Chamados para Cuidar

Chamados para Cuidar

Gênesis 1 e 2

Desde as primeiras páginas da Escritura, o Criador se revela de modo surpreendentemente humilde e gracioso. Ele poderia ter criado de formas distintas, instantâneas e impessoais, mas o relato do Génesis mostra o seu envolvimento cuidadoso e condescendente com a criação. Deus não apenas dá origem ao universo — Ele aproxima-se da criatura e estabelece com ela uma relação de cuidado. Há sabedoria profunda em observar os detalhes dessa narrativa, pois nela se encontra o modelo divino para o modo como o ser humano deve compreender a si mesmo e o mundo ao seu redor.

Deus cria o ser humano à sua imagem e semelhança (Génesis 1.26–28). Tal imagem não se refere apenas à forma, mas à essência: somos seres pessoais, dotados de pensamento, vontade, emoção, consciência e identidade. Fomos criados para nos relacionarmos, para exercermos domínio responsável, para criarmos e discernirmos o bem e o mal. Em nós há inteligência, afeto e moralidade — reflexos do Criador que nos permitem agir no mundo como seus representantes. Ser imagem de Deus é, portanto, um chamado à responsabilidade e ao cuidado.

O mesmo Deus que nos criou à sua imagem confiou-nos também uma missão. O texto sagrado afirma que o homem foi colocado no jardim “para o cultivar e o guardar” (Génesis 2.15). A palavra-chave é cuidar: o ser humano foi criado como mordomo (oikonomos), administrador e despenseiro daquilo que pertence a Deus (Salmo 24.1–2). Toda a criação é dom divino, e o trabalho humano, longe de ser castigo, é vocação para o cuidado. Assim, Adão é chamado a cultivar e Eva, a ajudar; ambos, em parceria, refletem a administração criativa de Deus sobre o mundo. Quando falham, a desordem se instala e o cuidado se transforma em peso.

Contudo, o próprio modo como Deus trabalha serve de referência ao homem. O relato de Gênesis 1 revela um Criador que age com ordem, planejamento e sequência. Ele não cria no caos, mas estabelece ciclos: manhã e tarde, seis dias de trabalho e um de descanso. O sábado (šabbāt) é, antes de tudo, um dom. Deus descansou primeiro, instituindo o descanso como sinal da sua soberania e convite à confiança. “O sono”, como observou Zack Eswine, “é um ato sabático: repousamos e deixamos tudo aos cuidados de Deus enquanto estamos deitados sem mexer com o mundo por um pouco”. Assim, quando observamos o princípio sabático, somos lembrados de que não somos deuses, mas criaturas que vivem sustentadas pelo Criador. O descanso torna-se, portanto, um exercício espiritual de adoração e gratidão.

O Génesis ensina que o trabalho é bom, mas não é um fim em si mesmo. Trabalhar é participar da criação de Deus; descansar é reconhecer os limites da criatura e a bondade do Criador. O mandamento de trabalhar — “quem não quer trabalhar, também não coma” — e o mandamento de descansar caminham juntos. Negligenciar o descanso é, segundo a fé cristã, pecado: o pecado da avareza, da ambição desmedida, da recusa em parar para lembrar e celebrar a Deus. O shabat inclui noites tranquilas, pausas periódicas, férias e tempos de recolhimento familiar; é ocasião para refinar a mente e fortalecer o espírito. Respeitar o descanso dos outros, cultivar o silêncio e observar ritmos saudáveis de vida são expressões práticas de amor e sabedoria.

A fé cristã reconhece ainda que a mente humana foi criada originalmente teoreferenciada — isto é, orientada para Deus. Quando o homem se fecha em si mesmo, sem referir-se ao Criador, a mente tende ao colapso. A perda dessa referência gera desordem: vidas em caos perdem os limites, confundem os ciclos e dissolvem as formas. Comer, dormir, trabalhar e cultuar são atos que organizam o tempo e o ser; “há tempo para todo propósito debaixo do céu”.

Jesus, porém, mostrou que o descanso não deve ser interpretado de forma legalista. O fim do shabat é o bem do ser humano e a glória de Deus. O descanso não é fuga do mundo, mas reencontro com o Criador. Assim, cuidar do mundo criado — e cuidar uns dos outros — é continuar a obra de Deus, em reverência, ordem e confiança. Fomos chamados para cuidar: da terra, do tempo, do próximo e da própria alma. E ao fazermos isso, recordamos, com gratidão, que o mundo ainda pertence ao Senhor que o criou e o sustenta.


Transcrição abreviada de sermão por pastor Gilson Santos, pregado à Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, São Paulo. O sermão foi a abertura de uma longa série de mensagens com o título “Bons e Fiéis Despenseiros”. Texto compartilhado a leitores na variante linguística do português europeu.

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