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Uma figura oculta no Natal — Mateus Websky

Apresentação "Palácio Encantado", Palácio Avenida 2017

Palácio Avenida abre apresentações com espetáculo “Palácio Encantado”. Curitiba, 01/12/2017. Foto:Luiz Costa/SMCS. Confira aqui.

Há duas semanas fui com minha esposa a uma apresentação de Natal na cidade. Quem é paranaense sabe, já faz três décadas que troca o nome do banco mas o coral naquele palácio continua. Ela nunca tinha visto, então fomos. Um show muito bem produzido, sem dúvida, e estão de parabéns os que o fizeram, mas me chamou atenção um “detalhe”: a ausência de menção àquele que supostamente é personagem principal da tal data. Ali estavam referências a Harry Potter, Noviça Rebelde, Mary Poppins. Tinha luzes laser no prédio, balões, fumaça, chuva, papel picado, bola de sabão. Ar, água, terra, fogo. Magia, sonho, música, fantasia, encantamento, muita paz e felicidade… Mas não vi nenhuma citação àquela tal figura oculta. Só consegui perceber uma única citação a Ele, na letra de apenas uma música. Mas foi enquanto um barbudo de vermelho era elevado a dezenas de metros de altura numa plataforma, com gelo seco, fogos de artifício e luzes de todas as cores. Então não sei se valeu. Talvez conte como coadjuvante, no máximo. Acho que é mais certo dizer figurante. Tal como aquelas peças teatrais do primário que tem os protagonistas falando e aparecendo na frente e você fica com o papel de Árvore nº 8, e sua única função é ficar parado ali no fundo – sua mãe fica toda orgulhosa que você participou do teatro da escola, mas você sabe que era completamente dispensável.

Mas deve ter sido um caso isolado. O produtor talvez era anticristão ou quis dar um toque mais… inclusivo, para que as pessoas de outras religiões não se sentissem mal. Engraçado, não vejo judeus se preocupando assim quando celebram o Yom Kippur, muçulmanos também não precisam se esconder no Ramadã, o pessoal que faz oferenda a Iemanjá no Ano Novo nunca me parece preocupado em amenizar sua religiosidade, e um budista pode falar como quiser, ou qualquer outro quando tem suas datas festivas. Mas nós, cristãos, parece que precisamos pedir desculpas por ter uma data festiva cristã. Que coisa terrível, não? Uma data religiosa!

Então vamos dar uma olhadinha nos shoppings, e suas caríssimas decorações natalinas: árvores gigantes, flores vermelhas, ursos animados, bons velhinhos com risadas falsas, corrida de trenó, carrossel de renas, boneco de neve… decoração do Frozen, Quebra-Nozes, Alice no País das Maravilhas. É sério. Se um alienígena pousasse em nosso planeta em dezembro poderia fazer um relatório com elementos mais diversos, incluindo algumas bizarrices, mas não constaria nenhuma menção a Ele. Eu pelo menos não vi nenhuma este ano.

Mas talvez eu esteja sendo muito severo em meu julgamento, não? Afinal o comércio se importa com o que faz sucesso, com o que pode trazer vendas. Não tem preocupações religiosas, morais ou teológicas. Pois vamos analisar as músicas então: hoje fui investigar o que diz a letra de “jingle bells“: nada também. Fala de como é divertido andar de trenó na neve com um sino batendo. Super. Pense então nos clássicos “pinheirinhos que alegria…”, “deixei meu sapatinho…”, “então é Natal…”, “quero ver você não chorar…”, “um feliz Natal…”, e percebo que muitas músicas já nem se cita mais Ele, essa figura inoportuna.

Vejamos então como a mídia aborda, afinal, eles fazem um retrato da sociedade objetivo (será?). Olho para jornais, tv, e vejo “lojas cheias para compra de presentes”, “programe sua viagem para fugir do congestionamento”, “linda decoração com velas e guirlandas”, “amigo secreto na empresa”. O importante é reunir a família e fazer festa. Mas quase ninguém diz porquê. Quando um time é campeão, falam que é porque tal time venceu. Quando é dia das mães ou dos pais, sempre alguém manda um beijo e um abraço pra eles. Mas Natal é festa de quê mesmo?

Na verdade o Natal é tão incômodo que é melhor substituir por termos como “fim de ano” ou então desejar “boas festas!”. A música da Globo, por exemplo, nem ousa pronunciar aquelas palavras espinhosas: “hoje é um novo dia de um novo tempo que começou. Nesses novos dias as alegrias serão de todos: é só querer!” Você não precisa de nenhum Salvador, não. “Hoje a festa é sua”, algo completamente indefinido, não tem qualquer menção a nada objetivamente, nem a ninguém especificamente. Apenas senta aí e continua assistindo.

Dentro das casas talvez seja diferente, afinal ainda somos um país majoritariamente cristão. Aí nos reunimos ao redor da mesa, comendo um chester, bebendo coca, fazemos a piadinha do pavê. E o momento mais importante da noite qual é? Quando vamos abrir os presentes que o Papai Noel deixou embaixo da árvore toda enfeitada com bolinhas e luzinhas. Que bom, todos ficam felizes. Mas arrisco dizer que Ele, ficou oculto mais uma vez. Pelo menos na maioria das casas daqueles que dizem ser cristãos, naquela festa que dizem que era pra ser sobre Ele.

Até mesmo igrejas, pasmem, se deixam levar por essa onda de esconder essa figura no Natal. Já vi presépios terem sido substituídos por pinheiros. Mensagens de paz, luz e amor, praticamente auto-ajuda que você compra na livraria por R$19,90. Já vi dentro de igreja peça teatral do “Natal dos palhaços”, e ao fim não consegui entender muito bem onde estariam os palhacinhos no relato daquele livro antigo. Enfim, não vamos ofender né, as pessoas que vêm até a igreja… elas ficam o ano todo sem vir, quando vêm precisam se sentir bem.

Em minha opinião Ele está sumindo em nossa sociedade e em nossa cultura, justamente no evento supostamente mais emblemático da cristandade, simplesmente porque, para muitos de nós, Ele realmente não faz falta nenhuma. Ele está de fora porque nós queremos ele bem longe mesmo.

Ou estou exagerando? Feliz Natal a todos. Com Jesus presente.

[Texto originalmente publicado em meu Facebook em 21 de dezembro de 2017, confira aqui. Mateus Websky é colaborador no blog do I-poimenica.]

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