Unidade em Cristo: O Chamado da Igreja

Unidade em Cristo: O Chamado da Igreja

Efésios 4.1-16

Imagine uma orquestra: cada músico com o seu instrumento, cada um com uma partitura distinta, mas todos guiados pelo mesmo maestro. Se cada músico tocar isoladamente, por melhor que seja, o resultado será confusão; mas se todos seguirem a bela cadência de uma sábia batuta, ouvir-se-á harmonia. Assim é a vida da Igreja: diferentes dons, ministérios e personalidades, mas um só Espírito que conduz.

É precisamente este quadro que o apóstolo Paulo nos apresenta em Efésios 4. Ele escreve como “preso do Senhor” e suplica que os crentes “andem como é digno da vocação com que foram chamados”. A unidade cristã, para Paulo, não é fruto apenas do esforço humano, mas um dom divino que deve ser guardado com zelo e vivido com humildade, mansidão e amor. A comunhão não se sustenta por imposição, por astúcias humanas e forças carnais, mas por atitudes interiores que mantêm o vínculo da paz.

A base desta exortação está naquilo que Paulo chama de o “um só”: um só corpo, um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só baptismo, um só Deus e Pai de todos. Esta cadência repetida realça a profundidade da nossa comunhão: a Igreja é uma porque o seu Deus é um. Não somos ilhas espirituais, mas membros de um mesmo corpo, enraizados numa realidade que transcende as diferenças culturais, sociais e pessoais.

Mas se a unidade é dom de Deus, ela não elimina a diversidade. Pelo contrário, valoriza-a. Anteriormente, na mesma epístola, o apóstolo ressaltara que a multiforme graça de Deus se expressa em riqueza de diversidade. Há uma riqueza de graça na composição do todo. Paulo afirma que “a graça foi dada a cada um segundo a medida do dom de Cristo”. O Senhor distribuiu dons variados ao seu povo — e estes se veem nos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores — com o propósito de “aperfeiçoar os santos para a obra do ministério e edificar o corpo de Cristo”. Noutras palavras, cada dom existe para servir, não para exaltar quem o possui. A Igreja cresce quando todos participam, cada um contribuindo com o que recebeu. Ninguém é tão pobre que não tenha com que participar; ninguém é tão rico que não tenha o que receber.

Essa cooperação é o que leva o corpo à maturidade espiritual. O objectivo é “chegarmos todos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo”. O contrário seria permanecer como “meninos, levados em roda por todo o vento de doutrina”. O corpo amadurece quando cresce “em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”, e quando cada parte funciona segundo a justa medida. A imagem é bela e precisa: “todo o corpo, bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor”.

Daqui derivam lições pastorais preciosas. A unidade é, ao mesmo tempo, dom e responsabilidade: Deus a concede, e nós a guardamos. A diversidade, que resulta da operação graciosa de Deus, não ameaça a unidade, mas enriquece-a. Cada um é chamado a servir conforme a graça recebida. A maturidade espiritual não se alcança isoladamente, mas no crescimento conjunto. E a Igreja só é saudável quando Cristo é reconhecido como Cabeça, a referência e o centro de tudo.

A imagem da orquestra ajuda-nos a visualizar isso. Cristo é o Maestro; o Espírito Santo traz-nos a poderosa e belíssima direcção, como uma “batuta invisível”; a Palavra, a partitura; e a nós é oferecido o privilégio de servirmos como “músicos”. Quando tocamos juntos, o mundo pode ouvir a melodia da graça. Quando cada um toca a sua parte em harmonia com os demais, Cristo é glorificado e a Igreja cumpre o seu papel no mundo.

Hoje, esta Palavra encontra eco especial na realidade que celebramos: a consolidação de uma “nova” igreja na Margem Sul de Lisboa, nascida da união de duas comunidades que agora se tornam num só corpo. É um momento de alegria, mas também de desafio. Duas histórias distintas, duas trajetórias de fé, duas heranças espirituais encontram-se sob o mesmo Senhor. E é precisamente aqui que Efésios 4 ganha vida: “procurai guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”.

A unidade que hoje se inaugura não será mantida por rigidez de uniformidade, mas por amor; não por semelhança forçada, mas por compromisso; não por consenso permanente, mas por fidelidade a Cristo. Poderá haver diferenças de estilo, de sensibilidade, de experiência. Mas se Cristo for o centro, se o Espírito for o laço e se o amor for o caminho, esta nova igreja será sinal vivo da graça de Deus na Margem Sul desta grande metrópole europeia. Que os mais antigos acolham os novos com ternura; que os mais novos honrem os antigos com respeito; que todos olhem na mesma direcção, sob a mesma Cabeça.

Assim, guardemos a unidade em Cristo — não como algo frágil e passageiro, mas como testemunho vivo de que o Deus Trino habita entre nós. Que esta nova comunidade seja um corpo ajustado, forte no amor, firme na verdade e em constante crescimento em maturidade e serviço.

Que o nosso coração se una, então, numa mesma oração:

“Senhor, ajuda-nos a viver com humildade, mansidão, paciência e amor, guardando a unidade do Espírito. Que Cristo seja sempre a Cabeça da Igreja, e que cada dom seja usado para edificação do corpo. Faze-nos crescer em maturidade, para que o mundo veja em nós o reflexo da Tua glória. Em nome de Jesus. Amém.”

Transcrição abreviada da “Palavra à Igreja” pelo pastor Gilson Santos, oferecida no culto de celebração dos 65 anos da Igreja Evangélica do Feijó (Centro Evangelístico e Missionário do Feijó e Missões), quando a ela se uniu, num único corpo, a Igreja Baptista Margem Sul, tendo sido constituído o presbitério da igreja, à tarde de 12 de Outubro de 2025. Texto partilhado com leitores na variante linguística do português europeu. A tradução bíblica utilizada foi a Almeida Revista e Corrigida pela Sociedade Bíblica Portuguesa.

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