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O Interesse em Primeiro Plano – Fritz Perls

O homem não percebe as coisas isoladas e sem relação, mas as organiza no processo perceptivo como um todo significativo. Um homem entrando num recinto cheio de gente, por exemplo, não percebe apenas gotas de cor e movimento, rostos e corpos. Percebe o local como uma unidade, na qual um elemento, selecionado entre os muitos presentes, sobressai, enquanto os outros ficam em segundo plano. Friedrich Salomon Perls, 1893-1970A escolha de qual elemento se distinguirá é o resultado de muitos fatores, e todos eles podem, juntos, ser englobados no termo interesse. Enquanto há interesse a cena total parecerá organizada de modo significativo. Apenas quando há completa falta de interesse, a percepção é atomizada e o lugar é visto como uma confusão de objetos sem relação entre si.

Vejamos como este princípio opera numa situação simples. Suponhamos que o recinto seja uma sala de estar, por ocasião de um coquetel. A maior parte dos convidados já está presente; os retardatários estão chegando aos poucos. Entra um recém-chegado. É um alcoólatra crônico e quer desesperadamente um drinque. Para ele, os outros convidados, as cadeiras e sofás, os quadros nas paredes, tudo será de pouca importância e ficará em segundo plano. Irá direto ao bar; de todos os objetos da sala este será o primeiro plano para ele. Agora entra outro convidado. É uma pintora e a anfitriã acaba de adquirir um de seus quadros. Sua primeira preocupação é descobrir como e onde está pendurado o quadro. Ela selecionará a pintura entre todos os objetos do lugar. Como o alcoólatra, estará completamente desinteressada das pessoas e rumará para seu trabalho como um pombo correio. Ou tomemos o caso de um rapaz que veio à festa para se encontrar com a atual namorada. Ele vai esquadrinhar a multidão, procurará entre os rostos dos convidados até que a encontre. Ela será o primeiro plano, todo o resto o fundo. Para um convidado perambulador, que esvoaça de grupo em grupo, de conversa em conversa, do bar ao sofá, da anfitriã à caixa de cigarros, a sala parecerá diferente diversas vezes. Enquanto está falando com um grupo, aquele grupo e aquela conversa serão primeiro plano. Quando, no final de sua prosa ele se cansa e decide sentar-se, o lugar vago no sofá será o primeiro plano. À medida que seus interesses variam, muda sua percepção da sala, das pessoas e objetos nela, e até a percepção de si próprio. Primeiro e segundos planos são intercambiáveis e não permanecem estáticos, como, por exemplo, para o jovem enamorado, cujo interesse é fixo e invariável. Agora vem nosso último convidado. Este, como muitos de nós em coquetéis, em primeiro lugar não queria vir, e não tem interesse real em tudo aquilo. Para ele toda a cena permanecerá desorganizada e sem sentido, a menos e até que ocorra algo que o faça fixar seu interesse e atenção.

(Friedrich Salomon Perls, 1893-1970, mais conhecido como Fritz Perls, foi um psicanalista de origem judaica, criador da psicoterapia da Gestalt. In: A Abordagem Gestáltica; Testemunha Ocular da Terapia. 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Editora LTC, 1988, pp. 18-19)

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