A Dor Humana: Experiência, Sentido, Linguagem e Presença

A Dor Humana: Experiência, Sentido, Linguagem e Presença


Introdução

Poucas experiências humanas são tão universais quanto a dor — e, paradoxalmente, tão incompreendidas. Todos sofrem, mas ninguém sofre do mesmo modo. Ainda assim, insistimos em comparar dores, hierarquizá-las, relativizá-las ou silenciá-las com frases prontas, como se o sofrimento pudesse ser rigorosamente medido por escalas externas ou explicado por fórmulas rápidas. Esta dificuldade não é apenas emocional; ela é antropológica, clínica, ética e, para o cristão, também significativamente teológica.

Aqui nos propomos a uma rápida reflexão sobre a dor humana sob perspectivas bíblicas, existenciais e psicodinâmicas. O nosso fio condutor será simples, embora exigente: toda dor sentida é real, mesmo quando não sabemos nomeá-la, explicá-la ou justificá-la. E, diante dela, a resposta mais humana — e por vezes mais fiel — não é necessariamente a explicação pronta, mas a presença.

A dor como experiência singular

Embora universal, a dor nunca é uniforme. Pessoas não sentem a dor da mesma maneira porque não são biologicamente idênticas, não carregam a mesma história, não dispõem dos mesmos recursos psíquicos, nem habitam o mesmo mundo simbólico. A tentativa de comparar dores — “isso não é nada”, “já passei por coisa pior” — tende a ignorar essa singularidade e a produzir um efeito devastador: retira do outro o direito de sofrer, que o compassivo e sábio Criador estende aos filhos dos homens.

Do ponto de vista existencial, a dor não é vivida como abstração, mas como presença. A dor do passado pode ser narrada; a dor do futuro pode ser temida; mas a dor que se impõe inexoravelmente é sempre a dor do agora. Enquanto dura, ela ocupa o campo inteiro da consciência, estreita o horizonte do futuro e suspende comparações. Por isso, no plano subjetivo, a maior dor é quase sempre a dor presente — não porque seja objetivamente a maior, mas porque é a única plenamente vivida. Seja a dor do parto, a dor de dente, a dor do espinho na carne, a dor da traição, a dor da morte.

Dor, percepção e realidade

A medicina contemporânea reconhece a dor como uma experiência simultaneamente sensorial e emocional, que pode estar associada — mas não depende necessariamente — de uma lesão orgânica. (aqui) Isso nos obriga a abandonar uma separação rígida entre “dor real” e “dor percebida”. A dor é real porque é experimentada, não porque é verificável externamente.

Nesse sentido, a dor é um fenômeno “psicossomático” por excelência: corpo e sentido encontram-se nela de forma indissociável. A experiência dolorosa é profundamente afetada pelo significado que o sujeito lhe atribui, pelas expectativas de alívio, pelo grau de controle percebido e pelo horizonte de esperança. Uma dor sem perspectiva de término tende a ser vivida como mais insuportável; uma dor sobre a qual se recupera algum controle torna-se mais habitável. Não se trata de ilusão, mas de um realístico reconhecimento da estrutura humana.

Sofrimento psíquico e a realidade da dor

Essa compreensão torna-se ainda mais necessária quando lidamos com sofrimentos psíquicos graves. A dor pode ser absolutamente real mesmo quando o conteúdo que a acompanha é delirante ou fruto de alucinação. Aqui é essencial distinguir níveis: o sofrimento é real; a vivência subjetiva é coerente para quem sofre; o conteúdo explicativo pode ser falso. Charles Spurgeon nos lembra que, “embora muito do mal esteja na imaginação, ele não é imaginário” (aqui).

Portanto, invalidar a dor por causa da falsidade do conteúdo é um erro clínico e ético grave. Ao mesmo tempo, reconhecer a realidade do sofrimento não implica validar o delírio. O cuidado responsável sustenta a pessoa no sofrimento enquanto, com tempo e mediação adequada, trabalha-se a reorganização do sentido. A correção impaciente de narrativas não cura dores; silenciá-las, menos ainda.

A dor antes das palavras: angústias impensáveis

Há, contudo, experiências de sofrimento que vão além da linguagem disponível. Donald Winnicott (1896—1971), pedopsiquiatra britânico, chamou de angústias impensáveis (unthinkable anxieties) aquelas vivências primitivas, anteriores à simbolização, nas quais o sujeito não consegue dizer se o que sente é medo, dor, fome ou frio — apenas sente que algo ameaça a sua própria continuidade de ser.

Embora descritas originalmente no contexto do bebê, essas angústias não desaparecem por completo na vida adulta. Especialmente em situações de trauma, luto devastador, colapsos depressivos profundos, crises psicóticas ou pânico intenso, o adulto pode reencontrar esse sofrimento sem forma, sem nome e sem narrativa. Não se trata de pobreza de linguagem, mas de ausência temporária de símbolo.

Acrescente-se: Nenhum ser humano possui acervo simbólico capaz de vestir todas as vivências que tem ao longo da vida. Imagine a dor de uma mãe que, após um  grave acidente automobilístico, vira-se para trás e choca-se com o quadro terrivelmente desfigurado dos corpos de seus dois filhos… Popularmente se diz: “entrou em estado de choque”. Penso não ser difícil percebermos que, nesses casos, a resposta adequada não será interpretação, correção ou exortação, mas sustentação. Primeiro conter, depois simbolizar. O processo mais natural nesse contexto será, antes de erguer ou elaborar o pensamento, ajudar a existir.

Um erro recorrente: minimizar e comparar

É justamente diante desse pano de fundo que se revela a imprudência de trivializar a dor alheia. Frases prontas costumam funcionar mais como defesas de quem escuta do que como cuidado real. Elas encerram a conversa, protegem o ouvinte do desconforto e deixam o sofredor mais só. Apenas funcionam como atalhos convenientes.

Comparar dores é uma forma sutil de violência simbólica. Em rigor, não consola; agrava. A dor não reconhecida tende a se intensificar, a se somatizar ou a se fechar em isolamento. O sujeito passa a sofrer duas vezes: pelo que sente e por não ser levado a sério.

O silêncio sábio: Jó e seus amigos

A Escritura oferece um retrato notável dessa dinâmica no livro de Jó. Quando seus amigos chegam e veem o sofrimento devastador que o acometera, a reação inicial é exemplar:

“Sentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande” (Jó 2.13, ARA).

Enquanto eles se mantiveram em silêncio, foram verdadeiros consoladores. O erro começa quando rompem a presença e tentam explicar o que era inexplicável, transformando o sofrimento em problema teológico a ser resolvido. Ao final, o próprio Deus dirá: “não falastes de mim o que era reto” (Jó 42.7, ARA).

Em todo tempo, Jó indaga ao Senhor por uma reposta e não a obtém. Nós, leitores do livro, temos a posteriori respostas essenciais; a ele, entretanto, coube confiar. Sim, há fenômenos que excedem ao discernimento pleno dos filhos dos homens. Há dores que não pedem resposta, mas companhia.

O choro de Cristo em Betânia

Esse mesmo princípio alcança seu ápice cristológico em Betânia. Diante do túmulo de Lázaro, o evangelista registra de modo lapidar:

“Jesus chorou” (João 11.35, ARA).

O verbo grego ἐδάκρυσεν (edákrysen) indica lágrimas reais, não encenação ritual. O contexto é inequívoco: morte, luto, dor relacional, confronto com a finitude. Embora soubesse que ressuscitaria Lázaro, Jesus não evita o sofrimento do momento. O conhecimento do desfecho não anestesia a humanidade. Podemos afirmar com segurança:

Sim, o choro é sofrido.
Sim, Jesus chorou.
Sim, Ele chorou em um contexto real de sofrimento. E isso não diminui sua divindade; revela a profundidade de sua encarnação. Se tivermos aqui alguma disputa hermenêutica, ela não pode estar em se houve sofrimento, mas como compreendê-lo.

Antes de vencer a morte, Cristo permanece com os que choram. O choro não é falta de fé; é expressão de amor em um mundo ferido.

Conclusão: presença antes de explicação

Reunindo essas linhas, podemos afirmar com clareza: a dor é sempre real quando é sentida; é singular, não plenamente comparável; pode ser narrável ou indizível; simbólica ou pré-simbólica. Não raramente, ela não pede, em primeiro lugar, respostas rápidas e prontas, mas presença sustentadora.

Nesse caso específico, a clínica e a experiência humana, e ainda mais a Escritura, ressaltam: o cuidado verdadeiro pode começar onde cessam as explicações fáceis. Sentar-se no chão com Jó, calar-se diante do sofrimento extremo, chorar em Betânia — tudo isso revela que, antes de curar, interpretar ou redimir, será preciso estar.

Talvez essa seja uma das formas mais profundas de amor: não retirar do outro o direito divino de sofrer — e não deixá-lo sofrer sozinho.


Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.

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