Novo Testamento, Presbitério e Pluralidade de Pastoreio
O Novo Testamento apresenta um modelo de liderança eclesial marcado, desde o seu início, pela pluralidade, colegialidade e inserção comunitária. Ainda que dialogue com formas culturais do mundo antigo — como a valorização dos anciãos —, a Escritura não canoniza rigidamente as antigas estruturas patriarcais nem modelos individualizados de autoridade. Ao contrário, ressignifica tais formas à luz do evangelho e do senhorio de Cristo.
No Antigo Testamento, os anciãos (זְקֵנִים – zᵉqēnîm) emergem num contexto patriarcal e gerontocrático, no qual idade, experiência e memória coletiva conferiam autoridade. Contudo, essa autoridade não é meramente biológica ou familiar, mas aliancista: os anciãos são responsáveis por julgar com justiça, preservar a fidelidade à aliança e representar o povo diante de Deus (cf. Êxodo 24.1; Deuteronômio 19.12). Já aqui se percebe que a Escritura assume formas culturais, mas lhes atribui conteúdo teológico e ético próprio.
Esse movimento de específica ressignificação torna-se ainda mais evidente no Novo Testamento. O termo πρεσβύτερος (presbýteros), herdado do judaísmo, passa a designar uma liderança cuja legitimidade, conquanto valorize a experiência, não deriva necessariamente da idade ou da posição social, mas do chamado, do caráter e da aptidão pastoral (1 Timóteo 3.1–7; Tito 1.5–9). A advertência paulina a Timóteo — “Ninguém despreze a tua mocidade” (1 Timóteo 4.12) — indica claramente que a idade cronológica não era o critério determinante.
De modo consistente, o Novo Testamento não apresenta qualquer exemplo normativo de igreja local governada ou pastoreada por um único homem. O padrão recorrente é sempre o da pluralidade de presbíteros em cada igreja: “Promoveram-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros” (Atos 14.23); “Chamou os presbíteros da igreja” (Atos 20.17); “Estabelecesses presbíteros, de cidade em cidade” (Tito 1.5). A linguagem não é ocasional, mas estrutural: uma igreja, vários presbíteros.
Casos frequentemente citados como exceção — como Timóteo em Éfeso ou Tito em Creta — não sustentam o modelo de pastoreio solitário. Ambos exercem ministérios apostólicos delegados, temporários e organizacionais, voltados precisamente à edificação e ordenação do presbitério local. Timóteo atua em cooperação com o presbitério (1 Timóteo 4.14), e Tito é deixado em Creta para “pôr em ordem” a igreja mediante o estabelecimento de presbíteros, não para substituí-los.
Esse padrão colegiado manifesta-se também no modo como a autoridade é exercida. Mesmo os apóstolos deliberam conjuntamente e em relação com a igreja (Atos 15). Pedro, ao exortar os líderes, identifica-se como “presbítero como eles” (1 Pedro 5.1), rejeitando qualquer forma de domínio personalista. A liderança pastoral é definida em termos de serviço, exemplo e cuidado, à semelhança de Cristo, o Supremo Pastor (1 Pedro 5.2–4).
As cartas às sete igrejas do Apocalipse confirmam essa perspectiva. A figura do “anjo da igreja” (ἄγγελος τῆς ἐκκλησίας) não pode ser reduzida, de forma responsável, à ideia de um “pastor único”. O termo ἄγγελος significa “mensageiro” e comporta leituras celestiais, simbólicas ou representativas. Além disso, o gênero apocalíptico e o caráter corporativo das exortações indicam que Cristo se dirige às igrejas como corpos comunitários, não a líderes isolados. A própria disposição histórica das sete igrejas ao longo de uma rota regular de comunicações na Ásia romana reforça o caráter concreto, comunitário e público dessas mensagens.
Em síntese, o Novo Testamento apresenta uma eclesiologia na qual toda liderança é essencialmente eclesial, isto é, nasce na igreja, serve à igreja e responde debaixo do senhorio e pastoreio de Cristo pela edificação do seu corpo. O presbitério plural não é um arranjo circunstancial, mas a expressão ordinária do pastoreio cristão no período apostólico. Modelos de liderança “episcopal”, monárquica ou solitária pertencem ao desenvolvimento pós-apostólico e não encontram fundamento direto no testemunho neotestamentário.
Dito de forma clara: o pastoreio no Novo Testamento é colegiado, cristocêntrico e comunitário. Onde Cristo é reconhecido como o único Pastor e Cabeça da Igreja, a liderança humana aparece não como substituto, mas como serviço partilhado, exercido em comunhão, responsabilidade mútua e submissão à Palavra.
Gilson Santos é pastor e presidente da Igreja Batista da Graça, em São José dos Campos (SP), onde serve por quase de 27 anos. Conduziu a implantação de um presbitério na igreja local, orientando o processo de ordenação de todos os demais integrantes. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com algumas pós-graduações, sendo uma delas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua como escritor e professor no Seminário Martin Bucer, tanto no Brasil quanto em Portugal. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.