Se Deus for comigo

Se Deus for comigo

Gênesis 28.10-22

O episódio que nos ocupa é o de Jacó em Betel, quando, em meio a um contexto de solidão e incerteza, ele recebe a revelação do Senhor e responde com um voto. Em rigor, não se tratou de um juramento, mas de um compromisso assumido diante de Deus. Esse voto não nasceu do nada; foi precedido pela graça já derramada sobre a sua vida. As coisas mais importantes — o direito e a bênção da primogenitura — analisadas no contexto da providência, não lhe vieram por mérito, mas por eleição e graça divinas. Além disso, o voto é precedido pela promessa que o Senhor lhe faz: “Eis que eu estou contigo e te guardarei por onde quer que fores” (v. 15). A promessa, porém, não dispensa a oração; antes, fundamenta e estimula a súplica confiante.

Jacó faz este voto num momento em que não dispunha de recursos nem de defesas, senão o próprio Deus. A sua “almofada” era uma pedra. Estava sozinho, mas o futuro lhe traria uma grande família. É, portanto, uma súplica voltada para o porvir. Ele está no limiar da futura terra de Israel, deixando a sua terra, e não sabe o que encontrará. Como Abraão, não sabe para onde vai, mas sabe que irá com Deus. E este voto é assinalado por um gesto simbólico: a coluna erguida em Betel, memória visível de que Deus se manifestara ali. Monumentos, altares, colunas marcam a história, porque somos seres históricos e sujeitos ao tempo. A memória é essencial, e este sinal tornava-se testemunho transgeracional da fidelidade de Deus.

O conteúdo da súplica de Jacó é revelador da sua consciência de dependência. Ele pede: “Se Deus for comigo…”. O Senhor já havia prometido estar presente, mas a promessa não elimina a súplica. É próprio da fé pedir aquilo que já foi dito. Ele ora: “e me guardar nesta jornada que empreendo”, “e me der pão para comer e roupa para vestir”, “de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai”. São súplicas simples, mas que remetem à aliança e às promessas feitas aos patriarcas.

Ao mesmo tempo, Jacó não fica apenas no pedir; ele se compromete a aplicar-se intencionalmente à fidelidade e à gratidão. A primeira resolução é pessoal: “O Senhor será o meu Deus”. Até então, Deus era mais identificado como o Deus de Abraão e de Isaque. Mas chega a hora em que cada pessoa precisa dizer por si mesma: “O Senhor será o meu Deus”. Penso que foi Lutero quem disse que há duas coisas que alguém precisa fazer sozinho: crer e morrer. Assim também a fé cristã exigirá uma confissão pessoal, e o batismo é sinal dessa decisão.

Jacó declara ainda: “A pedra que erigi por coluna será a casa de Deus”. É o reconhecimento de que o Senhor se faz presente entre os homens. Talvez fosse a intenção de reservar aquele lugar para culto e testemunho, mas o essencial é que Jacó compreende que a fé precisa de expressão visível. Um cristianismo que não custa nada corre o risco de não valer nada.

Finalmente, ele promete: “E de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo”. É a decisão de aplicar-se à gratidão. O dízimo é o investimento de uma parte de tudo quanto se tem no culto, na causa e no testemunho de Deus. Antes de ser regulado pela Lei de Moisés, ele brota da graça. É fruto da fidelidade de Deus e expressão de reconhecimento. Mais do que uma obrigação, o dízimo é uma resposta agradecida. Jacó, ao lançar os alicerces de sua vida, vota ser intencionalmente agradecido, dispondo o seu coração.

Daqui emergem algumas lições cruciais. A promessa de Deus acerca de um assunto específico não nos desincumbe de orar; pelo contrário, leva-nos a suplicar com base na promessa e a firmar-nos nela. A vida cristã exige também dispor o coração para a ação de graças. A esse propósito, Tim Keller afirmou: “gratidão é algo que a gente sente; ação de graças é algo que a gente faz”. Confiar o futuro ao Senhor significa priorizar o seu reino e a sua justiça. Pedimos a Deus graça e o indispensável, mas não nos furtamos à responsabilidade de viver de modo fiel. Acima de tudo, o cristão é alguém que em algum momento da vida confessou de forma voluntária, intencional e resoluta: “O Senhor será o MEU Deus”. Tu já o tens feito?


Transcrição abreviada e editada com base em estudo bíblico ministrado pelo pastor Gilson Santos à Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, São Paulo. O estudo integrou uma série intitulada Enfoques Bíblicos sobre Oração.

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