Tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas

Tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas

João 21.15–17

O que é necessário para ser pastor? As epístolas pastorais respondem em detalhes: “É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível…” (1Tm 3). São muitos os requisitos, e todos eles valiosos – a tal ponto que o apóstolo chega a usar o adjetivo “indispensável”. Mas há uma condição anterior a todos eles, um fundamento que precede qualquer qualificação técnica ou instrumental: o amor. Se falharmos nesse ponto, provavelmente seremos mal-sucedidos diante de Deus, mesmo possuindo todas as outras qualidades ministeriais. E – acrescente-se – continuar amando, ao longo da trajetória ministerial que pode ser longa e extenuante, é o grande desafio. Por isso, à beira do mar da Galileia, Jesus perguntou a Pedro algo que ecoa em cada pastor até hoje: “Tu me amas?… Apascenta as minhas ovelhas.”

O reencontro à beira do mar

João 21 nos leva à Galileia, cenário das origens. O mar, o vento, o cheiro do peixe assado — tudo remete ao início da caminhada. Pedro está ali, “de barriga cheia”, como observa João, com o paladar ainda marcado pelo peixe que o Senhor lhe oferecera (João 21.13). É um ambiente carregado de memórias, de identidade. Ali, onde tudo começou, Jesus o encontra novamente.

Mas antes de prosseguirmos, recordemos o momento anterior: o da negação. Três vezes Pedro negara conhecer o Mestre (João 18.18). Agora, três vezes o Senhor lhe pergunta: “Tu me amas?”. Aquele diálogo é a reconstituição da confiança quebrada, a cura da culpa, a restauração da vocação.

As palavras escolhidas por João guardam uma beleza profunda. Jesus usa duas vezes o verbo ἀγαπᾷς (agapas), que indica amor pleno, sacrificial; Pedro responde com φιλέω (phileō), afeição fraterna, amor de amigo. Não promete mais do que pode. Não oferece um rompante de heroísmo. E, no entanto, – como parece ao perguntar pela terceira vez – o Senhor acolhe esse amor limitado e o transforma em ministério. “Apascenta as minhas ovelhas.” O rebanho de Cristo seria agora confiado a um homem quebrantado, que aprendeu a amar. Sim, o Senhor Jesus acolheu o amor imperfeito de Pedro e o converteu em vocação.

A base afetiva do chamado

A pergunta de Jesus não se dirige ao intelecto, mas ao coração. “Tu me amas?” é uma questão dirigida aos afetos, o centro vital da pessoa, o que as Escrituras chamam de “entranhas” e “coração”. A teologia bíblica não concebe o amor como mera emoção passageira, mas como o motor da alma que dirige a vontade e orienta a vida.

Agostinho, em A Cidade de Deus (Livro XIV, 9), diz que a vida reta é aquela que tem retos todos os afetos, e que suprimir os afetos é desumanizar-se. “Ninguém é justo por ser duro, nem está com saúde por ser insensível.” O amor, para Agostinho, oferece retidão aos afetos — ilumina e ordena o interior do ser.

Séculos depois, Jonathan Edwards retomou esse tema ao afirmar que “a verdadeira religião consiste principalmente de santos afetos”. A fé não é apenas um exercício frio do entendimento, mas um iluminado calor que arde no coração. “A informação do entendimento é vã se não afeta o coração”, escreveu. A verdadeira virtude, dizia ele, nasce de um “sentido da glória divina”, de uma percepção interior da beleza e santidade de Deus.

Pregadores como Lloyd-Jones compreenderam bem essa dimensão. Para ele, a pregação não visa apenas transmitir informação, mas causar impressão (no sentido de imprimir uma marca, com por uma prensa) — tocar o coração com a verdade viva. Assim também é o pastoreio: não basta instruir intelectualmente, é preciso visar os afetos e fonte dos desejos, consolar, aquecer o rebanho com o amor de Cristo.

Em tempos mais recentes, um escritor resumiu essa antropologia com “Sou o que amo” — o modelo do desejo. O ser humano, segundo ele, é fundamentalmente um ser que ama – e porque ama, adora. E é por isso que Jesus não perguntou a Pedro: “Tu me entendes?”, nem mesmo, em rigor, com “Tu me serves?”, mas “Tu me amas?”. O pastoreio nasce do amor e vive dele. É a vocação afetiva por excelência.

O amor pastoral

O amor de Pedro por Cristo é o que o capacita a cuidar das ovelhas. Pois, a ordem “Apascenta as minhas ovelhas” revela que o ministério pastoral é uma extensão do amor de Cristo. As ovelhas não são do pastor, mas de Jesus; o amor pastoral é sempre mediado. Cuidar das ovelhas é amar Aquele a quem elas pertencem. Esse amor, porém, tem implicações concretas.

Amar pessoalmente as ovelhas

Nem sempre é fácil. As ovelhas, como nós, são frágeis, contraditórias, às vezes ingratas. O pastor também é pecador, cansado, vulnerável. Ainda assim, o chamado é para amar. Haverá dias em que o amor falhará, em que as expectativas ultrapassarão as forças. Mesmo assim, o pastor é chamado a olhar para Cristo e recomeçar. A graça do Senhor cobre o amor imperfeito de seus servos.

Criar uma cultura de amor na igreja

O pastoreio não é um exercício solitário. Jesus perguntou a Pedro: “Amas-me mais do que estes?”, lembrando-o de suas antigas pretensões.  A pergunta, entretanto, aponta para o amor do corpo de discípulos… O amor a Cristo deve gerar uma comunidade marcada pela mutualidade, pelo cuidado mútuo e pela pluralidade de liderança. O verdadeiro pastor busca formar uma igreja que ama — que ama a verdade, cuida, discipula e acolhe.

Amar genuinamente a Cristo

As ovelhas podem, por vezes, duvidar do amor do pastor — mas não deveriam duvidar do amor do pastor por Cristo. É esse amor que o sustenta. O Antigo Testamento insiste: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” (Dt 10.12). O Senhor mesmo promete circuncidar o coração do seu povo para que o amem (Dt 30.6). Jeremias e Ezequiel anunciam a Nova Aliança como uma obra interior: “Na mente lhes imprimirei as minhas leis, e no coração as inscreverei.” O amor a Cristo é o selo da Nova Aliança e o centro da vocação cristã. É dele que brota o cuidado pastoral.

O muito célebre Catecismo de Westminster exprime essa verdade na sua primeira pergunta: “Qual é o fim principal do homem? Glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.” Glorificar e gozar — amor e deleite — são faces inseparáveis da mesma vida piedosa. O gozo de Deus — deleitar-se nEle — é a fonte do amor verdadeiro.

Apresentar as ovelhas ao amor infalível de Cristo

Nenhum pastor pode suprir todas as carências do rebanho. Só Cristo pode. E visto que pastores são figuras revestidas de simbolismo e significados, alvos de projeção de expectativas, além de ordinariamente deterem alguma autoridade, as ovelhas poderão aguardar isto… Entretanto, o papel do pastor será conduzir as ovelhas ao amor que não falha. “Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou o Seu Filho” (1Jo 4.10).

Quando o pastor vive consciente desse amor, sua “conta-corrente afetiva” está sempre azul, transbordante. Ele ama sem cobrar amor em troca, porque se sabe amado até o fim.

A ovelha que experimenta esse amor é curada em profundidade. As feridas da rejeição, da solidão, da carência, encontram repouso no coração do Bom Pastor. O cuidado pastoral é, então, colocar cada ovelha aos pés da cruz, para que beba da fonte inesgotável de amor.

O amor que restaura

John Newton, o autor de Amazing Grace, já idoso e quase cego, costumava dizer: “A minha memória quase se foi, mas duas coisas eu sei: que sou um grande pecador e que Cristo é um grande Salvador.” É o mesmo espírito que habita Pedro à beira do mar. Ele não promete mais heroísmo, mas entrega-se ao amor que o restaurou. E é desse amor que nasce o ministério verdadeiro. Todo pastoreio autêntico é uma participação no pastoreio de Cristo. Ele é o Bom Pastor, que deu a vida pelas ovelhas. Nós apenas continuamos o seu gesto, sustentados pelo mesmo amor.

Que, como Pedro, ouçamos de novo a voz do Senhor: “Tu me amas?… Apascenta as minhas ovelhas.” Que cada pastor, líder e crente recorde que o ministério não é, em rigor, uma carreira profissional, mas expressão de amor. Que amemos o Senhor e, nele, cuidemos do seu rebanho.

Oração

Senhor Jesus,
Tu conheces o nosso coração e sabes quão imperfeito é o nosso amor.
Restaura em nós o primeiro amor, como restauraste em Pedro.
Ensina-nos a cuidar das Tuas ovelhas com o amor que vem de Ti, e não com as forças do nosso ego.
Faze-nos pastores segundo o Teu coração, que alimentam, curam e conduzem o rebanho à Tua presença.
Que a Tua voz continue a ecoar: “Tu me amas?… Apascenta as minhas ovelhas.”
Em Teu nome, o Bom Pastor, oramos. Amém.

(Transcrição abreviada, em versão editorial, de sermão pregado por Gilson Santos na Igreja Trindade, em São José dos Campos, São Paulo, no culto de ordenação do pastor Paulo Santos, na manhã de 9 de novembro de 2025)

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