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O Engenho dos Pachecos – Frei Agostinho de Santa Maria (1723)

Localização do “Engenho do Pacheco”, 1767. Recorte: Cartas Topográficas da capitania do Rio de Janeiro, Brasil, 1767, Manuel Vieira Leão (1727-1803)

Localização do “Engenho do Pacheco”, 1767. Recorte: Cartas Topográficas da Capitania do Rio de Janeiro, Brasil, 1767, Manuel Vieira Leão (1727-1803), Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, Brasil. Tamanho grande aqui.

Em destaque, a localização do “Engenho do Pacheco”. O cartógrafo situa o engenho na região entre os rios Cabuçu e Tanguá, localizando-o nas proximidades da Serra do Lagarto e ao norte da Lagoa de Maricá. Um pouco ao sul do engenho, e a meio caminho da Lagoa de Maricá, o cartógrafo situa a capela de Nossa Senhora da Saúde.

O frei Agostinho de Santa Maria, nascido Manuel Gomes Freire, era natural da “Notável Vila” de Estremoz, no Alentejo Central, onde nascera em  28 de agosto de 1642. Professou a regra dos Agostinianos Descalços, e exerceu na referida Ordem vários cargos, inclusive os de Cronista e Vigário Geral da sua congregação em Portugal. Morreu aos oitenta e seis anos, em 3 de abril de 1728, no Convento de Nossa Senhora da Boa Hora, na freguesia da Ajuda, em Lisboa. Foi escritor prolífico, com muitas obras publicadas e outras que restaram inéditas por ocasião de seu falecimento.

Em sua obra “Sanctuario Marianno”, com um total de dez volumes publicados entre 1707 e 1723, o autor esboça as histórias das “Imagens de Nossa Senhora”, começando pela cidade e arcebispado de Lisboa, prosseguindo então por circunscrições eclesiásticas em todo o Reino português, inclusive no ultramar, tais como “Índia oriental, e mais conquistas de Portugal, Ásia insular, África e ilhas Filipinas”. No tomo IX o autor percorre o “Arcebispado da Bahia, e mais Bispados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, Maranhão e Grão-Pará”. O último volume se dedica a narrar a “Historia das Imagens que se veneram em todo o Bispado do Rio de Janeiro e Minas, e em todas as Ilhas do Oceano”. Esta antiga e volumosa obra é importante fonte histórica para a topografia nos domínios portugueses, inclusive o Brasil da época. Do último volume, publicado em 1723, extraímos a citação abaixo, com atualização ortográfica nossa:

No bairro ou povoação de Tapacurá há uma fazenda, de que é senhor Julião Rangel, e nela se vê uma Igreja que seu pai fundou e dedicou ao mistério da puríssima Conceição da Virgem Maria, nossa mãe e senhora. [1] Chamava-se o pai João Correia da Silva. Era homem nobilíssimo e sempre enquanto viveu, pela grande devoção que tinha a essa Senhora, lhe fazia todos os anos grandes festas com muita grandeza e despesa. Com o mesmo fervor continua até o presente seu filho Julião Rangel. […]

Légua e meia adiante da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, vê-se outra fazenda, que é de Francisco Ferreira Dorlando. [2] Este casou com uma viúva, cujo marido se chamava Fulano Pacheco, que havia herdado aquele Engenho de seus pais e assim ainda hoje se chama o Engenho dos Pachecos. Este tal Fulano Pacheco fundou também a nossa Senhora uma Casa, onde colocou uma Imagem sua, a quem deu o título de Nossa Senhora do Desterro, e este tal homem, chamado Pacheco, festejava a Senhora todos os anos. É esta Santíssima Imagem de escultura de madeira; está colocada no Altar maior daquela Ermida, que é único. A Senhora está levando pela mão o Santíssimo Filho como de sete anos, e da outra parte seu Aio, o Senhor São José. Com esta Senhora têm também todos aqueles circunvizinhos muita devoção, e todos se valem dos grandes poderes daquela Senhora, invocando-a em seus trabalhos e tribulações. Dela faz menção o Padre Frei Miguel de S. Francisco na Relação, que nos enviou. […]

Do Engenho dos Pachecos para diante se formam duas estradas: uma que vai para o Bairro de São Gonçalo e para os seus Engenhos, e outra que guia para a Lagoa de Maricá. No caminho de Maricá, em um lugar chamado Ubatiba, [3] vê-se o Santuário de nossa Senhora da Saúde. Esta Igreja fundou um homem morador de Tapucurá, chamado João Vaz Pereira. […]

[Frei Agostinho de Santa Maria (1642-1728). In: Sanctuario Mariano; e historia das imagens milagrosas de nossa senhora, e das milagrosamente aparecidas. TOMO X. Lisboa: Antonio Pedrozo Galram, 1723, pp. 219-220. Atualização ortográfica por Gilson Santos.]

[1] A capela de Nossa Senhora da Conceição foi construída na fazenda que foi de João Corrêa da Silva, em Iguá, “Tapacorá”, no atual município de Itaboraí, RJ. Na referida capela, em 1627, foi criado o Curato, o qual, com o decorrer dos anos, foi transferido para a Capela de São João Batista.

[2] Francisco Ferreira Dorlando parece ser o Capitão Francisco Ferreira Dormundo.

[3] Ubatiba é atualmente um bairro pertencente ao primeiro distrito do município de Maricá, o qual dista cerca de cinco quilômetros da sede do município. Trata-se de um bairro de passagem entre os municípios de Itaboraí e Maricá.

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Texto por Gilson Santos em 27/07/2020. Integra um projeto mais amplo de genealogia e história familiar, coordenado pelo autor e envolvendo outros da família. Para contatos com o autor, clique aqui.