor quanto a igreja. Para tanto, a filosofia de ministério pastoral não exigirá uniformidade de estilo ou timbre; permitirá que a igreja amadureça ouvindo diferentes vozes fiéis; prestigiará decisões colegiadas que não passam sempre pelo “pastor principal”; abrirá espaço para discordância respeitosa; trabalhará pela formação de pares, não de satélites. A formação de nova geração qualificada exige trabalho árduo, e para tanto é vital prescindir de personalismos.
A distribuição visível do cuidado pastoral também é decisiva. Quando todo aconselhamento, toda mediação e toda intervenção passam pelo pastor principal, a congregação aprende, ainda que involuntariamente, que ele é o verdadeiro eixo do cuidado. Encaminhar membros a outros presbíteros, reconhecer publicamente o ministério deles e permitir que a igreja experimente múltiplas vozes pastorais fortalece a confiança no colegiado.
Outro elemento frequentemente negligenciado é a normalização de limites e descanso. Pastores muito aplicados e qualificados, em seu protagonismo, podem ser tentados a se presumir como o sol da galáxia. Daí, férias reais, períodos sabáticos e ausências legítimas não são sinais de descompromisso, mas atos de fé. Eles ensinam à igreja que a obra não depende da presença contínua de um homem, porque Cristo não se ausenta quando o pastor descansa. Isto significa permitir que a igreja funcione sem “aquele pastor”.
Observar e cultivar com sabedoria o princípio sabático é um dos grandes desafios pastorais. “O sono”, como observou Zack Eswine, “é um ato sabático: repousamos e deixamos tudo aos cuidados de Deus enquanto estamos deitados sem mexer com o mundo por um pouco”. Assim, quando observamos o princípio sabático, somos lembrados de que não somos deuses, mas criaturas que vivem sustentadas pelo Criador. O descanso torna-se, portanto, um exercício espiritual de adoração e gratidão.
Por fim, há a necessidade de uma preparação consciente da sucessão, mesmo quando não há previsão imediata de transição. Falar abertamente sobre o caráter provisório de todo ministério humano, formar possíveis sucessores e estruturar processos que sobrevivam à saída do pastor são atos profundamente cristocêntricos. Eles deslocam a esperança da igreja da longevidade pastoral para a fidelidade contínua de Cristo. O alvo aqui é despersonalizar a identidade da igreja.
Um Chamado ao Descentramento
Ministérios pastorais assimétricos são, muitas vezes, dádivas preciosas de Deus à sua igreja. Negá-los ou desconfiar deles por princípio seria ingratidão. Contudo, absolutizá-los ou permitir que se tornem o eixo estrutural da vida da igreja pode ser espiritualmente perigoso.
A maturidade pastoral consiste em receber os dons extraordinários com gratidão, enquanto se constrói, de modo intencional, uma igreja que aprende a viver sob o governo de Cristo, com pastoreio partilhado, liderança colegiada e esperança firmada naquele que é o único Pastor perfeito. Assim, a igreja não apenas floresce no presente, mas atravessa gerações com fidelidade, estabilidade e paz.
Há, neste ponto, uma palavra que precisa ser dita não apenas à igreja, mas ao próprio pastor a quem Deus confiou dons assimétricos. Habilidades extraordinárias não isentam ninguém do caminho ordinário do discipulado; ao contrário, tornam esse caminho mais exigente. Quanto maior o dom, maior a tentação de centralidade; quanto maior a experiência, maior o desafio de superar a autossuficiência; quanto maior a influência, mais sutil pode se tornar o deslocamento do eixo — de Cristo para o instrumento que Ele usa.
A Escritura, porém, não nos deixa sem modelos. Moisés, ao final de sua jornada, intercede para que o povo não fique “como ovelhas que não têm pastor” (Nm 27.17), aceitando que outro conduza o rebanho onde ele não entraria. João Batista, diante do Cristo que cresce em evidência, confessa sem ambiguidade: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30). O apóstolo Paulo, mesmo consciente da autoridade que recebeu, recusa-se a edificar a igreja sobre si mesmo: “Pois não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor” (2Co 4.5).
Acima de todos, porém, está o próprio Cristo. Ele, sendo o Pastor perfeito, não centralizou a si mesmo para reter, mas para entregar-se. Seu caminho foi o do descentramento radical: esvaziou-se, humilhou-se, deu a vida. E é Ele quem estabelece a lei espiritual que governa todo verdadeiro ministério frutífero:
“Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto” (João 12.24).
Aqui está o ponto decisivo. Formar outros, ceder espaço, investir em terceiros, partilhar autoridade, preparar a sucessão, aceitar a diminuição relativa da própria centralidade — tudo isso não é mera estratégia eclesiástica. É ato espiritual. É mortificação. É serviço prestado por amor a Cristo, por amor à igreja, e não por autopreservação ministerial. É permitir que o ministério deixe de ser extensão da própria identidade para tornar-se, cada vez mais, instrumento do corpo.
Esse caminho fere, sim, tentações sutis — inclusive as de cunho narcisista, tão facilmente justificadas por resultados, reconhecimento e utilidade. Mas é precisamente nessa ferida que o evangelho opera cura. O pastor que aceita morrer um pouco — morrer para a centralidade, para o controle, para a indispensabilidade — não empobrece a igreja; ele a enriquece. Não enfraquece o ministério; ele o multiplica. Não perde fruto; ele o amplia. Ao abraçar a cruz, ele louva o Grande Dom – e, paradoxalmente, torna-se parte indelével de grande dom de Cristo à igreja.
No fim, o chamado é este: servir não para ser lembrado, mas para que Cristo seja visto; não para permanecer indispensável, mas para que a igreja aprenda a depender do Pastor eterno. O grão que morre não desaparece — ele frutifica. E o pastor que se descentra, por amor a Cristo, descobre que sua alegria não está em permanecer no centro, mas em ver o campo cheio de vida. A vida exuberante que João, o Batista, testemunhou com gozo autêntico e maduro:
“O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Convém que ele cresça e que eu diminua.” (João 3.29,30).
Integrando uma série, este texto enquadra-se em atuais séries de pregações pelo pastor Gilson Santos na Igreja Batista da Graça, em São José dos Campos (SP), onde serve por quase de 27 anos. Gilson Santos conduziu a implantação de um presbitério na igreja local, orientando o processo de ordenação de todos os demais integrantes. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com algumas pós-graduações, sendo uma delas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua como escritor e professor no Seminário Martin Bucer, tanto no Brasil quanto em Portugal. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.