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Causas da Melancolia – C. H. Spurgeon

Na verdade, existem muitas causas para a melancolia. Alguns têm o seu espírito constitucionalmente armado em uma clave menor — sua música nunca pode alcançar as notas mais altas até que eles sejam ensinados a cantar a nova canção em outro mundo. As janelas de sua casa são muito estreitas e não se abrem para Jerusalém, mas em direção ao deserto. Algo está errado com a sua estrutura corpórea — as cordas se afrouxaram e não podem sustentar o mastro, e assim o navio navega terrivelmente. Quando há um vazamento no navio, não é de se admirar que as águas venham até a alma.

Charles Haddon Spurgeon (1834-1892)Com outros entristecidos a depressão começou através de uma grande prova. Como já temos ouvido falar de alguns cujo cabelo tornou-se cinza em uma única noite através do sofrimento! Assim, indubitavelmente, muitas almas adentram em tristeza numa única hora de tribulação. Um vendaval feriu o talo do lírio e o fez murchar. O toque de uma mão rude quebrou o vaso de cristal. Dias de sol ficaram nublados em meio ao mais brilhante período de verão e a uma manhã de alegria seguiu-se uma noite de lamento. Em alguns casos, sabe Deus quantos pecados secretos, não confessados ao Pai, têm inflamado a miséria. Pode ter havido deliberada presunção, ou orgulho de coração, ou descontentamento, ou rebelião interior contra a vontade de Deus. Pode ter havido negligência voluntária dos meios da graça, ou desprezo do valor da comunhão e alegria do Espírito Santo, e, portanto, o Senhor pode ter se escondido para um tempo de correção.

Ou pode ser que tenha havido uma gradual inquietação do espírito com vexações menores, demoradas e cansativas, que têm abatido o coração, como o gotejamento constante que desgasta as pedras. A oposição incessante ou a negligência daqueles que amamos podem, por fim, fazer com que o nosso espírito se renda. E quando isso acontece a vida se torna uma escravidão. “O espírito firme sustém o homem na sua doença, mas o espírito abatido quem o pode suportar?” Eu também tenho conhecido um ministério imprudente que adiciona aflições ao entristecido. Um ministério legalista fará com que isto aconteça, e também aqueles que ensinam que os homens devem olhar para o interior de si mesmos a fim de acharem conforto — e estabelecem uma experiência uniforme como o padrão para todo o povo de Deus.

As causas são diversas, mas o caso é sempre doloroso. Ó, vocês que estão andando na luz, lidem cuidadosamente com seus irmãos e irmãs cujos ossos estão quebrados, porque vocês também podem sofrer o mesmo! Disponham-se a consolar os enlutados do Senhor. Eles geralmente não são uma boa companhia e são muito aptos a torná-los infelizes, bem como a si mesmos. Mas por tudo isso, sejam muito sensíveis em relação a eles, pois o Senhor Jesus tem agido assim com vocês. Lembrem-se que Ezequiel pronuncia ais sobre o forte que rudemente empurra o mais fraco. Deus é muito zeloso de seus filhos pequenos, e se os membros mais vigorosos da família não são gentis com eles, Ele pode tirar-lhes a força e fazê-los até mesmo invejar os pequeninos que uma vez desprezaram.

Vocês nunca errarão por serem sensíveis ao abatido. Disponham-se tanto quanto estiver em vocês a curar os quebrantados de coração e alegrar os fracos — e vocês serão abençoados em seus feitos. Quando os espíritos naturais afundam naqueles homens que não têm um Deus a quem recorrer, a depressão toma uma forma particular toda própria. Qualquer médico pode dizer dos casos de sofrimento mental em que as pessoas se cercaram com males imaginários e se fizeram mártires de distúrbios fantasiosos. Vimos casos que quase poderiam compelir um observador ao riso, se não tivessem sido tão terrivelmente graves aos próprios pacientes.


(SPURGEON, Charles Haddon [1834-1892]. “Consolo aos Desesperados” [Consolation For The Despairing]. Tradução da citação: Gilson Santos. Seleção do Sermão 1146, pregado em 7 de dezembro de 1873, no The Metropolitan Tabernacle, Londres, UK. Porção da escritura lida: Salmo 31.22. Cf. todo sermão em inglês aqui. Leia também: Hemã nas “Profundezas Abissais” – C. H. Spurgeon)