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Da lima-da-Pérsia ao “Meu pé de Laranja Lima”

Basket with six oranges, 1888, Vincent van Gogh

Basket with six oranges, 1888, Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist Painter, 1853-1890), oil on canvas, 45.0 x 54.0 cm, Private Collection, Lausanne

Num dos eventos de nossa igreja nos hospedamos em uma chácara, com uma bonita casa ao centro, ampla área de lazer (incluindo piscina e salão de jogos), chalés, restaurante, lagos… E um pomar com muitas fruteiras. Entre estas, algumas limeiras. Um cesto cheio de limas-da-Pérsia foi colocado sobre uma mesa ampla, e ao redor dela, assentados, vimos a vida passar enquanto descascávamos os frutos. E a vida passava doce aos nossos paladares, em meio àquele ritual de palavras e risos compartilhados, facas à mão, gomos à boca e cascas e caroços à mesa. E enquanto a vida passava, em seu PH mais alcalino, eu me lembrei da minha infância.

Em nossa casa, quando algum filho adoecia, papai comprava lima-da-Pérsia. Não me pergunte pelas razões dele. Eu mesmo nunca perguntei. Não tenho, portanto, a mínima ideia do que fazia com que ele associasse o tempo de recuperação de algum resfriado forte (por exemplo) com o chupar das limas. Talvez algum tipo de sabedoria intuitiva, mostrando-nos que, num tempo de reveses, é sempre bom ter algo que torne a vida mais doce.

Diante do fruto, primeiro a visão: o fruto se parece com uma laranja de tamanho médio, mas tem coloração mais amarelada. Não é laranja nem limão; é lima. Depois vem o olfato: o cheiro é agradável e bem característico. Ao olfato segue-se o tato: a casca é de superfície lisa e de fina espessura. A polpa é amarelo-pálida, com textura macia a firme, com eixo sólido. Os frutos são suculentos, com muito do seu peso em suco. Aí entra o paladar: a lima-da-Pérsia é uma fruta cítrica de baixa acidez. Dependendo da variedade, o sabor pode ser mais ou menos amargo, graças à pele dos gomos.

A lima-da-Pérsia é a variedade mais representativa das limeiras-doces, que, já no século XVI, foi trazida à América pelos colonizadores espanhóis e portugueses. Ela nem entra nas estatísticas de citros no Brasil, porque é encontrada basicamente em pomares domésticos. Por ter baixa acidez, é muito empregada na medicina popular. Talvez isso explique um pouco a prática do meu pai. A ciência tem comprovado que os recursos naturais do fruto são vários. Porém, mesmo sem saber dessas informações da ciência, quando estávamos doentes meu pai juntava o útil ao agradável, e assim a vida ficava mais doce naqueles momentos outonais.

Meu pé de laranja lima

O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d’amor!
(…)
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

(Casimiro de Abreu, “Meus Oito Anos”)

Das limas sobre a mesa segui, pelo trajeto mnemônico, em direção ao pé de laranja lima. Certa ocasião, enquanto me recuperava de uma hepatite, li Meu pé de laranja lima. E aí a gente descobre que bons livros também adoçam a vida.

Meu pé de laranja lima é um livro extremamente marcante, comovente e triste. Marcante pela ironia da sua história; comovente pela simplicidade com que foi escrito e pelo conteúdo que transmite; triste pela dor e pelas perdas retratadas. De uma forma simples e eloquente, o autor me fez sentir como se eu também participasse da história. Parece-me que estes são os livros infantis mais bem sucedidos. Em Meu pé de laranja lima o mais importante são as pequenas coisas – que no fundo acabam sendo também as mais bonitas. As pequenas vitórias, assim como as dores e conquistas do mundo real, apenas pelo que são, acabam se revestindo de uma fantasia mais doce e mais bonita, e de um encanto mais profundo, do que as grandes lendas ou fábulas.

Meu pé de laranja lima é um romance juvenil, escrito por José Mauro de Vasconcellos (1920-1984) e publicado em 1968. Tem sido traduzido para dezenas de idiomas… Foi adotado em escolas e, posteriormente, adaptado para o cinema, televisão e teatro. Este livro retrata a história de um menino de cinco anos, que pertencia a uma família muito pobre e muito numerosa. O menino tinha muitos irmãos, a sua mãe trabalhava fora, o pai estava desempregado, e como tal passavam por muitas dificuldades. As irmãs mais velhas tomavam conta dos mais novos, e Zezé, por sua vez, tomava conta de um irmão ainda mais novo que ele. O relato se dá na primeira pessoa:

E eu estava me lembrando de uma música que Mamãe cantava quando eu era bem pequenininho. Ela ficava no tanque, com um pano amarrado na cabeça para tapar o sol. Tinha um avental amarrado na barriga e ficava horas e horas, metendo a mão na água, fazendo sabão virar muita espuma. Depois torcia a roupa e ia até a corda. Prendia tudo na corda e suspendia o bambu. Ela fazia igualzinho com todas as roupas. Estava lavando a roupa da casa do Dr. Faulhaber para ajudar nas despesas da casa. Mamãe era alta, magra, mas muito bonita. Tinha uma cor bem queimada e os cabelos pretos e lisos. Quando ela deixava os cabelos sem prender, dava até na cintura. Mas bonito era quando ela cantava e eu ficava junto aprendendo.

“Marinheiro, Marinheiro
Marinheiro de amargura
Por tua causa, Marinheiro
Vou baixar à sepultura…
(…)

O amor de Marinheiro
É amor de meia hora
O navio levanta o ferro
Marinheiro vai embora…”

Até agora aquela música me dava uma tristeza que eu não sabia compreender.

As apertadas condições econômicas da família impelem a uma mudança de residência. Nesta mudança de casa Zezé encontra no quintal da nova moradia um pequeno pé de laranja lima. Inicialmente, a ideia de ter uma árvore tão pequena não lhe agrada muito.

— Pense bem, Zezé. Ele é novinho ainda. Vai ficar um baita pé de laranja. Assim ele vai crescer junto com você. Vocês dois vão se entender como se fossem dois irmãos.

O garoto, como outros de sua idade, foi então descobrindo o fabuloso poder de sua imaginação. Em sua ludicidade, à medida em que vai convivendo com a pequena árvore, e ao desabafar com ela, repara que o arbusto fala e que é capaz de conversar. O pé de laranja lima passa a ser o seu confidente, tornando-se o seu melhor amigo. Claro que isso não acontece gratuitamente. A árvore usa uma linguagem igual à de uma pessoa, e também só fala e age na privacidade com o menino. Na presença dos outros, é um arbusto normal.

Meu pé de laranja lima explora o tema da amizade. Com lentidão a trama simples se desenvolve, e o menino estabelece uma bonita amizade com o velho português Manuel Valadares, o “Portuga”. Com seu sotaque característico e o agir reservado, o português foi tratando o menino pobre como a um filho. E aqui uma terceira coisa doce na vida: os amigos que nos marcam. Limas, livros e boas amizades. Num tempo de reveses, é sempre bom ter algo que torne a vida mais doce. E as amizades tecidas no mundo real, se comparadas às imaginárias ou idealizadas, são aquelas que melhor cumprem esse papel. Pois nem tudo nesta vida é lúdico, infelizmente.

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