Filosofia de Ministério Pastoral: Entre a “tenda” e o “vale”
Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele.
Então, disse Pedro a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias. Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.
Ouvindo-a os discípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo. Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos e não temais! Então, eles, levantando os olhos, a ninguém viram, senão Jesus. (Mateus 17.1-8, ARA).
O episódio da Transfiguração é uma manifestação extraordinária da glória de Cristo. Ele também funciona como uma cena pedagógica e normativa para a vida da Igreja e, de modo particular, para a compreensão do ministério pastoral. Ali, em poucos versos, somos conduzidos do esplendor do monte à sobriedade do vale, da revelação luminosa à obediência cotidiana, da tentação de fixar a experiência à necessidade de seguir o Filho no caminho da cruz. Trata-se, em sentido pleno, de um fragmento exemplar de uma filosofia cristã de ministério.
No monte, surgem Moisés e Elias. Não como alegorias abstratas, mas como pessoas reais, líderes históricos, instrumentos decisivos na história da revelação. Moisés, mediador da Lei; Elias, profeta paradigmático, ligado às expectativas escatológicas de Israel. Ambos falam com Cristo, ambos testemunham a sua missão, ambos participam, por um momento, da glória revelada. No entanto, o texto é deliberadamente econômico e eloquente: após a intervenção da voz celestial, eles desaparecem do campo de visão. Quando os discípulos erguem os olhos, “a ninguém viram, senão Jesus” (Mateus 17.8).
Para além de meramente alegórico, esse detalhe narrativo é teologicamente decisivo, com lições pertinentes e legítimas. Ele indica que toda liderança, por mais elevada, santa e necessária que seja, possui caráter transitório ou instrumental. Moisés e Elias — servos fiéis e singulares — não são ali desautorizados; são consumados. A sua missão não é negada, mas cumprida. A narrativa não os apresenta como co-protagonistas, mas como testemunhas convergentes. Moisés representa a Lei; Elias, os Profetas. Ambos personificam a revelação veterotestamentária em sua totalidade. A revelação anterior, não obstante, encontra aqui o seu telos, o seu ponto de chegada. Moisés e Elias são normativos enquanto testemunham; não como centros autónomos. A revelação que veio por meio deles converge e se fixa exclusivamente em Jesus Cristo. Cristo possui normatividade pessoal e final. O texto ensina que toda leitura fiel da Escritura é, necessariamente, cristológica.
A voz do Pai sela esse deslocamento com clareza absoluta: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a Ele ouvi” (Mateus 17.5). Aqui se estabelece o critério último de toda autoridade espiritual. A Lei e os Profetas são honrados, mas subordinados; os mediadores são reconhecidos, mas colocados em devida perspectiva; a escuta definitiva não se distribui entre várias vozes, mas se concentra no Filho. Assim, também, o ministério pastoral, desde suas bases, nasce dessa hierarquia: pastores falam por delegação; Cristo fala por natureza, direito e autoridade.
A reação de Pedro revela, contudo, uma tentação profundamente humana e recorrente: “façamos três tendas”. É o desejo de fixar a experiência, de estabilizar as mediações, de transformar o momento de glória em estrutura permanente. Essa tentação atravessa toda a história da Igreja. Ela se manifesta quando líderes são absolutizados, quando tradições se tornam intocáveis, quando modelos pastorais, escolas teológicas, movimentos missionários ou avivamentos passam a ocupar o lugar que pertence somente a Cristo. A Transfiguração responde a essa inclinação com uma correção silenciosa e firme: não há três tendas, não há três centros, não há três vozes em igualdade normativa. Há um Filho a ser ouvido.
Esse princípio se estende, sem dificuldade, a toda a história da cristandade. Agostinho, Calvino, Edwards, Spurgeon — como Moisés e Elias, estes aqui servos da revelação divina — foram dons reais de Deus, instrumentos poderosos, intérpretes fiéis da Palavra de Deus em seus contextos. No entanto, nenhum deles permanece como referência final. Todos servem enquanto apontam para Cristo; todos precisam, em algum momento, retirar-se do centro para que a Igreja continue vendo “somente Jesus”. A tradição cristã é testemunha e auxílio; jamais tenda definitiva.
É justamente aqui que se delineia uma filosofia cristã de ministério pastoral. O ministério fiel é aquele que aceita a sua própria transitoriedade ou instrumentalidade. Ele forma sem aprisionar, conduz sem substituir, ensina sem ocupar o lugar do Senhor. O pastor não trabalha para tornar-se indispensável, mas para tornar Cristo cada vez mais claro, amado e obedecido. Sua autoridade é real, porém sempre derivada; seu papel é necessário, mas nunca permanente em si mesmo.
A Transfiguração, porém, não termina no monte. A cena seguinte é a descida ao vale, onde há sofrimento, confusão, fracasso e necessidade concreta. A glória que lhes foi revelada prepara para a fidelidade no caminho estreito. O ministério pastoral não se sustenta apenas de experiências altas, de picos de glória e êxtase, mas da obediência perseverante no cotidiano da vida da Igreja. O monte revela; o vale prova. O monte ilumina; o vale confirma.
Entre a “tenda” e o “vale”, a Transfiguração ensina que líderes passam, experiências cessam e estruturas mudam, mas Cristo permanece. Essa é uma base segura para toda filosofia cristã de ministério pastoral: ouvir o Filho, apontar para o Filho, retirar-se quando necessário, e descer ao vale confiando que a presença d’Ele é suficiente para sustentar a Igreja em toda a sua caminhada.
Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.