Três Antropologias, Um Cuidado Pastoral
Ao longo da história do pensamento, diferentes antropologias disputaram a compreensão de quem é o ser humano e onde reside o seu problema fundamental. Algumas afirmam que o homem é originalmente bom; outras o descrevem como moralmente neutro, moldado pelas circunstâncias; e há ainda aquelas que reconhecem uma inclinação constitutiva ao mal. Essas leituras não são meras abstrações acadêmicas. Elas informam a forma como educamos, governamos, aconselhamos, disciplinamos e anunciamos o evangelho.
A antropologia da bondade originária sustenta que o mal não pertence à essência humana, mas surge como distorção secundária: ignorância, opressão social, estruturas injustas ou desvio educacional. O ser humano, em sua raiz, estaria orientado ao bem. Nesse horizonte, a esperança repousa na iluminação da consciência, na reforma das instituições ou na libertação das amarras que sufocam uma natureza intrinsecamente boa. Aqui, o erro fundamental não é moral, mas cognitivo ou estrutural.
Outra vertente, amplamente difundida na modernidade, descreve o ser humano como moralmente neutro ao nascer. Não haveria inclinação intrínseca nem para o bem nem para o mal. O indivíduo seria um projeto em aberto, formado pela cultura, pela história, pela linguagem, pela economia e pelos vínculos afetivos. O mal, aqui, não é explicado por corrupção da natureza, mas por condicionamentos adversos. A solução desloca-se para o campo da formação, da terapia, da educação e da reorganização social e econômica.
Em contraste, a antropologia que reconhece uma inclinação constitutiva ao mal afirma que o problema humano é mais profundo do que apenas ignorância ou contexto. O ser humano não apenas faz o mal; ele tende a ele. Há uma “inclinação” ou “pendor”. A vontade encontra-se ferida, desordenada, incapaz de retornar por si mesma ao bem supremo. Essa leitura não nega a dignidade da criação nem reduz o homem à perversidade absoluta, mas insiste que algo essencial foi corrompido e que tal corrupção atravessa todas as dimensões da existência.
A Escritura Sagrada sustenta essa última tensão de modo singular. O ser humano é criado bom, portador da imagem de Deus, dotado de dignidade inalienável. Contudo, após a Queda, não nasce moralmente íntegro. A imagem permanece, mas a natureza está desordenada; a consciência acusa, mas a vontade resiste; o desejo conhece o bem, mas não o realiza. Por isso, o diagnóstico bíblico é mais grave do que o de qualquer pedagogia moral ou engenharia social: “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23).
Essa compreensão é decisiva. Um otimismo antropológico, romântico e tomado de ingenuidade, gera frustração, pois espera do ser humano aquilo que ele não pode entregar. Um neutralismo moral excessivo tende a minimizar a responsabilidade pessoal, deslocando sempre a culpa para o ambiente. Já o reconhecimento da inclinação ao mal, quando separado da graça, pode degenerar em cinismo ou dureza. O evangelho, porém, evita ambos os extremos. Ele oferece um realismo quanto à condição humana e, ao mesmo tempo, é também profundamente esperançoso.
Uma Tríade na Teologia Bíblica
Na teologia bíblica, o “mundo” (κόσμος, kósmos) não designa simplesmente a criação material nem a humanidade enquanto objeto do amor de Deus, mas uma ordem de vida estruturada à margem do senhorio divino. Trata-se de um sistema de valores, desejos e lealdades que se autonomizou de Deus e passou a educar o coração humano segundo critérios próprios de poder, prestígio e satisfação. Por isso a Escritura adverte: “Não vos conformeis com este mundo” (Romanos 12.2) e “Não ameis o mundo” (1 João 2.15). O mundo, nessa acepção específica do vocábulo, é o ambiente pedagógico do pecado: ele legitima externamente aquilo que a interioridade caída já deseja, normalizando o que Deus reprova e marginalizando o que Deus aprova.
A “carne” (σάρξ, sárx) refere-se à condição humana decaída em sua orientação fundamental, não ao corpo enquanto criação de Deus. Ela descreve o ser humano enquanto vive a partir de si mesmo, com desejos, afetos e projetos desordenados em relação ao Criador. Quando Paulo afirma que “a carne milita contra o Espírito” (Gálatas 5.17), ele não fala de lapsos ocasionais, mas de uma inclinação interna persistente, incapaz de submeter-se a Deus por si mesma (Romanos 8.7–8). A carne é, portanto, o lugar interior onde o mal encontra acolhida, o ponto de ressonância pelo qual o mundo exerce sua pressão e o engano prospera.
Já o Maligno — chamado διάβολος (diábolos, acusador) ou Σατανᾶς (Satanás, adversário) — representa a realidade espiritual pessoal do mal. Nas Escrituras, o mal não é apenas conceito moral ou metáfora psicológica, mas possui agência inteligente, intencional e hostil, ainda que limitada e subordinada à soberania de Deus. Jesus fala do “príncipe deste mundo” (João 12.31), e Paulo lembra que “a nossa luta não é contra o sangue e a carne” (Efésios 6.12). O Maligno não cria o mal, mas o explora, amplifica e dirige, operando por meio do mundo e da carne. A esperança cristã, contudo, repousa na afirmação de que essa realidade espiritual é real, mas não é última: “Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo” (1 João 3.8).
A relação entre as três antropologias clássicas e essas dimensões bíblicas do mal — mundo, carne e realidade espiritual — ajuda a perceber onde cada leitura acerta, onde simplifica e onde se torna insuficiente diante do testemunho das Escrituras. A teologia bíblica não nega nenhuma dessas dimensões, mas recusa qualquer redução unilateral.
A antropologia que afirma a bondade originária do ser humano tende a concentrar sua explicação do mal fora do sujeito. Quando “dialoga” com a Bíblia, ela se aproxima sobretudo da categoria de “mundo”. O mal é percebido como algo que invade, deforma e aliena uma natureza originalmente boa. Nessa leitura, o ambiente — cultura, estruturas, instituições, narrativas coletivas — torna-se o fator imensamente poderoso. Há aqui um ponto de contato legítimo com a Escritura: a Bíblia, de fato, denuncia o “mundo” como esfera caída, formativa e sedutora. Contudo, essa antropologia encontra seu limite ao minimizar a “carne”. Para a teologia bíblica, o problema não é apenas o ambiente que corrompe, mas uma interioridade que acolhe e deseja o que o ambiente oferece. Sem essa dimensão, o mal tende a ser explicado quase exclusivamente como opressão externa.
A antropologia da neutralidade moral “dialoga” ainda mais diretamente com a noção bíblica de ambiente. Ela reconhece com clareza o poder formativo do meio, algo que a Escritura afirma ao falar do “curso deste mundo” e da pressão conformadora que ele exerce. Essa leitura capta bem o aspecto pedagógico do mundo enquanto sistema de valores. No entanto, ao tratar o ser humano como essencialmente moldável, ela tem dificuldade em lidar com a categoria bíblica da “carne” como inclinação prévia. Na teologia bíblica, o ambiente não cria o pecado do nada; ele encontra ressonância numa vontade já desordenada. Além disso, essa antropologia tende a silenciar ou simbolizar excessivamente a realidade espiritual do mal, tratando-a como linguagem mítica ou arcaica para conflitos internos ou sociais.
Já a antropologia que reconhece uma inclinação constitutiva ao mal encontra correspondência mais direta com a categoria bíblica da “carne” (σάρξ). Ela percebe que o problema humano é mais profundo do que contexto ou ignorância: há uma direção interna que ativamente resiste a Deus. Essa leitura faz justiça ao diagnóstico paulino de que a carne não se submete à lei de Deus e não pode fazê-lo. Contudo, quando isolada, essa antropologia corre o risco de subestimar o papel do “mundo” como estrutura pedagógica do mal, reduzindo tudo à responsabilidade individual, e também de tratar a realidade espiritual de forma abstrata ou funcional, como se o mal fosse apenas interno.
A teologia bíblica, por sua vez, integra as três dimensões. O “mundo” descreve o mal enquanto ambiente estruturado, que educa desejos e normaliza a rebelião. A “carne” descreve o mal enquanto inclinação interior, que acolhe, deseja e reproduz essa lógica. E a realidade espiritual descreve o mal enquanto agência pessoal e intencional, que engana, acusa e explora tanto o mundo quanto a carne. Nenhuma dessas dimensões é suficiente isoladamente; juntas, oferecem um diagnóstico completo.
As antropologias modernas revelam seus limites, portanto. Cada uma delas tende a privilegiar uma dessas dimensões bíblicas em detrimento das outras. A Escritura, porém, afirma que o ser humano peca em um mundo caído, com um coração inclinado, sob influência espiritual real — e, ainda assim, permanece responsável diante de Deus. A teologia bíblica atravessa, corrige e supera as antropologias seculares, afirmando que a libertação cristã é tão profunda quanto o problema humano — alcançando o coração, o ambiente e o mundo invisível — porque procede do Deus que reconcilia consigo todas as coisas.
O Cuidado Pastoral
Em termos conceituais, o cuidado pastoral precisa partir de um diagnóstico integrado e realista do ser humano. A Escritura não permite reduzi-lo a uma essência naturalmente boa que apenas sofre interferências externas, nem a uma neutralidade moldável pelo contexto, nem tampouco a um pessimismo que o veja como irremediavelmente sem qualquer esperança. O ser humano é portador de dignidade, mas vive sob a condição da queda; age com responsabilidade, mas não em isolamento; sofre influências ambientais e espirituais reais, mas não é mero produto delas. Ignorar qualquer uma dessas dimensões — carne, mundo e Maligno — empobrece o cuidado e conduz a abordagens parciais, ora ingênuas, ora duras, ora ineficazes.
Em termos pastorais, isso deveria conduzir a uma postura de lucidez compassiva. O pastor não trata o pecado apenas como falha moral pontual, nem como simples reflexo de traumas ou estruturas, mas como expressão de uma vontade desordenada que precisa de redenção. Ao mesmo tempo, ele reconhece o peso formativo dos ambientes — lares, rotinas, culturas, comunidades — e trabalha conscientemente para que a igreja seja um espaço restaurado, onde novas práticas, linguagens e afetos sejam cultivados. Além disso, o cuidado pastoral não ignora a dimensão espiritual do conflito, chamando à vigilância, à oração e à dependência do Espírito, sem cair em absurdos delirantes nem em espiritualizações simplistas.
Portanto, essa integração é decisiva. Ela impede tanto o moralismo simplista quanto a vitimização permanente. O cuidado cristão não ignora ambientes corrosivos, não nega a profundidade da carne, nem fantasia o mal espiritual — mas também não os trata isoladamente. A resposta bíblica não é apenas correção de comportamento, nem apenas mudança de contexto, nem apenas batalha espiritual isolada, mas regeneração, discernimento e vida no Espírito, vividas em comunidade.
Na prática, isso significa que discipulado não é apenas instrução, aconselhamento não é apenas escuta, exortação não é apenas correção, e consolo não é apenas empatia. Cuidar pastoralmente é acompanhar pessoas em processos de transformação que envolvem o coração, os hábitos, os vínculos, os ambientes e a fé viva em Cristo. A igreja torna-se, assim, um lugar onde a carne deve ser mortificada, o mundo deve ser discernido e resistido, e o poder do mal enfrentado com confiança na obra consumada de Cristo.
O cuidado pastoral fiel, portanto, leva o ser humano a sério em sua queda — e leva a graça ainda mais a sério em seu poder de restaurar. Não tratamos pessoas como se não houvesse esperança para elas, mas também não as iludimos com diagnósticos superficiais. Chamamos ao arrependimento porque há culpa real; oferecemos graça porque há redenção verdadeira. Em rigor, a grande e boa notícia não é que o ser humano é melhor do que parece, mas que Deus é mais gracioso do que imaginamos ou esperamos. É nessa lucidez humilde — sobre quem somos e sobre quem Deus é — que a igreja de Cristo aprende a cuidar, corrigir, consolar e conduzir com fidelidade e misericórdia.
Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.