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Amigos que vêm e que se vão

The Boyhood of Raleigh, 1869-70, Sir John Everett Millais

The Boyhood of Raleigh, 1869-70, Sir John Everett Millais (English Pre-Raphaelite Painter, 1829-1896), Oil on canvas, 120.6 x 142.2 cm (47 1/2 x 56 in), Tate Gallery, London

Ao longo dessas minhas acumuladas décadas tenho feito muitas amizades. Aquelas da infância, as da minha fase púbere, as da adolescência e juventude, e também as deste período da vida em que venho tentando ser um adulto… Incluindo as deste momento em que, como dizia o rei Salomão, “a amendoeira vai florescendo” e todas as manhãs você se olha no espelho e descobre mais um cabelo branco.

Um fato melancólico da vida, porém, é que as amizades se vão. Melhor dizendo: os amigos se vão. As circunstâncias da vida vão impondo aquele distanciamento, e em alguns casos, inteira separação. Castro Alves expressou isto em seu poema: “Eu vou partir… Em breve o oceano / Vai lançar entre nós milhões de vagas…” Ficam as lembranças. Em alguns casos, mais do que simplesmente “lembranças”. O poeta Mário Quintana escreve que “as coisas que não conseguem ser olvidadas continuam acontecendo… Sentimo-las fora do tempo, nesse mundo do sempre onde as datas não datam.” E ele acrescenta: “Há bens inalienáveis, há certos momentos que, ao contrário do que pensas, fazem parte da tua vida presente e não do teu passado.”

Eu sou um tipo de pessoa que tem mais amigos do que a capacidade de mantê-los. Isto é: tenho mais amigos do que minha capacidade de alimentar e incrementar a amizade que temos. Pois um fato bem óbvio é que as amizades exigem investimento, atenção, reciprocidade, trocas, etc. Os meus amigos têm razão para reclamar de mim. Muitas razões, aliás.

Muitos amigos eu fiz em sala de aula. Entre a quarta e a sexta série fiz um amigo, pois a escola em que estudávamos possuía aquelas carteiras duplas, em que os alunos assentavam-se em par. Espero sinceramente que você não tenha passado por uma delas… A técnica pedagógica da minha escola (imagine!) era desenhar o mapa de sala localizando os alunos em ordem alfabética. O meu amigo de carteira, uma pessoa completamente diferente de mim, foi imposto à minha sensibilidade (e vice-versa) simplesmente porque os nossos pais resolveram que os nossos nomes teriam aquela primeira letra. Dividíamos ali os espaços comuns, ora com alguns incômodos inevitáveis. E assim aquela “figura” tornou-se, por força daquela técnica pedagógica “avançadíssima” para a época, o meu melhor amigo. Até fugimos juntos na hora do recreio… E também recebemos a punição juntos! Porém, na sétima série nos separamos, e isto se deu de uma forma definitiva. Estará ele vivo? Como será hoje? Onde morará? Qual será a sua ocupação? Terá família? Esposa? Filhos? Será o executivo de uma empresa? Terá algum ofício pouco valorizado? Terá deixado o país, como tantos de minha geração fizeram? E assim como se deu com ele, a vida se incumbiu de fazer com muitos outros que marcaram indelevelmente a minha história pessoal.

O substantivo colega relaciona-se com colégio. O latim collegium descreve uma associação, uma corporação. Colegas são aqueles que fazem parte de uma mesma associação, classe, comunidade ou corporação. Penso que todos sabemos que há diferença entre amigos e colegas, entretanto. A expressão protocolar “nobre colega”, inclusive utilizada amplamente nos meios políticos, assume, por vezes, uma sonoridade incômoda e desconfortável. Em alguns momentos, e em algumas bocas, soa bastante artificial, como um escolhido mecanismo de defesa e de distanciamento.

O escritor português Alves Redol, em seu segundo livro, Marés, descreve o retrato social dos comerciantes no período que vai desde antes da queda da Monarquia portuguesa até ao fim da I Grande Guerra. Particularmente, Redol descreve o caminho de um deles, Francisco Diogo, que, ainda muito jovem, começa a trabalhar na loja do Senhor Antunes. O trabalho é árduo demais para uma criança do seu porte. Porém o lema, “quem quer colher, tem de semear”, máxima do dono da loja, ajuda-o a não esmorecer. E assim, durante anos, Francisco Diogo tolera o feitio peculiar do patrão e as contrariedades de ser colega de homens mais velhos, tomando o sonho de vir um dia a ser caixeiro, lugar que lhe daria mais garantias, para poder aprender o ofício.

O microcosmo de Francisco Diogo é uma experiência bastante comum a todos nós. Podemos ter uma relação de coleguismo por mera necessidade, circunstância ou conveniência. Não é incomum assistir a uma ruidosa competição e concorrência entre os colegas, e até códigos de ética têm sido meticulosamente redigidos para colocar alguma ordem no caos que se estabelece em alguns “colégios”. Mas também é possível que entre os colegas se desenvolvam laços afetivos muito fortes e duradouros.

Em minha recente história acadêmica, alguns colegas com os quais eu tinha maior afinidade “trancaram a matrícula”. E assim eu passei a não contar mais em sala com a companhia de algumas figuras simpáticas, risonhas e cúmplices, que, assentadas ali ao lado, sussurravam na surdina comentários bem humorados sobre estereótipos de demais colegas e professores, e que nos auxiliávamos mutuamente em disciplinas específicas, em trabalhos e estudos. Em que pesem as nossas mútuas disposições e reiterações de amizade, todos sabemos que a distância e o tempo têm o seu peso dilapidador. E assim, seguindo o curso da vida, eu voltei à sala de aula, sem esses colegas, e segui redesenhando os meus relacionamentos. Para usar um verbo mais comum ao contexto da informática, segui reformatando a minha vida, em função dessas ausências. E o mesmo acontece com aqueles amigos que se afastam de nós.

Parece que essa é uma lógica da vida. Fazemos amizades, adquirimos colegas, e, em todo tempo a nossa vida vai assumindo novos desenhos em função da sua presença ou ausência. Este caráter transitório e desarraigado, por conta dos que se vão, não é totalmente positivo, obviamente. Todos nós precisamos de relacionamentos profundos, mas também autenticamente duradouros com sua presença… Se você os tem, valorize-os; se não tem, trate logo de construí-los. Talvez lhe façam falta; se não hoje, no futuro.

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