Pastoreio: Entre o Modelo Apostólico e a Cultura Brasileira
Presbitério, pastoreio e discernimento eclesial
Introdução — O que parece “natural” na igreja
Em muitas igrejas locais no Brasil, há algo que raramente é questionado: a ideia de que a congregação possui um líder pastoral central, figura decisiva na condução espiritual, administrativa e simbólica da comunidade. É comum que a igreja seja identificada pelo nome desse pastor, que as principais decisões passem por ele e que sua permanência ou saída determine, em grande medida, o futuro da congregação. Para muitos, isso está muitíssimo longe de soar estranho; ao contrário, parece natural, funcional e até desejável.
Essa percepção, porém, não nasce no vácuo. Ela é formada por uma longa convivência com estruturas de autoridade fortemente personalizadas, tanto na sociedade quanto na religião. O brasileiro, de modo geral, está habituado a lideranças verticais: chefes políticos (não raramente populistas, “messiânicos”), figuras paternas fortes, líderes religiosos carismáticos. Mesmo em comunidades protestantes históricas — que confessam a autoridade das Escrituras e rejeitam, em tese, modelos hierárquicos rígidos — a prática cotidiana frequentemente reproduz uma lógica monárquica e centralizadora de pastoreio.
O ponto decisivo é que, com o tempo, aquilo que é fruto de condicionamentos culturais passa a ser percebido como norma espiritual. O modelo deixa de ser visto como uma entre várias possibilidades históricas e passa a ser tratado como a expressão direta da vontade de Deus para a igreja. Questioná-lo soa, então, não como reflexão legítima, mas como uma forma de ameaça à ordem, à estabilidade ou à própria fé.
É nesse ponto que a pergunta se impõe, não por curiosidade acadêmica, mas por fidelidade pastoral: se o Novo Testamento testemunha um pastoreio exercido em pluralidade e colegialidade, por que, após vinte e um séculos de história cristã, a cultura eclesial brasileira consolidou com tanta força um modelo pastoral vertical, personalista e não colegiado? Responder a essa pergunta exige, certamente, mais do que repetir textos bíblicos, e muito excede os limites de um texto breve e introdutório. Não obstante, faz-se necessário olhar com honestidade para nossa própria história, nossas heranças culturais e as práticas que, muitas vezes sem perceber, naturalizamos no cotidiano da igreja.
Entre herança cultural e prática eclesial
Para compreender o porquê de o pastoreio monárquico haver se tornado tão forte no Brasil, é necessário reconhecer que a igreja nunca existe em abstração histórica. Ela sempre se encarna em culturas concretas, absorvendo hábitos, expectativas e linguagens de autoridade que precedem sua própria organização. No caso brasileiro, essa encarnação ocorreu num solo marcado, desde o período colonial, por uma profunda centralização do poder, tanto no plano político quanto no simbólico.
A experiência histórica brasileira foi moldada sob a monarquia absolutista portuguesa, com forte verticalização administrativa e personalização da autoridade. O poder raramente foi percebido como algo colegiado ou distribuído; ao contrário, concentrou-se em figuras centrais — o rei, o governador, o chefe, o patriarca. Essa lógica atravessou séculos e se sedimentou no imaginário social. Quando a igreja cristã se organiza nesse contexto, ela o faz inevitavelmente sob esse horizonte de expectativas: espera-se um líder forte, visível, decisório, alguém que “responda” pela comunidade.
Essa herança não se limita à esfera secular. Por mais de trezentos anos, o Brasil foi formado sob o catolicismo romano tridentino, profundamente episcopal e clerical, viabilizado ao nível local pela figura do pároco. O modelo de liderança religiosa que moldou o povo foi o de um clero separado, hierarquicamente estruturado, no qual a mediação espiritual se concentrava numa figura investida de autoridade sacramental e institucional. Mesmo após a chegada do protestantismo, esse habitus religioso permaneceu. O protestantismo brasileiro não surgiu em terreno neutro, mas num campo já preparado para compreender liderança religiosa como algo vertical e personalista.
Missão, pragmatismo e a consolidação do modelo
Quando o protestantismo de missão se estabelece no Brasil, sobretudo a partir do século XIX, ele o faz em condições de urgência, minoria e expansão. Nesse contexto, a figura do missionário-pastor assume papel central. Muitas igrejas nascem a partir do trabalho de um único obreiro, responsável por evangelizar, ensinar, organizar e sustentar a comunidade nascente. O que, inicialmente, é uma solução funcional e provisória acaba, com o tempo, tornando-se modelo permanente.
A pluralidade pastoral, embora presente nos textos bíblicos e nos documentos confessionais, é frequentemente adiada em nome da eficiência, da falta de obreiros preparados ou da necessidade de manter unidade e direção claras. Assim, a prática precede a reflexão, e o pragmatismo passa a ocupar o lugar da eclesiologia. Perguntas sobre governo da igreja, colegialidade e limites do poder pastoral tornam-se secundárias diante do imperativo de “fazer a obra avançar”.
Com o passar do tempo, essa configuração se naturaliza. Igrejas passam a ser identificadas pela figura do pastor principal; decisões estratégicas concentram-se numa única liderança; processos de sucessão tornam-se traumáticos, quando não inexistentes. Em alguns contextos, em uma “geografia” mais polarizada, o ministério passa, até mesmo, a ser dinástico, um patrimônio intrafamiliar. O que em tempos remotos nascera como contingência missionária se transforma em cultura institucional. E, num passo decisivo, essa cultura passa a ser teologizada: textos bíblicos são lidos de forma seletiva ou alegorizante para legitimar o que já está em funcionamento, e a exceção histórica assume status de norma espiritual.
Personalismo, espiritualização do poder e seus efeitos
Esse processo encontra forte ressonância na cultura brasileira, marcada pelo personalismo e pela busca de figuras de referência quase paternas. O pastor torna-se, não raramente, o eixo afetivo, simbólico e decisório da comunidade. A igreja passa a existir “em torno” dele, e não com ele. Questionar esse arranjo pode soar, muitas vezes, como deslealdade, rebeldia ou falta de espiritualidade.
O resultado é ambíguo. De um lado, líderes dedicados e sacrificados sustentam comunidades inteiras por décadas. De outro, a concentração de poder fragiliza o corpo, sobrecarrega o pastor, dificulta a formação de novos líderes e expõe a igreja a crises profundas quando a figura central falha, adoece ou se ausenta. A pluralidade, que no Novo Testamento aparece como proteção e expressão da maturidade da igreja, passa a ser percebida como ameaça à autoridade ou à unidade.
Reconhecer esse caminho histórico não significa demonizar líderes nem desqualificar igrejas. Significa, antes, desnaturalizar o que se tornou hábito e recuperar a capacidade de discernimento. O modelo de pastoreio monárquico tão presente no Brasil não é fruto direto da normatividade neotestamentária, mas de uma longa sedimentação cultural, histórica e pragmática, posteriormente legitimada por leituras teológicas parciais. Perceber isso abre espaço para um retorno responsável, gradual e pastoralmente sábio à pluralidade apostólica — não como ideal romântico, mas como expressão de fidelidade ao senhorio de Cristo sobre a sua Igreja.
Entre pacto e hierarquia
A distinção entre os horizontes anglo-saxão e ibérico ajuda a iluminar não apenas diferenças teológicas abstratas, mas a mentalidade profunda que molda a forma como autoridade, liderança e comunidade são percebidas. O horizonte anglo-saxão, fortemente influenciado por uma lógica pactual, tende a compreender a igreja como uma comunidade de iguais diante de Deus, organizada por acordos explícitos, responsabilidades partilhadas e autoridade funcional. Já o horizonte ibérico, herdeiro de uma tradição mais platônica e sacramental, entende a ordem como algo que desce de cima para baixo, valorizando a mediação pessoal, a hierarquia e a figura do líder investido de autoridade simbólica. Não se trata apenas de modelos eclesiásticos distintos, mas de modos diferentes de perceber a própria realidade.
A cultura brasileira foi formada majoritariamente sob o horizonte ibérico. Durante séculos, aprendemos a lidar com o poder de forma vertical, personalizada e paternal. A autoridade tende a ser reconhecida mais pela figura do líder do que pela estrutura colegiada, mais pela presença do “homem forte” do que pelo funcionamento de instâncias compartilhadas. Essa mentalidade atravessa a política, a família, as instituições e, inevitavelmente, a vida religiosa. Mesmo quando a igreja professa uma teologia protestante e afirma princípios como o sacerdócio universal dos crentes, ela frequentemente funciona segundo uma lógica hierárquica herdada, na qual o pastor ocupa o lugar central de decisão, representação e condução.
Quando esse imaginário cultural chega ao governo da igreja, o resultado é uma tensão permanente entre confissão e prática. A pluralidade pastoral, tão clara no testemunho neotestamentário e nos símbolos confessionais, passa a soar estranha, artificial, ansiogênica ou ameaçadora, enquanto o pastoreio monárquico parece natural e até espiritualmente desejável. Com o tempo, essa prática é teologizada, e o que nasceu como herança cultural torna-se norma religiosa. Reconhecer essa dinâmica não significa negar a ação de Deus na história da igreja brasileira, mas criar espaço para um discernimento mais maduro, capaz de distinguir entre o evangelho que confessamos e as formas culturais que, muitas vezes sem perceber, incorporamos ao pastorear e governar o povo de Deus.
Eclesiologia sob pressão econômica
Em algumas congregações locais, a resistência à pluralidade de presbíteros não nasce de objeções teológicas explícitas, mas de limitações econômicas reais. Criou-se, com o tempo, a associação quase automática entre presbítero e pastor remunerado em dedicação integral. A partir dessa premissa, a pluralidade passa a ser percebida como financeiramente inviável, pois implicaria a multiplicação de custos que a igreja não consegue sustentar. O problema, porém, está menos na limitação financeira em si e mais na identificação entre ministério pastoral e sustento integral.
O Novo Testamento não apresenta um modelo único de dedicação ministerial. Há ministros sustentados pela igreja, mas há também líderes que exercem o pastoreio em regime não integral, sem que isso comprometa a legitimidade do seu chamado. Além disso, a Escritura admite diferenciação funcional dentro do presbitério: nem todos se dedicam da mesma forma, nem com a mesma intensidade, ainda que compartilhem a mesma responsabilidade pastoral. A pluralidade bíblica não exige uniformidade de funções, mas comunhão de vocação e corresponsabilidade no cuidado do rebanho.
O risco maior surge quando limitações econômicas são teologizadas, transformando contingências históricas em normas espirituais. Isso tende a concentrar o pastoreio em um único líder, sobrecarregando-o e empobrecendo a vida da igreja, que deixa de reconhecer dons já concedidos por Deus — a riqueza da “multiforme graça de Deus”, na dispensação de dons e ministérios, não é devidamente celebrada. Biblicamente, a pluralidade pastoral nasce da maturidade espiritual, não da abundância financeira. Onde há homens qualificados, ainda que com disponibilidade parcial, a igreja é chamada a discernir, com paciência e fé, caminhos possíveis para viver um pastoreio mais próximo do padrão apostólico.
Conclusão — Caminho, paciência e confiança
Reconhecer que o modelo de pastoreio predominante no contexto brasileiro foi moldado por heranças culturais, históricas e pragmáticas não implica desprezo pela igreja nem desconfiança da ação de Deus ao longo do tempo. Pelo contrário, trata-se de um exercício de honestidade espiritual. Deus sempre conduziu o seu povo em meio a limitações reais, estruturas imperfeitas e processos lentos de amadurecimento. A fidelidade da igreja nunca esteve ancorada na pureza absoluta de seus modelos, mas na graça daquele que permanece fiel apesar deles.
Por isso, qualquer movimento em direção a uma cultura mais bíblica de pastoreio precisa ser pensado como caminho, não como ruptura; como formação, não como fórmula; como processo, não como imposição. Culturas não se transformam por decretos, eclesiologias não se enraízam por slogans ou frases de efeito. A pluralidade pastoral, quando resgatada de modo responsável, exige tempo, ensino paciente, formação de caráter e relações marcadas por confiança mútua. Exige, sobretudo, que líderes e igrejas aprendam a caminhar juntos, discernindo limites, responsabilidades e dons, sem romantizar o modelo apostólico nem absolutizar práticas herdadas.
Esse caminho demanda trabalho cuidadoso e excelência pastoral. Requer investimento na formação de novos líderes, disposição para compartilhar responsabilidades, abertura para correções fraternas e coragem para enfrentar inseguranças legítimas. Em muitos contextos, será um processo lento, marcado por pequenos avanços, ajustes e até recuos. Ainda assim, trata-se de um trabalho necessário, pois o pastoreio colegiado não visa apenas eficiência administrativa, mas a saúde espiritual do corpo de Cristo.
Ao mesmo tempo, esse esforço não pode ser sustentado apenas por estratégias humanas. A construção de uma cultura eclesial mais bíblica é, em última instância, obra do próprio Deus. Por isso, ao lado do trabalho diligente, permanece o chamado à confiança e dependência. A igreja não é conduzida por meros arranjos técnicos, mas pelo Senhor que caminha no meio dos candeeiros (Apocalipse 1.13). É Ele quem edifica a sua Igreja, quem sustenta seus servos e quem, no tempo oportuno, faz frutificar sementes lançadas com fidelidade.
Assim, entre o trabalho responsável e a confiança reverente, a igreja é chamada a palmilhar um caminho de maturidade. Não para reproduzir idealística e nostalgicamente o passado, nem para se render acriticamente ao presente, mas para discernir, com humildade e esperança, como viver hoje a fidelidade ao Cristo que permanece o único Cabeça, Pastor e Senhor da sua Igreja.
Gilson Santos é pastor e presidente da Igreja Batista da Graça, em São José dos Campos (SP), onde serve por quase de 27 anos. Conduziu a implantação de um presbitério na igreja local, orientando o processo de ordenação de todos os demais integrantes. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com algumas pós-graduações, sendo uma delas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua como escritor e professor no Seminário Martin Bucer, tanto no Brasil quanto em Portugal. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.