A Força de uma Verdade Incompleta
Quando a observação do egocentrismo humano é confundida com a última palavra
Há uma intuição antiga, desconfortável e persistente acerca do ser humano: quando tudo vai bem, somos virtuosos; quando o custo aumenta, a virtude vacila. A lealdade, a gratidão, a fé, o amor — tudo parece durar enquanto é vantajoso. Quando deixa de o ser, dissolve-se. Esta percepção atravessa culturas, épocas e discursos. Não é cinismo barato; é observação reiterada.
Essa intuição foi formulada, de modo particularmente incisivo, num texto antiquíssimo da tradição bíblica: o início do livro de Job. Ali, surge uma figura que não é apresentada no contexto como força caótica do mal, mas como acusador. O seu argumento é simples e perturbador: não se ama a Deus por quem Ele é; os seres humanos declaram amar a Deus apenas pelo que dele recebem. A fé seria, no fundo, interesse bem disfarçado. Retirem-se os benefícios, e a devoção colapsa.
E disse o Senhor a Satanás: Observaste tu o meu servo Job? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem sincero e recto, temente a Deus e desviando-se do mal.
Então respondeu Satanás ao Senhor, e disse: Porventura teme Job a Deus debalde?
Porventura não o cercaste tu de bens, a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra das suas mãos abençoaste e o seu gado está aumentado na terra.
Mas estende a tua mão, e toca- lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema de ti na tua face!
Do ponto de vista empírico, o argumento parece sólido. A história humana fornece material abundante para o confirmar. Religiões utilitárias, moral condicionada, espiritualidade transaccional, fidelidade dependente de circunstâncias favoráveis — tudo isso é amplamente verificável. Se tomarmos o ser humano “em si mesmo”, fechado sobre os seus próprios recursos, o diagnóstico é difícil de refutar. O egocentrismo não é um acidente; é estrutural. O centro deslocou-se do transcendente para o eu.
Nesse sentido, o acusador não é ingénuo, nem preguiçoso, nem superficial. Ele observa com atenção, acumula evidências, reconhece padrões. Como acusador, é perspicaz e eficaz precisamente porque não inventa defeitos; trabalha com fragilidades reais. A sua força está no facto de dizer verdades — verdades duras, parciais, mas reais.
O problema do argumento não está na observação, mas na conclusão. O erro não é antropológico; é teológico. O acusador transforma um padrão recorrente numa sentença definitiva. Ele parte do que o ser humano tende a ser e conclui o que este só pode ser. O que é frequente torna-se necessário. O que é dominante torna-se absoluto.
É aqui que o texto antigo introduz um deslocamento decisivo. O debate não se resolve discutindo se a maioria é assim ou assado. Resolve-se introduzindo um elemento que o acusador deliberadamente exclui: a possibilidade de intervenção gratuita, soberana, transformadora. Em linguagem religiosa, chama-se a isso GRAÇA. Em linguagem filosófica, é a recusa de reduzir o humano ao que ele produz por si mesmo.
O livro de Job não nega o egocentrismo humano. Pelo contrário, expõe-no de forma impiedosa, inclusive nos discursos moralistas dos amigos do protagonista. O que ele afirma é outra coisa: que a realidade não se esgota no que é estatisticamente observável. Que o veredicto último não pertence à recorrência histórica, mas a uma liberdade que irrompe onde não era previsível.
Por isso, a tese do acusador pode ser confirmada mil vezes — e, ainda assim, falhar no essencial. Basta um único caso sustentado por algo que ele não controla para desmontar o absoluto que ele pretende impor. Não porque esse caso seja exemplar no sentido moral, mas porque revela que a realidade é maior do que o recorte acusatório permite.
O ponto final do texto é claro, mesmo para quem não partilha da fé que o gerou: a acusação pode ser forte, mas não governa tudo. O diagnóstico pode ser correto, mas não é soberano. A descrição do humano pode ser verdadeira, mas não é a última palavra. Em termos simples: o acusador entende bem o homem quando este é deixado a si mesmo; o que ele não admite é que o humano não está condenado a ficar aí.
Em tudo isto, Job não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.
É por isso que, no fim, a tese não prevalece. Não porque seja fraca, mas porque é incompleta. Defendê-la como explicação total da condição humana é perder tempo a sustentar um argumento que só funciona num mundo amputado daquilo que o transcende. O veredicto, nesse texto antigo, já foi dado — e não pertence ao acusador.
Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te vêem os meus olhos.
As três referências bíblicas foram extraídas de Job 1.8-11, 1.22 e 42.5 segundo a Edição Revista e Corrigida, Sociedade Bíblica de Portugal, 1968. Texto finalizado na variante linguística do português europeu. Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir e pai de duas filhas.