O Reino que se Manifesta como Pastoreio

O Reino que se Manifesta como Pastoreio; Solus Christus e o Governo do Rei-Pastor

Solus Christus e o Governo do Rei-Pastor

A Escritura afirma, desde o início, que Deus reina absoluta e soberanamente sobre todas as coisas. “O SENHOR estabeleceu o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Sl 103.19). Esse reinado não depende de pacto, mediação ou reconhecimento humano; ele é ontológico, universal e incontestável. Deus reina porque é Deus — Criador, sustentador e Senhor da história. Esse é o fundamento último de toda teologia bíblica do reino.

Todavia, a revelação bíblica mostra que esse mesmo Deus decide exercer o seu reinado, na história, de um modo específico e gracioso: reinar para salvar. Ao eleger um povo e firmar com ele uma aliança, o Senhor manifesta o seu governo de forma redentora e pactual. Não se trata de um segundo reino, mas de um modo histórico do único reinado divino, agora orientado para a redenção. “Serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Gn 17.7) expressa essa decisão soberana de governar por promessa, presença e fidelidade.

O Pastoreio como Forma Pactual do Reinado

É nesse contexto pactual que emerge, com força singular, a imagem de Deus como Pastor de Israel. Nos Salmos, essa linguagem aparece de modo explícito, reiterado e teologicamente carregado. O Deus que reina é o Deus que pastoreia o seu povo: “Ó Pastor de Israel, escuta; tu que conduzes a José como a um rebanho” (Sl 80.1). O êxodo, evento fundante da identidade nacional, é descrito em termos pastorais: “Conduziste o teu povo como a um rebanho, pelas mãos de Moisés e de Arão” (Sl 77.20). A relação pactual é resumida assim: “Porque ele é o nosso Deus, e nós, povo do seu pasto e ovelhas de sua mão” (Sl 95.7). Portanto, quando o salmista confessa: “O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará” (Sl 23.1), afirma uma verdade governamental e relacional: Deus reina sobre Israel pastoreando-o segundo a aliança.

Quando esse pastoreio divino deixa de ser reconhecido e refletido na liderança humana, o resultado é desagregação espiritual e social – prevalecendo uma tirania do eu. O livro de Juízes oferece o diagnóstico clássico dessa ruptura: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto aos seus próprios olhos” (Jz 21.25). A frase é repetida reiteradamente ao longo daquele livro, que assinala um dos quadros mais lúcidos, embora mais sombrios, da história bíblica. Ela não descreve apenas ausência de monarquia, mas a ausência do reconhecimento do SENHOR como Rei-Pastor. Sem governo fiel, o rebanho se dispersa; sem direção pactual, a liberdade degenera em caos. Esse diagnóstico reaparece nos profetas quando reis e líderes são chamados de “pastores” para evidenciar sua responsabilidade teológica: “Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto!” (Jr 23.1); “Os fracos não fortalecestes… a desgarrada não tornastes a trazer” (Ez 34.4). O problema não é apenas falha moral ou administrativa, mas traição da vocação pastoral-régia.

Davi, a Promessa e a Tensão Escatológica

É nesse contexto de colapso do pastoreio humano que Davi emerge como figura decisiva na história de Israel. Diferentemente dos episódicos e meteóricos juízes carismáticos e de Saul, cuja realeza se mostrou frágil e autocentrada, Davi é chamado do aprisco para o trono. A Escritura interpreta esse chamado em termos explicitamente pastorais: Deus o tomou “dos apriscos das ovelhas… para apascentar Jacó, seu povo, e Israel, sua herança” (Sl 78.70–71). Sua formação como pastor antecede e molda o exercício do poder régio. Assim, Davi se torna o primeiro rei-pastor paradigmático: governa como quem cuida, lidera como quem serve, combate como quem confia no SENHOR. “Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade” (At 13.22).

A aliança davídica consolida e aprofunda essa expectativa. Ao prometer a perpetuidade do trono, o SENHOR declara: “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” (2Sm 7.14). Essa filiação régia confere ao reinado um caráter teológico singular: o rei governa como filho adotivo de Deus, representando o cuidado e a justiça do próprio SENHOR. Os Salmos reais desenvolvem essa promessa ao apresentar o rei como aquele que julga com justiça e socorre os necessitados (Sl 72.1–4, 12–14). O horizonte messiânico fica definido: o governante definitivo será Filho de Davi e Filho de Deus, Rei e Pastor inseparavelmente.

Todavia, o Antigo Testamento não romantiza a monarquia. Mesmo os melhores reis revelam limites profundos – alguns profundamente trágicos. A pedagogia da insuficiência aparecera já em Moisés, que reconhece, à luz do juízo divino frente ao seu tropeço em Meribá, não poder conduzir o povo até o fim e suplica: “Ponha o SENHOR… um homem sobre esta congregação… para que a congregação do SENHOR não seja como ovelhas que não têm pastor” (Nm 27.16–17). A esperança de Israel começa a deslocar-se do pastor humano para a ação direta de Deus.

Essa tensão atinge o seu ápice nos profetas. Isaías anuncia que o consolo virá quando o próprio Deus intervier como Rei-Pastor: “Eis que o SENHOR Deus virá com poder… Como pastor apascentará o seu rebanho” (Is 40.10–11). Ezequiel, diante da falência total dos “pastores de Israel”, transmite a declaração decisiva: “Eis que eu mesmo procurarei as minhas ovelhas” (Ez 34.11), concentrando a promessa: “Suscitarei para elas um só pastor, o meu servo Davi” (Ez 34.23). O futuro do povo está ancorado em um pastoreio exclusivo, assumido pelo próprio Deus e exercido por um único Pastor.

Solus Christus: Cumprimento Cristológico

Aqui se delineia, ainda em promessa e tipo, o princípio que a teologia reformada confessará como Solus Christus. Assim como há um só Mediador da salvação (Solus Christus), há também Um Só Pastor essencial da Igreja. A liderança pastoral é real, necessária e honrosa — mas apenas Cristo é suficiente, definitivo e normativo. A igreja é chamada a viver sob esse princípio, para a glória de Deus e o bem do rebanho.

Este princípio cardeal percorre toda a Escritura. O Antigo Testamento educa o povo a reconhecer que nenhum pastor humano é suficiente em definitivo. A repetida falência da liderança não é um mero acidente narrativo, mas pedagogia redentiva: preparar o coração da fé para um Pastor final e suficiente.

No Novo Testamento, essa promessa encontra cumprimento pleno em Jesus. Ele afirma sem ambiguidade: “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10.11) e acrescenta: “Haverá um só rebanho e um só Pastor” (Jo 10.16). Aqui, Solus Christus deixa de ser expectativa e torna-se afirmação cristológica: Cristo não é apenas o melhor Pastor; Ele é o único Pastor essencial, suficiente e normativo da Igreja.

“E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as principais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar a meu povo, Israel” (Mateus 2.6).

Aplicado ao pastoreio, Solus Christus significa que Cristo exerce o seu munus regium como Pastor supremo. Ele governa salvando, cuida entregando a própria vida, conduz com autoridade soberana e preserva o rebanho até o fim: “Ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.28). Todos os demais pastores são reais e necessários, mas derivados: “Quando aparecer o Supremo Pastor, recebereis a imarcescível coroa da glória” (1Pe 5.4).

“Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo. Mas o maior dentre vós será vosso servo.  Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado.” (Mateus 23.10-12).

Implicações Eclesiológicas: Pastoreio sob o Rei-Pastor

Essa verdade molda diretamente a vida da igreja. Não há como divorciar a eclesiologia da teologia. A Confissão de Fé Batista de 1689 afirma que tudo se dá “de acordo com a mente de Cristo, declarada na Palavra” (CFB 1689, 26.7). A autoridade na igreja não é autônoma, mas ministerial. Os pastores existem para servir à obra de Cristo, não para substituí-la. Como diz a Confissão, eles devem “atender constantemente à obra de Cristo nas igrejas” e “prestar contas a Cristo” (CFB 1689, 26.10).

Do ponto de vista dos pastores, Solus Christus é libertação e responsabilidade. Libertação, porque nenhum pastor é chamado a carregar sozinho o peso do rebanho. Responsabilidade, porque pastorear é exercer um ministério confiado pelo Rei-Pastor. A autoridade dos pastores é exercida “não como dominadores…, mas tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.3), sob a consciência de que o rebanho pertence a Cristo.

“Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.” (Atos 20.28).

Solus Christus, Pluralidade e Paridade Pastoral

É precisamente aqui que Solus Christus faz emergir, de modo orgânico, a pluralidade de pastores. Se Cristo é o único Pastor essencial, nenhum pastor humano pode concentrar em si todo o cuidado e toda a autoridade. A pluralidade não nasce de pragmatismo administrativo, mas de um princípio teológico: o rebanho pertence a Cristo, e o cuidado é compartilhado para que ninguém ocupe o lugar que só Ele pode ocupar. Há um pastor e rei já divinamente constituído sobre a igreja, verdadeira e completamente humano, da descendência de Davi, ressurreto e que detém toda a autoridade no céu e na terra. A Confissão reconhece esse padrão ao falar de igrejas compostas por “anciãos (ou bispos) e diáconos” (CFB 1689, 26.8), e ao afirmar que o governo não é centralizado em uma instância superior.

Junto da pluralidade emerge também a paridade no ofício pastoral. Se nenhum pastor é mediador final, então nenhum é ontologicamente superior a outro no mesmo ofício. Há diversidade de dons e funções, mas não hierarquia sacramental entre pastores. A paridade protege a igreja do clericalismo e da personalização excessiva do ministério, e protege os próprios pastores do isolamento e da autossuficiência. Pastores pastoreiam juntos porque todos servem sob o mesmo Pastor supremo. O próprio apóstolo Pedro, pessoa crucial às origens e fundamentos da igreja cristã, ao encaminhar rogo específico aos presbíteros da igreja, localiza-se: “eu, presbítero como eles” (1Pe 5.1). Historicamente, o abandono milenar desse princípio gerou uma igreja imperial, hierarquicamente opulenta, marcada pelo “pastoreio” monárquico.

Do ponto de vista do rebanho, essa compreensão gera maturidade espiritual. A igreja aprende a honrar seus pastores sem idolatrá-los, a seguir liderança sem absolutizá-la, e a discernir que a autoridade que edifica não reside em uma personalidade, mas em um corpo que serve sob um único Cabeça. “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (Jo 10.27). O rebanho é chamado a viver como rebanho, não como plateia ou multidão de pessoas “aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36). Afinal, temos ou não temos pastor?

“Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino.” (Lucas 12.32).

Em síntese, o reino de Deus se manifesta na história como pastoreio. Esse pastoreio é prometido no Antigo Testamento, assumido pelo próprio Deus, cumprido exclusivamente em Cristo e vivido, hoje, na igreja que se submete ao Rei-Pastor segundo o princípio de Solus Christus. Onde Cristo é reconhecido como o único Pastor essencial, a liderança tende à pluralidade, a pluralidade encaminha-se para a lógica da paridade, e o rebanho encontra cuidado, direção e segurança. Assim, a igreja pode confessar com verdade e descanso: “O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará” (Sl 23.1).

“(…) se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.” (Apocalipse 7.15-17).


Texto baseado em atuais séries de pregações pelo pastor Gilson Santos na Igreja Batista da Graça, em São José dos Campos (SP), onde serve por quase de 27 anos. Gilson Santos conduziu a implantação de um presbitério na igreja local, orientando o processo de ordenação de todos os demais integrantes. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com algumas pós-graduações, sendo uma delas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua como escritor e professor no Seminário Martin Bucer, tanto no Brasil quanto em Portugal. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.

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