A multiforme riqueza da graça e o pastoreio que conduz à maturidade
Introdução
A Escritura revela um traço recorrente e decisivo do agir de Deus: aquilo que é uno em sua origem manifesta-se de forma múltipla em sua expressão histórica. A graça é uma, mas multiforme; a sabedoria é una, mas ricamente diversificada; o corpo é um, mas composto de muitos membros (1Co 12.12-27). Essa multiformidade não é um efeito colateral do plano divino, mas parte constitutiva dele (1Co 12.5-6). Ignorar esse princípio conduz inevitavelmente a distorções na compreensão da igreja e, de modo particular, na filosofia do ministério pastoral.
Quando a igreja passa a ser organizada segundo lógicas de uniformização, controle excessivo ou dependência personalizada, algo essencial da economia da graça é comprimido. Por outro lado, quando a multiforme riqueza de Deus é reconhecida e acolhida, tanto a estrutura da igreja quanto o exercício do pastoreio tendem a assumir feições mais maduras, mais colegiadas e mais cristocêntricas.
A multiformidade como lógica teológica fundamental
O Novo Testamento afirma explicitamente que a graça de Deus é “multiforme” e que sua sabedoria também o é (Ef 3.10; 1Pe 4.10). O termo grego πολυποίκιλος (polypoíkilos), usado tanto por Pedro quanto por Paulo, indica variedade rica, diversidade integrada e beleza complexa. Não se trata de mera pluralidade empírica, mas de uma diversidade ordenada que expressa a profundidade do propósito divino.
Em seu devido contexto, essa lógica revela que Deus não trabalha por padronização, mas por integração. A unidade da fé não exige homogeneidade de dons, temperamentos ou vocações. Ao contrário, a unidade verdadeira se manifesta precisamente na comunhão de diferentes, reconciliados em Cristo e orientados pelo mesmo Espírito (Ef 2.10-22). A igreja, nesse sentido, torna-se o espaço histórico onde a multiforme graça e a multiforme sabedoria de Deus se tornam visíveis, não apenas ao mundo, mas também às “potestades nos lugares celestiais”, como afirma o apóstolo Paulo (Ef 3.10).
O pastoreio como serviço à graça e não como molde de pessoas
Dentro dessa moldura teológica, o pastoreio cristão não pode ser compreendido como um projeto de reprodução do líder nem como um mecanismo de controle da vida comunitária. A igreja não é uma linha de reprodução fordista, com produção seriada. Biblicamente, o pastor é chamado a ser despenseiro, cooperador, servidor e formador, jamais o centro permanente da fé do povo (Ef 4.11-16). Seu chamado não é produzir crentes “à sua imagem e semelhança”, mas trabalhar para que Cristo seja formado neles (Gl 4.19).
Quando o ministério pastoral se orienta por estritas lógicas panópticas, por microgerenciamento constante ou pela produção deliberada de dependência, ocorre uma inversão do telos bíblico. A tutela permanente passa a ser confundida com cuidado; a imaturidade prolongada, com fidelidade; a uniformidade comportamental, com unidade espiritual. O resultado costuma ser uma igreja funcionalmente dependente, espiritualmente frágil e estruturalmente vulnerável. E assim os crentes tendem a pedir, continuada e indefinidamente, para que se lhes dê “a mão para atravessar a rua” e que se lhes ajude “a amarrar os cadarços dos sapatos”.
O Novo Testamento, porém, aponta em outra direção. O objetivo do pastoreio é conduzir o povo da infância espiritual à maturidade, para que não permaneça à mercê de ventos doutrinários nem da mediação contínua de líderes humanos ((Ef 4.11-16). Pastores fiéis não trabalham para se tornarem indispensáveis, mas para que sua centralidade diminua à medida que a centralidade de Cristo se aprofunda na vida da igreja. Tal como na educação de filhos, em que sábios pais cristãos criam-nos para uma dependência cada vez menor da tutela parental e para a dependência cada vez maior do Senhor.
Pluralidade pastoral e maturidade comunitária
É precisamente nesse ponto que a pluralidade de pastoreio se mostra coerente com a lógica da multiforme riqueza da graça. Nenhum pastor, por mais piedoso ou capacitado, reúne em si todos os dons necessários ao cuidado do rebanho. A liderança plural não é apenas uma salvaguarda contra abusos; ela é uma tradução estrutural da própria teologia que a igreja confessa.
Onde há pluralidade responsável, a diversidade de dons é reconhecida, o discernimento é compartilhado, as decisões são amadurecidas coletivamente e a igreja é menos refém de temperamentos individuais. A autoridade não é diluída, mas purificada; o cuidado não é enfraquecido, mas ampliado. A multiforme graça encontra espaço para florescer sem ser domesticada.
Sabedoria, maturidade e a tríade paulina
No coração desse processo está a relação indissociável entre sabedoria e maturidade. Biblicamente, sabedoria não é meramente erudição religiosa nem a simples habilidade técnica, mas discernimento vivido, moldado pelo temor do Senhor e exercitado no tempo. A maturidade, por sua vez, é o fruto dessa sabedoria encarnada, manifestada em estabilidade, perseverança e responsabilidade espiritual.
É nesse horizonte que uma tríade paulina se torna decisiva (1Ts 1.2-3). A maturidade cristã se expressa em fé operosa, que não se limita à confissão verbal, mas se traduz em obediência concreta; em amor abnegado, moldado pela lógica da cruz e não pela autopreservação; e em esperança firme, capaz de sustentar a vida cristã em processos longos, sofrimentos reais e expectativas escatológicas. Essa tríade não descreve virtudes isoladas, mas o retrato de uma vida amadurecida em Cristo (1Ts 1.6). Onde ela se torna visível, a sabedoria já está em operação. Onde ela falta, a imaturidade se manifesta, ainda que haja intensa atividade religiosa.
Conclusão
À luz de tudo isso, pode-se afirmar com segurança que a multiforme riqueza da graça de Deus exige uma eclesiologia e uma filosofia pastoral compatíveis com sua natureza. O pastoreio bíblico não trabalha pela produção de dependência, mas pela formação de maturidade. Não busca uniformizar pessoas, mas integrar uma rica diversidade sob o senhorio de Cristo. Não centraliza a fé no líder, mas conduz o povo a uma dependência cada vez mais consciente, adulta e profunda do próprio Senhor.
Onde essa lógica é respeitada, a igreja cresce não apenas em organização, mas em solidez espiritual. A graça não é comprimida, mas celebrada. A sabedoria não é instrumentalizada, mas vivida. E o resultado não é uma comunidade de crentes infantilizados, mas um corpo maduro, no qual a fé é operosa, o amor é abnegado e a esperança permanece firme, para a glória de Deus e o testemunho do evangelho no mundo.
Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.