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Três Pilares no Conceito Secular de Cultura

Penn's Treaty [with the Indians], 1830-35, Edward Hicks

Penn’s Treaty [with the Indians], 1830-35, Edward Hicks (American Folk Artist, 1780-1849), oil on canvas,  Philadelphia Museum of Art, USA

A origem da nossa palavra “cultura” encontra-se na língua latina. O radical da palavra é o riquíssimo verbo latino colo, que tem o sentido original de “cultivar”. O vocábulo latino cultus (particípio de colo) tem, portanto, inicialmente o sentido de cultura da terra. O verbo assumiu o sentido de “cuidar de”, “tratar de”, “querer bem”, “ocupar-se de”, “adornar”, “enfeitar”. Depois o sentido de “civilização”, “educação”; e também o sentido de “adorno”, “moda”, “decoração”. Mais recentemente, os alemães tomaram a palavra cultura num sentido mais amplo, para referir-se ao cultivo de hábitos, interesses, língua e vida artística de uma nação. Atualmente, na língua portuguesa talvez não exista nenhuma outra palavra com sentido mais abrangente do que esta palavra. Por cultura se entende muita coisa.

Cultura é o campo de estudo da antropologia. Diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos, nações, sociedades e grupos humanos. Não pode existir uma sociedade sem cultura. Utilizamos aqui, portanto, uma concepção ampla de cultura, que diz respeito a tudo o que caracteriza uma realidade social, a existência social de um povo ou nação, ou então de grupos no interior de uma sociedade. As conclusões do Congresso de Lausanne sugerem o seguinte conceito:

Cultura é um conjunto integrado de crenças, de valores, de costumes, e de instituições que expressam estas crenças, valores e costumes, que unem a sociedade e lhe proporcionam um sentido de identidade, de dignidade, de segurança e de continuidade.

O conceito moderno e secular de cultura sustenta-se sobre três pilares:

A IDEIA DE TOTALIDADE

No conceito de cultura, a ideia de totalidade está presente, pois cultura diz sempre respeito a processos globais dentro da sociedade. A cultura implica uma certa medida de homogeneidade. Michael Horton, em seu livro O Cristão e a Cultura, salienta esta característica globalizadora no conceito, quando escreve que “embora em cada cultura existam muitas subculturas, existem tendências que marcam um povo”.

O antropólogo brasileiro Roberto da Matta diz que não há cultura se não houver uma “tradição viva, conscientemente elaborada que passe de geração para geração”, que permita individualizar ou tornar singular e única uma dada comunidade relativamente às outras (constituídas de pessoas da mesma espécie). É a tradição que dá à coletividade “a consciência do seu estilo de vida.” A cultura une várias gerações durante uma época. O processo mediante o qual as pessoas aprendem o modo de vida da sua sociedade é denominado de enculturação. A cultura é dinâmica e sofre mudanças. A cultura nunca é estática. Quando a mudança é mais rápida do que a capacidade da comunidade adaptar-se a ela, podemos falar corretamente de um “choque cultural.

A cultura implica, assim, uma certa medida de homogeneidade. Não obstante, dentro de uma cultura também podem haver subculturas, em que a unidade maior pode ser uma comunidade, um clã, ou uma tribo pequena, etc. Se as variações ultrapassam determinado limite, surge uma contracultura, e este processo pode se tornar muito destrutivo. O termo “contracultura” foi cunhado nos anos sessenta pela imprensa norte-americana. A palavra dizia respeito ao espírito libertário e questionador da racionalidade ocidental. Uma das características básicas do conceito é o fato de se opor, de diferentes maneiras, à cultura vigente e oficializada pelas principais instituições das sociedades do Ocidente. Uma postura, ou até uma posição, de crítica radical em face da cultura convencional.

Homens e mulheres precisam de uma existência unificada. Sua participação em uma cultura é um dos fatores que lhes proporciona o sentido de pertencer a algo. A cultura dá um sentido de segurança, de identidade, de dignidade, de ser parte de um todo maior e de partilhar a vida de gerações anteriores e também das expectativas da sociedade com respeito a seu próprio futuro.

Portrait of Jane Seymour, 1537, Hans Holbein the Younger

Portrait of Jane Seymour, 1537, Hans Holbein the Younger (German Northern Renaissance Painter, 1497-1543), Oil on canvas, 65,4 x 40,7 cm, Kunsthistorisches Museum, Vienna

A IDEIA DE NATURALIDADE

A antropologia secular corretamente afirma que cultura é uma realidade humana. Cultura é algo humano em sua origem, e no sentido em que se relaciona com o homem, em sua individualidade e em seus relacionamentos sociais, e com o meio em que vive. Entretanto, a antropologia secular afirma o caráter estritamente natural da cultura. Isto é, o homem é a origem e o objeto exclusivos da cultura. O antropólogo e o sociólogo seculares abordam o estudo da cultura compreendendo o mundo como um sistema fechado, em que todos os fatores da formação cultural, inclusive o religioso, estão contidos dentro do sistema e determinados por ele, de modo que as próprias alegações do conhecimento de âmbitos sobrenaturais ou supraculturais são, elas mesmas, um produto do sistema.

Em contraponto, alguns antropólogos cristãos fazem uma consideração do âmbito “supracultural” da realidade na sua interação com os fatores culturais. Por “supracultura” eles se referem aos “fenômenos da crença e do comportamento cultural que têm sua origem fora da cultura humana”. O Pacto de Lausanne asseverou: “Uma vez que o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e bondade. Pelo fato do homem ter caído, toda a sua cultura (usos e costumes) está manchada pelo pecado e parte dela é de inspiração demoníaca”.

Conclui-se que, da perspectiva cristã, a realidade do âmbito dos reinos espirituais é algo que necessita ser considerado em seu estudo da cultura. Segundo os teólogos reunidos em Lausanne, a primeira origem supracultural dos fenômenos na cultura é a divina, e a segunda origem supracultural é a demoníaca. Sob tal entendimento, a Bíblia clama por arrependimento e reforma e a história registra numerosos casos de mudança cultural para melhor. Como seres humanos caídos, nenhuma das culturas é perfeita em verdade, beleza e bondade. No âmago de toda cultura (quer seja esse cerne uma visão “religiosa” ou “secular”) há um elemento de egocentrismo, de auto-adoração do homem.

Portanto, a interação entre o conteúdo supracultural e a forma cultural é reputada como importante em qualquer abordagem adequada nas relações entre a Igreja e a Cultura. A cultura nunca é neutra, sob essa ótica. Cada cultura refletiria um conflito. A religião nunca é meramente uma questão humana, mas, sim, um encontro dentro do âmbito supracultural. No centro da cultura há uma cosmovisão, ou seja, uma compreensão geral do caráter do universo e do lugar que se ocupa neste universo. Esta compreensão pode ser “religiosa”, ou pode expressar um conceito “secular” da realidade, como a proposta de sociedade do marxismo materialista.

Figuras na Paisagem, 1940, Cândido Portinari

Figuras na Paisagem, 1940, Cândido Portinari (Pintor Brasileiro, 1903-1962), óleo sobre tela, Coleção Particular, RJ

A IDEIA DE NEUTRALIDADE

A antropologia secular resiste ao conceito de que os valores culturais possuem mérito e qualidade. Aqui está outro desafio para o cristão diante da antropologia contemporânea. A visão da sociedade secular tende a considerar a cultura, em suas variadas formas de expressão, como moralmente neutra. Grosso modo, não existe o “certo” ou o “errado” quando se trata de cultura. Seria tudo, em rigor, uma questão de usos, costumes e convenções. Assim, isto se conecta com a idéia de relatividade. Logo, tentativas de correções de aspectos culturais são consideradas como um impróprio juízo de valor, e rotuladas de etnocentrismo cultural ou violência cultural. “Todas as religiões têm que abandonar a sua arrogância teológica. Nenhum grupo religioso pode jactar-se de ser superior ao outro em termos de verdade, porque a religião está associada à cultura. E não existe uma cultura superior à outra. Todas são igualmente boas. Todas as tradições religiosas culturais têm os seus valores salvíficos”. Um jornalista escreveu recentemente que alunos brasileiros têm sido ensinados nas escolas a considerarem que “o canibalismo, os sacrifícios humanos ou rituais para tornar os inimigos sexualmente impotentes são expressões religiosas tão respeitáveis quanto a fidelidade judaica e a piedade cristã”. O corolário lógico disto é que, portanto, não há mais necessidade de “conversões”. Essa pressuposição também esvazia o conceito de missões religiosas em terras estrangeiras ou transculturais.

Há, portanto, uma tendência de conceituar cultura de maneira que todas as formas comportamentais são aceitas como válidas e até mesmo valiosas. Essa mesma tendência se estende a outras áreas de realizações humanas, como por exemplo, às artes plásticas e à música.  Tende-se a acolher tudo o que provêm espontaneamente de um povo, e o fato cultural é reduzido a uma questão de estilo. Daí colocar-se um desafio para os cristãos, visto que estes assumem que existe um padrão aferidor da cultura.

Alguém que leu este texto comentou que ele também “levanta a questão da contextualização, que não pode ser evitada pela igreja evangélica à cada geração”. E acrescentou: “Pessoalmente, acho que cada cultura mantém traços da Queda, que se revelam em práticas e costumes e ritos e jeitos de ser. O Evangelho pode se aproveitar da cultura desde que a expurgue destes traços remanescentes da vida de Adão. Esse é o desafio”. Um comentário muito pertinente, segundo me parece.

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