Pular para o conteúdo
Anúncios

“Filosofia não enche a barriga de ninguém!"

Christ in the House of Mary and Martha, Vincenzo Campi

Christ in the House of Mary and Martha, Vincenzo Campi (Italian Mannerist Painter, 1536-1591), Oil on canvas, Galleria Estense, Modena

Meu filho! Filosofia não enche a barriga de ninguém!” Isso mesmo! O negócio é encher o bucho. Afinal, saco vazio não para em pé. Os cachorros comem, os macacos comem, os cavalos comem… E os jumentos comem pra sobreviver. O importante é encher o ventre. “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. Lema de antigos filósofos epicureus. Dualismo entre corpo e espírito. Gnóstico. Por falar em dualismo, coisa de Platão… Voltando à vaca fria (ruminante): O mais importante, então, seria o ventre. Cheio.

O que enche a barriga? Feijão, arroz, carne… Carne? Desde que você não seja vegetariano. Vegetal. Diferente de animal. Lembro agora de Aristóteles, que disse: “O homem é um animal político”. Por falar em Aristóteles, este talvez não precisasse de dieta, pois era peripatético… Voltemos aos vegetais. Entre os tais, leguminosas verdes, cor que percebo empiricamente. Conhecimento a posteriori. Mera impressão do sujeito? A cor realmente existe? Ontologicamente? Ou será tudo uma construção do sentido? O que você me diz, Berkeley? Por falar em verde, lembrei-me da Amazônia brasileira. Coisa estupenda! Impressionante e sobrenatural! Sobrenatural? É ideia tomista. Argumento teleológico. O design inteligente. Invenção escolástica, pois a causalidade não seria uma quimera? Puro hábito? Pulei de Tomás a Hume. Eis-me aqui, agnóstico. Onde estava mesmo? Ah, sim. Amazônia brasileira. Do Brasil verde e amarelo. “Ordem e Progresso” na flâmula. Lema positivista. De Augusto Comte.

Pare! Hora de ser pragmático, como James, ou utilitário, como Mill. Amanhã é sábado, dia de feira. Dia de comprar legumes… e carnes! Saco vazio não para em pé. Compro peixe ou porco? Peixe. Símbolo cristão. Cristianismo, agostiniano, medieval, como Anselmo. Este, do argumento ontológico. Deus, o Infinito, a maior ideia, perfeita… Volto ao peixe. Qual peixe? De água doce ou salgada? Água, um dos quatro elementos… Pré-socráticos: Tales, Zenão, Pitágoras, Parmênides, Heráclito… Eureca! Achado arquimediano: peixe de água doce. Afinal, Heráclito lembrou-me o rio: “Uma pessoa não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”. Peixe! Legumes e peixes. Comida bem cristã… Lembra a Quaresma. E Quaresma, por antítese (não a de Hegel), lembra glutonaria. Um dos sete pecados capitais. Essa não! Tomás de Aquino novamente? Confissões, roteiro agostiniano… do racionalismo teológico. Confesso hoje, pois amanhã compro o peixe. Amanhã? “O passado não é mais, o futuro ainda não é, se o presente fosse sempre presente, seria eternidade”. Agostinho de novo! Para quem não há três tempos, somente o presente.

Quanto dinheiro levo pra comprar os legumes e o peixe? Dinheiro! Vil metal. Para que dinheiro? Sem dinheiro, vou morar num barril. Como Diógenes, o cínico! Prefiro a cicuta, tal qual Sócrates, o parteiro. Sócrates ou Diógenes? Dúvida cruel. Nada metódica. Nada cartesiana. Ok. Chega! Vinte Reais devem ser suficientes. Afinal, peixe de água doce, e leguminosas verdes. Prato simples, básico, quase estóico. Suficiência. Ética do justo meio. Equilíbrio, aristotélico.

Dia de feira! Vinte Reais no bolso! Reais do Fernando Henrique. Presidente-filósofo! Antes do Lula. Ex-operário. Sindicalista, de classe. Classe operária. Karl Marx. Gramsci e os intelectuais orgânicos. Comprometidos com a classe. Qual? Alienação? Teologia da Libertação? Volto aos Reais. Coisa de burguês. Liberalismo, de John Locke… Feira barulhenta. Popular. Fervilhando. Cidade dos Homens por oposição à Cidade de Deus. Uns compram, outros vendem… e os atravessadores. E os camponeses, produtores. Olho as verduras. Verdura vem de verde. A cor. Aquela! Tudo isto me confunde os sentidos. Sentidos do Francis Bacon… Ah, um x-bacon! Idéia empírica. Deixo o bacon e penso no peixe. Pare de pensar. Tabula rasa? Reflito novamente.

Diante do feirante. Operário ou burguês? Explorado ou explorador? Explorador! Sete reais o quilo da tilápia (peixe de água doce). Compro umas postas de salmão. Importado. Comércio internacional. Mercantilismo. Iluminismo. Kant. Agnóstico. Imperativo categórico: Comprar o peixe… e a verdura. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Salmão, salsinha, coentro, tomate (vermelho, fora da estação)… Tudo caro. Exploração novamente. Feirante? Povo alienado! Inconsciente coletivo, de Carl Jung. “Operários do mundo inteiro, uni-vos!” Rosa Luxemburgo. Daí para a Escola de Frankfurt. Voltemos ao comércio. Livre. Dos iluministas. De Adam Smith. Feirante boa gente. Figura simpática. O meio que o corrompe. Rousseau. Feirante bom selvagem? Nada a ver! Nem na feira a vida parece fazer sentido. Ah, a existência! Sartre e o existencialismo… E o niilismo? De Nietzsche… Que deve ter tido razões pra acabar no sanatório. Freud explica!

Volto para casa. Ah, a Liberdade! O tempo passa. Tempo agostiniano. Sem dinheiro, essa coisa imanente. Menos números. Números pitagóricos. De volta ao monismo… Asso o peixe? Idéia (não inata): Moqueca! Água fervendo, para a moqueca. Causalidade? Todo cozido requer água e fogo. A moqueca de peixe é um cozido. Logo, sem água e fogo eu não terei a minha moqueca. Lógica formal. Termo maior: água e fogo; termo menor: moqueca de peixe; termo médio: cozido. Silogismo, categórico! A água ferve… Lá “atrás” a causa eficiente, o primeiro motor, movente e não movido. Atualidade pura. Realismo dogmático. Certezas: (a) o fogo queima; (b) a água ferve; (c) a moqueca. Pirro e Hume, seus céticos!

Peixe bonito. Evoluído. Seleção natural. Darwin. Dialética hegeliana… Stop! “Filosofia não enche a barriga de ninguém”! Vamos comer. Antes, porém, dar graças, seu ingrato. Gratidão, virtude cristã. Então oro. Deus… Existe? Claro. Qual? Sou agostiniano. Paulo de Tarso. Jesus Cristo. Kant sai da área… E o ateísmo de Feuerbach e Marx – que disse “religião é ópio do povo”. Volto para Agostinho… Paulo de Tarso… Transcendência. Lembro: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. Jesus Cristo, o Logos! Vida, Caminho e Verdade. “Que é a verdade?” – perguntou Pilatos? Conhece? Epistemologia. Que é conhecimento? Bíblia, Palavra de Deus, palavra belíssima! Ah, a Beleza! Do Banquete, platônico? Beleza da Estética, filosófica. O que é o belo? No sujeito ou no objeto? “Nem só de pão viverá o homem”, resposta do Mestre ao tentador. Maligno. Mal. O que é o Mal? Agostinho de novo… Inclusive Einstein. Maligno no Inferno. E aparece Dante (e Beatriz). Muito bem: o homem viverá da Palavra. Quem? O homem. Que é o Homem? De onde vim? Por que estou aqui? Para onde vou? Eternidade? Imortalidade? Conceito útil? Imperativo hipotético? De Kant? Stuart Mill? Pare! Jesus Cristo: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a Palavra…”. Ah, a Palavra! Nominalismo? De Guilherme de Ockham? O pensamento voa. Wittgenstein. Habermas. Virada linguística! Século XX. Meu passado. Tempo agostiniano: Século XXI.

Tempo de comer. O salmão com molho. Molho verde (de verdura). Depois da oração, o salmão. Este, chileno, alaranjado, quase vermelho… Chileno como Neruda e Allende… Socialistas. (Pinochet) entre parênteses… Vermelho da esquerda (não o verde, dos ecologistas)… Esquerda (do parlamento, na Revolução Francesa, Iluminismo)… Guevara, PT… Este não mais! Mundo confuso. Meio surreal. Existencial. Kierkegaard.

“Morrendo de fome”, concluo, como Voltaire, que “existe uma grande diferença entre o pensamento e o alimento sem o qual não conseguiria pensar“. “Jamais consegui entender como e por que as idéias desvanecem-se quando a fome faz languidescer meu corpo e como elas reaparecem quando estou alimentado“. Um aforismo de Descartes é: “Se não se come, não se pensa”. Pronto! Síntese dialética: comamos! “Filosofia não enche a barriga de ninguém”. Racionalismo digestivo. Não cogito de não comer. Então como, logo, existo! Não posso existir e não existir ao mesmo tempo e no mesmo sentido ou relação. Lei da não-contradição. Insisto: existo? Ou não seria tudo uma ilusão, aparência, sofística? Como como, com uma dúvida dessas?

(Texto utilizado para introduzir debate em classe de adolescentes e jovens, alunos de Filosofia. Ao final, foi introduzida a discussão sobre os conceitos de Revelação, Fé e Razão)

Anúncios