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Quando o ser humano renuncia à misericórdia – Søren Kierkegaard

Lazarus outside the Rich Man's House (Lázaro à porta do homem rico), 1866, Antoine-Valérie Bertrand, after Gustave Doré

Lazarus outside the Rich Man’s House (Lázaro à porta do homem rico), 1866, Antoine-Valérie Bertrand (French Engraver and Illustrator, 1823-alive 1874), Wood Engraving, 24.5 x 19.7 cm (9.75 x 7.75 in.). After Gustave Doré (French Romantic Illustrator, 1832-1883). Original: La Sainte Bible, according to the Vulgate, translation by Jean Jacques Bourassé and Pierre Désiré Janvier, also called “La Grande Bible de Tours”, published in 1866 in a deluxe version illustrated (Mame in Tours, France; Cassell and Company, England, 1866). See The Doré Bible Gallery (Chicago: Belford-Clarke Co., 1891) by Project Gutenberg. Illustration to Luke 16.19-21. Large size here.

Os relatos sagrados têm, entre outras, a seguinte peculiaridade: em toda a sua simplicidade sempre conseguem dizer tudo o que deve ser dito. Tal é também o caso da parábola do homem rico e do pobre. O evangelho não pinta e não descreve em detalhes nem a miséria de Lázaro e nem a suntuosidade do rico, contudo há um traço acrescentado que bem vale a pena ressaltar: conta-se ali que Lázaro jazia no pórtico do rico, coberto de chagas, que os cães vinham lamber. O que isto significa a respeito do rico? A falta de misericórdia ou, mais precisamente, a desumana ausência de misericórdia. […] Mas o homem rico era desumano, e esta é a razão porque o Evangelho recorre aos cães. Que contraste! Não vamos exagerar e dizer que um cão pode ser misericordioso; no entanto, em contraste com o rico, é como se os cães fossem misericordiosos. E isso é o que nos dá calafrios: que ao haver o ser humano renunciado à misericórdia, precisaram aparecer os cães para exercer misericórdia. Há ainda uma outra coisa nesta comparação entre o homem rico e os cães. O homem rico estava em estupendas condições de poder fazer algo em favor de Lázaro; os cães nada podiam fazer e, no entanto, é como se os cães tivessem sido misericordiosos.

[Søren Aabye Kierkegaard, 1813—1855, filósofo e teólogo dinamarquês. In: Las obras del amor; Meditaciones cristianas en forma de discursos. Tradução para o Espanhol por Demetrio G. Rivero com base no original dinamarquês. Salamanca, Espanha: Ediciones Sígueme, 2006, pp. 388-389. Tradução do excerto para o português: Gilson Santos. A citação baseia-se na parábola encontrada em Lucas 16.19-21. Observe-se que Kierkegaard não está dizendo que a abjeta ação de os cães lamberem as feridas de Lázaro fosse um ato de misericórdia. O que o filósofo está apontando é que a ação dos cães tinha como resultado, objetivamente, o atenuar das dores que sentia o homem miserável que jazia à porta do rico. Em rigor, o ato canino, desprovido de humanidade, aliviava as dores; por sua vez, a omissão humana possuía justamente o desumano efeito contrário.]

DETAIL: Lazarus outside the Rich Man's House (Lázaro à porta do homem rico), 1866, Antoine-Valérie Bertrand, after Gustave Doré

DETAIL: Lazarus outside the Rich Man's House (Lázaro à porta do homem rico), 1866, Antoine-Valérie Bertrand, after Gustave Doré

DETAIL: Lazarus outside the Rich Man's House (Lázaro à porta do homem rico), 1866, Antoine-Valérie Bertrand, after Gustave Doré

DETAIL: Lazarus outside the Rich Man's House (Lázaro à porta do homem rico), 1866, Antoine-Valérie Bertrand, after Gustave Doré


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