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“Preferimos a caçada ao momento da morte da presa” – Blaise Pascal

Blaise Pascal, 1623-1662Algumas vezes, quando começo a refletir sobre as várias atividades dos homens, os perigos e dificuldades que enfrentam na corte ou em tempos de guerra – que são a causa de tanta discussão e violência, assim como aventuras selvagens e malignas – sinto que a única causa da infelicidade humana é que o homem não consegue permanecer quieto em seu próprio quarto. Pois um homem que é rico o suficiente para suprir todas as suas necessidades até o fim de seus dias jamais deveria se esforçar para deixar sua casa e se lançar ao mar ou tentar sitiar uma fortaleza, se pudesse escolher ficar em sua casa e desfrutar de seu lazer doméstico. Os homens jamais investiriam tanto em um exército se fossem capazes de viver na cidade por toda a vida. Eles só procuram pessoas para conversar ou para mútua competição porque não sentem nenhum prazer em suas casas.

Porém, quando refleti sobre esta questão mais profundamente e cheguei a uma explicação para todos os nossos infortúnios, tendo procurado descobrir o porquê, eu me deparei com uma razão deveras convincente. É que a condição natural, seja de nossa mortalidade, seja da nossa fraqueza, é tão miserável que nada é capaz de nos consolar quando realmente pensamos nisso. […]

O que as pessoas desejam não é uma vida mansa e fácil, que nos permita ter tempo para refletir sobre nossa triste sina, ou nos preocuparmos com os perigos da guerra, ou nas provações impostas pelos altos cargos. No trabalho temos um narcótico para manter nossas mentes afastadas da reflexão sobre tais coisas. Eis porque preferimos a caçada ao momento da morte da presa.

Eis a razão pela qual os homens apreciam tanto o barulho e o alvoroço. Eis porque a prisão pode ser uma punição tão aterradora. Eis porque os prazeres da solidão são considerados incompreensíveis. […]

Portanto, o homem é tão infeliz que, pela natureza de seu temperamento, ele se sentiria entediado mesmo se não tivesse motivos para tal. Ainda, ele é tão vazio que, apesar de ter mil e uma boas razões para sentir-se aborrecido, a mínima coisa, como um jogo de bilhar ou outro divertimento qualquer, é suficiente para manter sua mente longe delas.

(Blaise Pascal, 1623-1662, físico, matemático, filósofo e teólogo francês. Extraído de Pensamentos, 109. In: Mente em Chamas; Fé para o Cético e Indiferente. Editado por James M. Houston. Introdução de Os Guinness. Brasília: Editora Palavra, 2007, pp. 106-110. A obra Pensées reúne fragmentos publicados postumamente em 1670)

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