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Martin Bucer, o Reformador Alsaciano

Martin Bucer nasceu em 11 de novembro de 1491, em uma família de fabricantes de barris. Sua mãe era parteira, e seu pai e seu avô eram ambos toneleiros, fabricantes de barris de vinho para a indústria vinícola da próspera Alsácia. Desde os tempos medievais, o vinho da Alsácia gozava de uma internacional reputação de excelência. Bucer nasceu e foi criado em Sélestat, França, à época uma pequenMartin Bucer (1491-1551)a cidade de quatro mil habitantes. Atualmente, Sélestat ainda é uma pequena cidade no centro da Alsácia, com uma população de apenas dezenove mil pessoas, localizada a meio caminho entre Colmar e Estrasburgo, França. O nome da cidade tem raízes no mundo antigo, e significa “cidade pântano”, pois ela situa-se ao longo do Rio Ill (escreve-se com um i e dois l), afluente do Reno, que muitas vezes inundou a cidade, transformando partes da Sélestat medieval em um pântano. Ao longo desta via navegável, os comerciantes de vinho transportavam os barris do produto alsaciano até o Reno, a fim de ser comercializado no resto da Europa, onde era apreciado por reis e pessoas comuns. Sélestat também sediava uma das melhores escolas de gramática latina da França. Os pais de Martin Bucer acreditavam que seu filho precisava da melhor educação para ser bem sucedido na vida, e, assim, matricularam-no nesta famosa escola de Latin em Sélestat. Nesta, Bucer aprendeu Letras, e logo desenvolveu a sua fé dentro do escopo de uma perspectiva humanista cristã sobre a vida. Aos quinze anos, em 1506, Bucer tornou-se um monge dominicano, dando início à sua longa década de estudo de Teologia, inicialmente na Universidade de Heidelberg, Alemanha.

Aos vinte e sete anos, em 1518, Martin Bucer conheceu um outro teólogo homônimo, Martin Luther (“Martinho Lutero”), apenas um ano após este haver afixado as suas famosas noventa e cinco teses, episódio que marcou o início da Reforma Protestante. Bucer, oito anos mais jovem do que o reformador de Wittenberg, foi profundamente influenciado pela teologia e escritos de Lutero. Em 1521, Bucer deixou a ordem dominicana, após estudar meticulosamente os escritos de Lutero e Erasmo. Ele se casou com uma ex-freira, Elisabeth Silbereisen, e foi formalmente excomungado pela Igreja Romana em 1523, quando contava com trinta e dois anos. Nesse mesmo ano, Bucer mudou-se para Estrasburgo, uma cidade conhecida por sua tolerância a pontos de vista divergentes de teologia. Estrasburgo foi fundada no início da era cristã, e à época de Bucer era uma cidade livre e autônoma do Sacro Império Romano-Germânico, servindo de refúgio a alguns reformadores. Em Estrasburgo, Bucer começou a pregar e a ensinar a Bíblia de acordo com a teologia reformada, conforme sintetizada nos conhecidos Solas da Reforma: Sola Scriptura, Sola Gratia, Solo Christo, Sola Fide e Soli Deo Gloria. Em 1538, Bucer recebeu em Estrasburgo um outro reformador, João Calvino, que foi expulso por alguns anos de Genebra, e com quem manteve longa amizade. Durante os três anos em que viveu em Estrasburgo (1538–1541), e com a influência direta de Bucer, Calvino casou-se em 1540 com Idelette de Bure, viúva de um anabatista da cidade.

“Bucer é um homem que, por conta de sua profunda erudição, seu conhecimento abundante sobre uma ampla gama de assuntos, sua mente perspicaz, sua vastíssima leitura e muitas outras variadas virtudes, permanece hoje insuperável por qualquer pessoa, pode ser comparado a apenas alguns poucos e se destaca da grande maioria.”

(João Calvino, em 1539)

Monument funéraire, 1891, Église Saint-Thomas

Monumento erigido no interior da Igreja Luterana Saint-Thomas (Église Saint-Thomas / Thomaskirche), em Estrasburgo, em 1891, em comemoração ao “quarto século de nascimento de Martin Bucer, o reformador alsaciano”. Fotos: Gilson Santos.

Entre 1524 e 1548, Bucer procurou interagir com setores díspares da Reforma e mesmo da Cristandade, o que incluiu luteranos, anabatistas perseguidos, calvinistas e católicos romanos. Ele reuniu-se com os diversos segmentos, correspondeu-se frequentemente com Lutero e Zuínglio, entre outros líderes da Reforma Protestante, bem como com líderes dentro da Igreja Católica Romana. Bucer lidou, em um vasto leque de ações e interações, com perseguidos anabatistas que haviam fugido de outras partes da Europa e instalado-se em Estrasburgo. Em 1536, ele ajudou na elaboração da Primeira Confissão Helvética, buscando encontrar padrões confessionais comuns dentre as diversas pautas em que discordavam os segmentos da igreja cristã. Um dos maiores pontos teológicos de discórdia era a compreensão da Ceia do Senhor, que em alguns contextos tem sido geralmente denominada Eucaristia. Assim, pensando no bem da unidade da Igreja, Bucer esforçou-se diligentemente para reunir as partes em conflito em uma confissão comum. Para tanto, também trabalhou conjuntamente com Philipp Melanchthon, o conhecido líder e teólogo luterano.

Église Saint-Thomas, Strasbourg

Igreja Luterana Saint-Thomas (Église Saint-Thomas), Estrasburgo

Em 1548, apenas três anos antes de sua morte, Bucer foi forçado por Carlos V a deixar Estrasburgo. Ele encontrou asilo na Inglaterra, a convite do reformador britânico e arcebispo de Canterbury, Thomas Cranmer, a quem ajudou a escrever o Livro de Oração Comum da Igreja Anglicana, em sua segunda revisão. Bucer também lecionou como professor de teologia na Universidade de Cambridge. Ao longo de sua vida, o empenho pela unidade da igreja foi uma das marcas mais características do reformador alsaciano, embora a maioria de seus esforços neste sentido tenha falhado. Bucer legou à posteridade uma vasta coleção de tratados teológicos, materiais eclesiásticos e comentários bíblicos, incluindo um clássico livro sobre poimênica, Concerning the True Care of Soul (Sobre o Verdadeiro Cuidado das Almas). Martin Bucer morreu na Inglaterra em 28 de fevereiro de 1551, aos cinquenta e nove anos, e foi sepultado em Cambridge. Esse líder protestante do século dezesseis, grandemente ignorado nos dias de hoje, tem o seu túmulo bem distante do lugar de seu nascimento na Alsácia, na tríplice fronteira entre França, Alemanha e Suíça — e tudo isto talvez seja uma simbólica geografia para o perfil daquele notável reformador, de quem luteranos, anglicanos, reformados e igrejas livres reverenciam a memória.

O CORAÇÃO DA ALSÁCIA

Estrasburgo, o coração da Alsácia, é uma emblemática cidade europeia no leste da França. No passado já fez parte do território alemão. Neste período, a cidade beneficiou-se da intenção dos alemães de transformá-la na vitrine de sua cultura, visando a atrair as populações locais e a mostrar ao mundo e à França a superioridade da cultura germânica. A cidade situa-se a uma altitude média de cento e quarenta metros acima do nível do mar, sendo atravessada pelo rio Ill, afluente do Reno, que ali se divide para formar até cinco braços no centro da cidade. Aqui se destaca a bela Petite France (“Pequena França”), algumas quadras de construções históricas, com seus característicos telhados inclinados, situada no extremo ocidental da pequena ilha. A arquitetura vernacular desse distrito oferece à cidade um ar romântico e requintado, e a Pont du Faisan é um dos destaques ao centro do ambiente pitoresco. O nome Petite France, todavia, não tem origem muito glamurosa. O locatício originou-se com o Hospício dos Sifilíticos (Hospice des Veroles, em francês), que foi construído naquela ilha no final do século quinze, a fim de acolher pessoas acometidas pela sífilis, então chamada em alemão de Franzosenkrankheit (“doença francesa”).

“La Petite France”, Strasbourg

“La Petite France”, Estrasburgo. Fotos: Gilson Santos

No centro da cidade, ergue-se imponente um monumento gótico. A Catedral de Estrasburgo foi terminada em 1439, tornando-se o mais alto edifício do mundo entre 1625 a 1874, e permanecendo como a mais alta igreja do mundo até 1880, quando foi ultrapassada pela Catedral de Colônia, na Alemanha.

Strasbourg Cathedral

Catedral de Estrasburgo

Em Estrasburgo, as homenagens a Martin Bucer são poucas, sinalizando a regra que prevalecerá no resto do mundo. No ambiente público da cidade, pelo que temos conhecimento, a homenagem restringe-se ao nome da pequena e modesta rua em que se encontra a Igreja Luterana Saint Aurelia (Église Sainte-Aurélie). Bucer pastoreou Saint Aurelia de 1524 até 1531, quando seguiu para Saint-Thomas; ele pregou o seu primeiro sermão em Saint Aurelia em 24 de fevereiro de 1524, tornando-se rapidamente o líder da reforma em Estrasburgo.

Église Sainte-Aurélie, Strasbourg

Igreja Luterana Saint Aurelia (Église Sainte-Aurélie), Estrasburgo 

Rue Martin Bucer, Strasbourg

Rua Martin Bucer, Estrasbrugo. Fotos: Gilson Santos

No interior da Igreja de Saint-Thomas, na região da Petite France, encontra-se um monumento a Martin Bucer, que foi erguido em 1891, no qual o perfil do reformador foi esculpido em medalhão pelo escultor Johann Riegger. Saint-Thomas (em francês Église Saint-Thomas e em alemão Thomaskirche) é a principal igreja luterana da cidade, tem celebrações em língua alemã, e foi pastoreada por Martin Bucer no período de 1531 a 1540. Construída em estilo romanesco, e considerada a catedral do protestantismo alsaciano, Saint-Thomas é internacionalmente renomada pelo histórico uso musical do órgão. Apenas como exemplos: o seu órgão de 1741 foi tocado por Mozart em 1778 e o organista francês Louis Thiry gravou a Arte da Fuga, de Johann Sebastian Bach, neste órgão. Um outro órgão, instalado em 1906, segue um projeto idealizado por Albert Schweitzer. Quando visitamos Saint-Thomas, pudemos assistir a um concerto de órgão pelo Dr. Friedhelm Flamme, que executou diversas peças de Bach e um coral de Michael Praetorius, desenvolvendo como tema a Oração do Senhor (“Oração do Pai Nosso”). O concerto contou ainda com a participação do quarteto da Ensemble ColVoc Detmold-Leipzig e da Ensemble Gregorianik-Schola Marienmünster und Corvey. O canto a cappella, desde o gregoriano até composições contemporâneas, evoluiu seguindo as diversas petições da Oração Dominical. Entre alguns poucos magníficos exemplos, o gregoriano de Lutero “Vater unser im Himmelreich”, o hino ambrosiano “Te Deum laudamus” e o coral sacro “Pax Vobiscum I”, composto em 1885 por Franz Liszt um pouco antes de sua morte.

“A Oração do Senhor”, Órgão e Ensemble, Église Saint-Thomas (Thomaskirche), Estrasburgo. Fotos: Gilson Santos.

“A Oração do Senhor”, Órgão e Ensemble, Église Saint-Thomas (Thomaskirche), Estrasburgo. Fotos: Gilson Santos.  

Praticamente ao lado da Igreja de Saint-Thomas encontra-se a Igreja Reformada de Estrasburgo (L’église réformée du Bouclier). As origens desta igreja remontam à terceira década do século dezesseis, época em que tornou-se uma comunidade bastante heterogênea, porém de idioma francês, em meio a um contexto de fiéis luteranos de idioma alemão. Recebia de tempos em tempos algum pregador francês, como William Farel, porém sem um ministro permanente. Por influência direta de Bucer, Calvino entrou em contato com esta comunidade, e veio a pastoreá-la entre 1538 e 1541, sendo sucedido por Pierre Brully de 1541 a 1544. Em Estrasburgo, Calvino passou os anos mais felizes de sua vida, e muito do que ali desenvolveu veio a integrar a plataforma da reforma genebrina.

Igreja Reformada de Estrasburgo (L'église réformée du Bouclier)

Igreja Reformada de Estrasburgo (L’église réformée du Bouclier). Inscrição da placa comemorativa: “Aos  primeiros pastores da igreja de refugiados franceses, Jean Calvin, 1538-1541, Pierry Brully, 1541-1544. Suas obras os acompanham. Estrasburgo, 9 de outubro de 1938.”

Estrasburgo é atualmente uma das capitais da Europa, abrigando importantes instituições europeias, tais como o Conselho da Europa, o Parlamento europeu (dividido com Bruxelas) e a Corte Europeia dos Direitos Humanos, sediando ainda uma cadeia de televisão binacional franco-germânica. No século dezesseis, era em Estrasburgo que o reformador francês João Calvino pretendia morar. E ainda hoje, se comparada a Genebra sob alguns parâmetros, não seria muito difícil encontrar razões para preferi-la à exuberante cidade suíça à margem do Lago Léman. Claro que com não pouca controvérsia.

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