A Dinâmica Relacional em um Presbitério Batista Reformado
O presbitério, na tradição batista de orientação reformada, é uma instância colegiada de governo espiritual que expressa a comunhão pastoral na condução da igreja local. A forma de governo congregacional, longe de excluir a liderança ordenada, pressupõe a existência de um corpo pastoral plural que se aconselha, ora, discerne e decide em conjunto sob a direção do Espírito Santo. Essa colegialidade, mais do que um arranjo administrativo, é expressão da natureza comunitária do evangelho (Atos 14.23; Tito 1.5; 1 Pedro 5.1–4).
A dinâmica relacional dentro de um presbitério é modulada por variáveis históricas, geracionais, funcionais e afetivas que lhe conferem identidade e organicidade próprias. Quando essas dimensões são reconhecidas e ordenadas sob a graça de Cristo, a convivência pastoral torna-se um meio de edificação mútua e de maturação espiritual da própria igreja.
1. Dimensão histórica
Cada presbitério nasce de uma história. A presença de pastores com diferentes tempos de ministério e vínculos formativos cria um tecido de memória que orienta a ação presente. A continuidade ministerial, quando exercida com humildade e abertura, preserva a identidade e a estabilidade da igreja, evitando rupturas desnecessárias. A autoridade espiritual, nesse sentido, é mais reconhecida do que imposta: ela brota da fidelidade, do serviço e da constância no tempo.
2. Dimensão geracional
A convivência de gerações distintas — anciãos, maduros e jovens pastores — produz uma riqueza de perspectivas. Os mais velhos podem oferecer prudência e senso de legado; os mais novos podem trazer energia, inovação e sensibilidade contextual. A tensão saudável entre essas vozes mantém o presbitério vivo e aprendente. Quando há uma dinâmica de escuta mútua e respeito, a tal ponto de consolidar uma cultura presbiteral, essa diversidade torna-se uma dádiva, não uma disputa.
3. Dimensão funcional
Nem todos os presbíteros exercem o ministério sob as mesmas condições de dedicação ou disponibilidade. Alguns atuam em tempo integral; outros conciliam o serviço pastoral com responsabilidades profissionais, e até mesmo em outras dimensões ministeriais. Essa diferença funcional, longe de criar hierarquias, pode gerar uma desejável complementaridade, desde que exista clareza quanto aos papéis e corresponsabilidade nas decisões. A liderança pastoral é colegiada em essência, ainda que os ritmos e encargos se diferenciem (1 Timóteo 5.17-18).
4. Dimensão relacional e espiritual
A comunhão entre pastores não se sustenta apenas em estatutos e outros documentos eclesiásticos, mas em vínculos espirituais e afetivos: amizade, confiança, história partilhada e fé comum. Muitos presbitérios florescem sobre relações que foram primeiro de discipulado e cuidado pastoral. Isso confere à convivência um caráter familiar e fraterno, sem anular a objetividade do governo eclesiástico. Quando a autoridade é exercida no amor de Cristo, em sujeição à orientação da Palavra e direção do Espírito Santo, e a liberdade se expressa em reverência, o presbitério reflete algo do próprio pastoreio de Cristo.
Em suma, a vida de um presbitério reformado é orgânica, não mecânica. Ele não se reduz a uma mesa de deliberações, mas constitui um espaço de convivência espiritual, onde o tempo, a história e a graça modulam as relações. Nele, os pastores aprendem uns com os outros, sustentam-se mutuamente e guardam juntos o rebanho de Deus. Eles têm diante de si o sublime e nobre chamado de cuidarem da preciosa Igreja de Cristo “não por sórdida ganância, mas de boa vontade… tornando-se modelos do rebanho” (1 Pedro 5.2–3).
Gilson Santos é pastor e presidente da Igreja Batista da Graça, em São José dos Campos (SP), onde serve por quase de 27 anos. Conduziu a implantação de um presbitério na igreja local, orientando o processo de ordenação de todos os demais integrantes. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com algumas pós-graduações, sendo uma delas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua como escritor e professor no Seminário Martin Bucer, tanto no Brasil quanto em Portugal. Dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.