Quando Ajudar não é Agradar; O Caso de Severino e o Cuidado Pastoral

Quando Ajudar não é Agradar; O Caso de Severino e o Cuidado Pastoral

O caso de Severino: Ajuda pastoral entre dependência e maturidade

Ajudar nem sempre é dar respostas imediatas; muitas vezes é formar responsabilidade. O caso de Severino ilustra, de modo concreto, como o cuidado pastoral pode deslocar-se da solução pronta para a formação espiritual, sem perder presença nem compaixão.

> O ponto de partida: ajuda como resposta pronta

Severino, oriundo do nordeste brasileiro, tornou-se membro de uma igreja baptista no Estado de São Paulo. Trazia consigo uma estrutura afectiva insegura e dependente. A ansiedade que o acompanhava manifestava-se, por vezes, em tentativas subtis de controlo: necessidade de validação constante, dramatização de cenários adversos e insinuações de abandono quando não obtinha resposta imediata.

O pastor Paulo Rodrigues, homem de sabedoria cristã e sensibilidade pastoral, foi inicialmente solicitado a oferecer soluções directas. Exemplos eram frequentes:

– “Pastor, devo aceitar esta proposta de trabalho ou não?”
– “Respondo ou ignoro a mensagem que recebi?”
– “Digo isto à minha esposa ou é melhor calar?”

Nas primeiras abordagens, o pastor Paulo respondeu objectivamente, procurando aliviar a ansiedade de Severino. O efeito era imediato, mas provisório: a dependência não diminuía; antes se reforçava.

> A transição: da resposta ao princípio

A certa altura, o pastor compreendeu que oferecer apenas soluções não era ajudar plenamente. Passou, então, a apresentar princípios bíblicos de conduta: prudência (Provérbios 14.15), responsabilidade pessoal (Gálatas 6.5), confiança em Deus (Provérbios 3.5–6). O processo tornou-se mais demorado e menos confortável para Severino, que preferia decisões já formuladas.

Contudo, a mudança era necessária. O objectivo deixou de ser resolver cada situação e passou a ser a formação de critérios internos. O pastor começou também a orientar Severino na oração. Em vez das costumeiras petições genéricas e jargões religiosos, incentivou-o a verbalizar diante do Senhor desafios concretos, medos específicos, decisões delimitadas. A oração de Severino tornou-se mais lúcida, menos automática. A ansiedade não desapareceu de imediato, mas começou a ser interpretada à luz da fé.

> A estratégia da “ponte”: presença sem substituição

Num terceiro momento, o pastor Paulo adoptou um procedimento pedagógico. Já não oferecia a resposta final. Compartilhava apenas os princípios e dizia a Severino que se encontrariam “do outro lado da ponte”. Orava por ele antes da decisão e combinava que, após agir, voltariam a conversar e agradecer a Deus.

Esta abordagem tinha duplo efeito. Por um lado, mantinha a presença pastoral — Severino não era abandonado. Por outro, deslocava a responsabilidade para o próprio Severino diante de Deus. A “presença simbólica” do pastor durante a travessia diminuía a ansiedade, mas já não substituía a decisão.

Como era previsível, surgiram reacções. Quando algo não corria bem, Severino culpava o pastor. A lógica, nessa situação, era bastante simples: quem transfere responsabilidade tende também a transferir culpa. Houve ausências nos cultos, insinuações de desamparo, intencional negligência em ofertas, desleixo em trabalhos nos ministérios da igreja e tentativas de chantagem emocional. Paulo, porém, perseverou com firmeza e serenidade, sem retaliar nem ceder.

> Os frutos: maturidade relacional e espiritual

Com o tempo, a dependência diminuiu. Severino passou a decidir com maior ponderação, a orar com mais clareza e a assumir consequências sem dramatização excessiva. A relação pastoral tornou-se menos centrada na urgência e intencionalmente mais orientada para o crescimento.

Outros ganhos tornaram-se visíveis:

    • maior estabilidade emocional;
    • menor necessidade de validação constante;
    • integração mais saudável na comunhão da igreja;
    • crescimento na responsabilidade familiar e profissional;
    • menor expectativa do suporte de figura simbólicas;
    • maior confiança directa em Deus, não mediada exclusivamente pela figura pastoral.

O pastor, por sua vez, pôde exercer um cuidado menos reactivo e mais formativo. Já não precisava estar sempre “do outro lado da ponte”. A ovelha aprendera a caminhar, sabendo que não estava só, mas também que não seria carregada a todo o tempo.

O caso de Severino evidencia que o cuidado pastoral é ministério de ajuda verdadeira quando forma autonomia espiritual e responsabilidade diante de Deus. A presença pastoral não se mede, em rigor, pela quantidade de respostas dadas, mas pela capacidade de conduzir a pessoa à maturidade em Cristo.

Ajudar, neste sentido, é permanecer disponível sem substituir; é acompanhar sem controlar; é sustentar sem infantilizar. Quando tal acontece, a relação poiménica amadurece — porque a dependência desloca-se do pastor para Deus, e a responsabilidade passa a ser assumida com fé e discernimento.

Quando ajudar não é agradar

Uma lição crucial que derivamos desse caso é que ajudar não é, necessariamente, agradar. Esta afirmação, que à primeira vista pode soar dura ou contraintuitiva, revela-se decisiva quando se pretende pensar com seriedade o cuidado pastoral. Se toda ajuda fosse definida pela intenção de quem ajuda ou pela satisfação imediata de quem é ajudado, o verbo ajudar perderia densidade ética e tornar-se-ia apenas um gesto de acomodação relacional. No âmbito cristão, porém, ajudar implica responsabilidade diante de um bem que transcende a relação imediata — um bem que julga tanto o ajudador como o ajudado.

O que significa, afinal, ajudar? O verbo ajudar é relacional por natureza. Pressupõe um outro concreto, uma limitação real e uma intervenção orientada para um fim. Não se trata de substituir o outro, nem de anular a sua agência, mas de contribuir para que ele avance, sustente-se ou seja restaurado onde, sozinho, não o consegue fazer nas condições presentes. A ajuda autêntica preserva a dignidade e a responsabilidade do ajudado.

Por isso, ajudar distingue-se de agradar, de tutelar ou de simplesmente aliviar. Agradar visa a satisfação; ajudar visa o bem. Aliviar pode ser necessário; ajudar é sempre orientado por uma finalidade. Esta distinção é crucial, sobretudo em contextos de sofrimento, onde o apelo emocional tende a confundir conforto com cuidado.

> Ética e normatividade

Quem define o que é ajuda? Nem a intenção do ajudador, por mais sincera que seja, nem a experiência subjectiva do ajudado, por mais intensa que se apresente, são critérios suficientes para definir se houve ajuda em sentido próprio. A intenção é moralmente relevante, mas semanticamente insuficiente; a experiência do ajudado é referência factual indispensável, mas não árbitro último.

A ajuda exige um terceiro termo: um critério objectivo que transcende ambos os sujeitos e julga a relação. Sem esse critério, “ajudar” transforma-se em rótulo autojustificativo ou em validação emocional. Com ele, a ajuda torna-se avaliável, responsável e, em certos casos, contrariadora.

Logo, toda ajuda pressupõe normatividade. Isto não significa autoritarismo moral nem imposição arbitrária, mas o reconhecimento simples de que há bens que devem ser preservados, promovidos ou restaurados. Ajudar é sempre ajudar para algo e segundo algo. Onde não há esse “para” e esse “segundo”, há gesto, há empatia, há intenção — mas não há ajuda em sentido pleno.

Mesmo quando não explicitada, a normatividade está sempre presente. Falar de ajuda sem qualquer referência normativa é dissolver o conceito. Por isso, não é necessário pressupor uma ética específica para usar o termo, mas é impossível não pressupor alguma ética ao afirmar que algo ajudou ou não ajudou.

No escopo cristão, a normatividade da ajuda é iluminada por referências objectivas que não se esgotam na relação. O bem é definido pela vontade revelada de Deus, pela dignidade da criação — o ser humano como imagem de Deus (צֶלֶם אֱלֹהִים, tselem ʾElohim) —, pela finalidade redentiva da vida e pela formação da imagem de Cristo.

O amor bíblico (ἀγάπη, agápē) não se confunde com benevolência afectiva. Ele está inseparavelmente ligado à verdade: “o amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade” (1 Coríntios 13.6, ARA). Assim, nem todo alívio é ajuda, nem toda confrontação é falta de amor. Há recusas que protegem, limites que cuidam e silêncios que respeitam o tempo do outro diante de Deus.

O cuidado pastoral como ministério de ajuda

É neste horizonte que se compreende o cuidado pastoral como ministério intencional de ajuda. Não se trata de um serviço orientado pela demanda, nem de uma escuta neutra, mas de um cuidado vocacionalmente exercido coram Deo. O pastor ajuda em nome de um bem que o transcende e ao qual também ele está submetido.

Como ilustra o caso de Severino, o cuidado pastoral é mediado pela verdade da Palavra, ordenado à maturidade espiritual e configurado pela forma de Cristo, o Bom Pastor. Ele consola, mas também confronta; acompanha, mas não substitui a consciência; orienta, mas não controla ou manipula. O seu objectivo não é a satisfação imediata, mas a formação do discípulo: “para que todo homem seja perfeito em Cristo” (Colossenses 1.28, ARA).

Por isso, não é raro que o cuidado pastoral seja percebido, em certos momentos, como não-ajuda. A fidelidade pode frustrar expectativas, e a verdade pode ferir antes de curar. Ainda assim, permanece ajuda objectiva quando serve o bem último da pessoa diante de Deus.

Do lado do pastor, este entendimento exige responsabilidade diante de Deus antes da aprovação humana, discernimento entre compaixão e conivência, reconhecimento dos próprios limites e disposição para ser mal interpretado. Ajudar pastoralmente não é agradar, mas permanecer fiel.

Do lado do aconselhado, implica abandonar a lógica de consumo espiritual, assumir responsabilidade pessoal, submeter-se a critérios que o transcendem e aceitar que ajuda não se confunde com conforto. Aproximar-se do cuidado pastoral é abrir-se a um processo, não contratar uma validação.

No vínculo entre ambos, a relação é assimétrica, mas não opressiva; relacional, mas não relativista; pessoal, mas normativamente orientada. A comunidade cristã oferece o contexto regulador que protege ambos de abusos e distorções.

Em síntese, quando ajudar não é agradar, a ajuda recupera o seu peso moral e espiritual. Sem normatividade, o cuidado pastoral dissolve-se em gestão de emoções; sem ética, torna-se técnica; sem referência transcendente, transforma-se em adaptação relacional. Com elas, porém, o cuidado pastoral permanece aquilo que é chamado a ser: um ministério de ajuda verdadeira, orientado pelo bem, exercido na verdade e ordenado à maturidade em Cristo.

Ajudar, nesse sentido, é um acto de amor responsável — e, por isso mesmo, nem sempre confortável. Ao fim, como pudemos ilustrar no caso oferecido, a presença pastoral não se medirá por variáveis simplistas, mas pela capacidade de, em graça e sabedoria, auxiliar a pessoa a caminhar rumo à maturidade em Cristo. É partilhar um pouco da experiência pastoral do apóstolo: “Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gálatas 5.19, ARC).


Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos. O “Caso de Severino”, conquanto baseado em situação rigorosamente real, teve os nomes próprios alterados, assim como alguns  poucos detalhes contextuais. Texto finalizado na variante europeia do idioma português.

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