Quando olhar substitui o encontro
Vivemos rodeados de vidas. Nunca vimos tanto da vida dos outros como agora. Sabemos onde viajam, o que comem, o que pensam, o que sentem — ou pelo menos o que mostram sentir. Paradoxalmente, nunca foi tão comum (e crescente) a sensação de solidão. Talvez porque olhar não seja o mesmo que encontrar.
Há muito tempo, nas cidades antigas, as pessoas espiavam pela janela. Não por maldade, na maioria das vezes, mas porque a janela era o lugar mais natural possível entre o dentro e o fora. Ver a rua era uma forma de não desaparecer do mundo. Hoje, as janelas mudaram de forma. Cabem no bolso. Iluminam o rosto à noite. Ligam-nos a tudo — menos, às vezes, a alguém de verdade.
A curiosidade humana é legítima. Queremos saber como os outros vivem, onde nos situamos, o que é normal, o que é desejável. Somos seres criados para a vida em relação. O problema começa quando essa curiosidade deixa de ser ponte e se torna substituto. Quando observar passa a ocupar o lugar do vínculo. Quando sabemos muito sobre os outros, mas somos pouco conhecidos.
Há um tipo de olhar que nasce da carência. Ele não é necessariamente agressivo, nem mal-intencionado. É silencioso. A pessoa não se sente incluída — às vezes com razão, outras vezes porque aprendeu, ao longo da vida, a ler o mundo assim. Então observa. Acompanha de longe. Compara-se. Junta fragmentos. E, sem perceber, vai confirmando a narrativa de que a vida acontece sempre noutro lugar.
As redes tornaram isso fácil, contínuo e socialmente aceitável. Espiar deixou de ser gesto furtivo; tornou-se hábito quotidiano. Olhamos vidas editadas, recortadas, melhoradas. E comparamos os bastidores da nossa existência com os palcos dos outros. Os resultados raramente são paz e contentamento.
Nada disso se resolve com o estalar dos dedos do moralismo. Não se trata de demonizar a tecnologia, nem de regressar a um passado idealizado. A questão é mais simples e mais profunda: o que fazemos com o nosso olhar? Para onde o dirigimos? Com que expectativa? Em nome de quê?
Talvez precisemos reaprender algo básico: limites não são pobreza; são cuidado. Nem tudo o que é visível precisa ser consumido. Nem tudo o que é acessível precisa ser apropriado. Há uma forma de saúde que passa por fechar algumas janelas — não por medo do mundo, mas por respeito à própria interioridade, inclusive.
Também precisamos reaprender a presença. Conversas sem pressa. Escuta sem distração. Corpos no mesmo espaço. Silêncios partilhados. Nada disso é espectacular, mas tudo isso é profundamente humano. O encontro real não oferece o controlo do olhar, mas oferece algo melhor: reciprocidade.
Do ponto de vista espiritual — mesmo para quem actualmente não se identifica com a fé cristã — há aqui uma intuição antiga e sempre actual: a vida não precisa estar toda exposta para ter sentido. Há coisas que amadurecem no oculto. Há identidades que se fortalecem longe da comparação constante. Há um descanso possível quando deixamos de medir a nossa vida pela vitrine da vida alheia. Há liberdades que resultam justamente da não-chancela e da não-validação externa.
No fundo, o desafio do nosso tempo talvez não seja ver mais, mas aprender a ver melhor. Para alguns, talvez o desafio seja reaprender… Não olhar para consumir, mas para compreender. Não observar para comparar, mas para cuidar. E, sobretudo, não substituir o encontro pelo ecrã.
Menos janelas abertas para a vida dos outros. Mais portas abertas para relações reais. Menos vigilância. Mais presença. Menos curiosidade dispersa. Mais atenção verdadeira.
Porque, no fim, não é o olhar, por si mesmo, que nos salva da solidão — é o encontro.
Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos. Texto finalizado na variante europeia do idioma português.