Entre o Lamento e a Vitória: O Trajeto de Cristo
Lucas 9.22-27
Jerusalém é mais do que um ponto no mapa; é um símbolo denso de significados ao longo de toda a Escritura. No Antigo Testamento, em Crónicas, aparece como a cidade do trono de Davi e do templo, o lugar onde realeza e culto se encontravam sob a promessa divina: “Escolhi Jerusalém para que ali esteja o meu nome e escolhi Davi para que presida ao meu povo de Israel” (2 Crônicas 6.6). No profeta Jeremias, porém, a mesma cidade surge sob a luz sombria da infidelidade e da iminência do juízo, convertendo-se em objeto de advertência e de pranto. Nas Lamentações do profeta, é descrita como a cidade solitária e arruinada, sentada no pó, clamando pela restauração da aliança: “Como está sentada solitária a cidade, antes tão populosa!” (Lamentações 1.1). Esse fio atravessa a história da revelação. No evangelho de Lucas, onde encontramos um detalhado trajeto, Jerusalém é apresentada como destino inevitável de Jesus. É para lá que o Filho de Davi e Servo do Senhor caminha com plena consciência da sua missão: “É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas… seja morto e, ao terceiro dia, ressuscite” (Lucas 9.22). Jerusalém torna-se, assim, o palco definitivo onde se cruzam trono, altar e profecia, para se cumprirem em Cristo.
A partir de Lucas 9.51, o evangelho apresenta uma viragem narrativa e teológica: “Ao se completarem os dias em que devia ser assunto ao céu, manifestou no semblante a intrépida resolução de ir para Jerusalém.” A caminhada de Jesus não é fruto do acaso nem de circunstâncias imprevistas, mas um trajeto deliberado, carregado de significado salvífico. No caminho, a sua identidade é progressivamente confirmada. Pedro confessara: “Tu és o Cristo de Deus” (Lucas 9.20). No monte da transfiguração, Moisés e Elias falaram com Ele sobre a sua “partida” (éxodos), antecipando o sacrifício que traria libertação definitiva (9.31). A voz do Pai selou a cena: “Este é o meu Filho, o meu eleito; a Ele ouvi” (9.35). Os milagres e ensinos de Jesus sublinham a sua singularidade, mostrando que Ele é mais forte que o adversário e mais sábio que Salomão (11.21-22, 31).
Ao longo do percurso, Jesus revela a natureza paradoxal do Reino de Deus. Ele não se estabelece por força, nem por presumidas estruturas de poder, mas por serviço humilde. “Eu, porém, entre vós, sou como quem serve” (22.27). O envio dos setenta discípulos mostra que a vitória do Reino se dá na proclamação do evangelho e no triunfo da graça (10.17-20). Essa pedagogia desconcerta os discípulos, mas define o caráter de todo verdadeiro discipulado: negar-se a si mesmo, tomar a cruz diariamente e seguir o Mestre (9.23). O anúncio da cruz é constante: “O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens” (9.44); “Eis que subimos a Jerusalém, e vai cumprir-se no Filho do Homem tudo quanto os profetas escreveram” (18.31). Jesus não ilude os que O seguem; fala com clareza sobre o custo, mas também sobre a glória que virá.
A caminho da cidade santa, Jesus chora sobre ela, num lamento que ecoa Jeremias. “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha junta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (13.34). Às portas da cidade, Ele derrama lágrimas: “Ah! Se conheceras, ainda hoje, o que é devido à paz!” (19.42). A entrada triunfal, montado num jumentinho e saudado como “o Rei que vem em nome do Senhor” (19.38), tem um caráter profundamente paradoxal. Não é um triunfo romano, mas um prenúncio da entrega total. A coroa que O aguarda não é de louros, mas de espinhos; o trono não é de ouro, mas de cruz. E é nesse cenário de rejeição e humilhação que o verdadeiro Reino de Deus se manifesta.
Na cruz, Cristo cumpre a sua missão. No templo havia declarado: “A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra” (20.17). No Calvário, entrega o espírito ao Pai: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (23.46). O evangelista anota, com força teológica, que até o centurião romano reconhece: “Verdadeiramente este homem era justo” (23.47). O lamento transforma-se em vitória. A cidade que rejeita o Profeta torna-se o palco da redenção. Ali se consuma o plano eterno do Pai, ali o amor triunfa sobre o pecado, e a vida derrota a morte.
Este caminho de Jerusalém ressalta referências ao padrão do discipulado. Jesus Cristo seguiu para a cidade depois de um ministério exaustivo, mostrando que a obediência nem sempre se exerce em circunstâncias favoráveis. Ele serviu em cansaço, mas não recuou. Seguiu como Rei humilde, redefinindo autoridade como serviço. Avançou em abnegação, ensinando que negar-se a si mesmo é deslocar o ego do centro e viver para Deus e para o próximo. Abraçou o sacrifício como centro da sua missão, mostrando que o cristianismo não é apenas um sistema caracterizado por abstrações, mas uma fé sustentada pelo sangue do Cordeiro. Cada passo foi dado em compaixão: no Getsêmani suou sangue em oração (22.44) e na cruz pediu ao Pai o perdão para os seus algozes (23.34). Por fim, deixou claro que segui-Lo implica cruz, mas também vida eterna: “Ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no presente, muitas vezes mais, e, no mundo por vir, a vida eterna” (18.29-30).
Como é importante recordar este trajeto! Ele testemunha que Cristo avançou com resolução até à cruz, sem recuar diante do sofrimento. Hoje, o chamado do evangelho é segui-Lo nesse mesmo caminho: servir mesmo sob circunstâncias desfavoráveis, reinar servindo, viver em abnegação, abraçar o sacrifício, refletir a compaixão e perseverar com esperança. Entre o lamento e a vitória, entre lágrimas e coroa de espinhos, o Senhor abriu-nos o caminho da vida. E é neste caminho, cuja lógica é a cruz, que Ele nos convida a caminhar, até à plenitude da ressurreição.
Transcrição abreviada de sermão por pastor Gilson Santos, pregado à Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, São Paulo. A tradução bíblica utilizada foi a Almeida Revista e Atualizada (ARA). Texto compartilhado a leitores na variante linguística do português europeu.