Quando a compaixão de Deus nos incomoda

Quando a compaixão de Deus nos incomoda

Jonas 4

Imagine uma criança pequena, com o rosto fechado de raiva, porque o pai decidiu repartir um doce com o irmão. Ela queria que o doce fosse só dela. O pai, porém, vendo o desejo dos dois, partilha igualmente. A cena infantil, que pode nos fazer sorrir, na verdade revela um traço humano profundo: a dificuldade de aceitar que o bem e a graça não sejam exclusivos nossos. É exatamente esse drama que se desenrola em Jonas 4.

Jonas, o profeta relutante, finalmente pregou em Nínive: “Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída” (Jn 3.4). Para sua surpresa, a cidade inteira se arrependeu e Deus suspendeu o juízo. O capítulo 4 abre com Jonas furioso, porque o Senhor mostrou misericórdia. Assim, o livro que começou com a fuga do profeta termina com sua ira. Não é a história de uma cidade rebelde apenas, mas de um profeta que não suporta a compaixão de Deus. A grande verdade deste capítulo é clara: o coração de Deus é movido por compaixão, mas nós frequentemente resistimos a essa compaixão quando ela alcança aqueles que julgamos indignos.

O texto se organiza como uma pequena peça em quatro atos. Em cada um deles, a compaixão é abordada de maneira distinta, e juntos eles respondem a uma pergunta vital: por que resistimos à compaixão de Deus quando ela alcança aqueles que julgamos indignos? Os quatro atos são: a compaixão contestada (Jonas 4.1-4); a compaixão experimentada (Jonas 4.5-6); a compaixão provada (Jonas 4.7-9); e a compaixão explicada (Jonas 4.10-11).

Atos 1 (versos 4.1-4): Jonas vê a cidade perdoada e “desgosta-se extremamente, e fica irado”. Sua oração é quase uma acusação contra Deus: “Sabia que és Deus clemente e misericordioso, tardio em irar-se e grande em benignidade” (v. 2). O que para Israel sempre foi motivo de louvor, Jonas toma como defeito. Ele chega a pedir a morte, pois não aceita que os inimigos recebam graça. Aqui a compaixão de Deus aparece, mas é contestada pelo profeta. Quantas vezes também nós resistimos quando Deus age diferente do que esperávamos? Somos rápidos em receber compaixão, mas lentos em aceitá-la para os outros.

Ato 2 (versos 4.5-6): Jonas sai da cidade, constrói um abrigo e aguarda ansioso algum desfecho trágico. Deus, porém, prepara uma planta que nasce e lhe dá sombra. O profeta, que queria morrer, agora se alegra “em extremo” por causa de um gesto de cuidado divino. A mesma palavra que descreve seu desgosto inicial aparece para descrever sua alegria. A cena mostra como Deus, com ternura, dá a Jonas uma experiência pessoal de compaixão. Mas essa experiência é estreita: Jonas se alegra quando a compaixão o beneficia, mas não suporta quando ela alcança os outros.

Atos 3 (versos 4.7-9): No dia seguinte, Deus prepara um verme que seca a planta e, depois, um vento abrasador que faz Jonas desfalecer. Ele volta a pedir a morte. Deus lhe pergunta: “É razoável essa tua ira por causa da planta?” (v. 9). O profeta insiste que sim, é justo se irritar até desejar morrer. O contraste é gritante: Jonas se comove por uma planta, mas não por uma cidade inteira. Aqui a compaixão de Deus é provada, e a ira mesquinha do profeta é revelada. Assim também conosco: muitas vezes lamentamos mais a perda de nossos confortos e privilégios do que a perdição de pessoas que estão ao nosso redor.

Atos 4 (versos 4.10-11): O livro culmina na voz de Deus: “Tiveste compaixão da planta… e eu não hei de ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que há mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem discernir entre a mão direita e a esquerda, e também muitos animais?”. A lição é definitiva: se Jonas se importa com uma planta efêmera, quanto mais Deus se importa com a vida humana e até com a criação. O livro termina em aberto, sem resposta do profeta, deixando a pergunta para nós: aceitaremos a compaixão de Deus, ou resistiremos a ela?

Por que resistimos à compaixão de Deus?

A exposição nos conduz à seguinte questão: por que resistimos à compaixão de Deus quando ela alcança aqueles que julgamos indignos? Resistimos, primeiro, porque confundimos justiça com vingança. Assumimos nós mesmos o lugar do juiz, perfeito e imparcial, que absolutamente não somos. Como Jonas, queremos ver os outros “pagarem”, esquecendo que a justiça de Deus é perfeita, mas atravessada por compaixão. Resistimos também porque pensamos na compaixão apenas para nós: amamos quando as “nossas plantas” nos dão sombra, mas não suportamos quando os inimigos são poupados. Além disso, valorizamos mais o conforto do que a vida; choramos mais pela perda de coisas do que pela perdição de pessoas. Resistimos porque não entendemos a largura da compaixão de Deus, que não conhece fronteiras. E, por fim, resistimos porque ainda não fomos plenamente transformados pela compaixão de Cristo.

Conclusão

Conta-se que, após a Segunda Guerra Mundial, cidades alemãs destruídas receberam ajuda humanitária dos antigos inimigos. Muitos não entendiam como aqueles que haviam sofrido tanto agora repartiam pão e remédios. Essa compaixão parecia ilógica. Assim também é a compaixão de Deus: desconcerta nossos critérios e nos convida a amar além do que julgamos justo.

Jonas se enfureceu porque Deus poupou Nínive; Cristo, porém, chorou porque Jerusalém não se arrependeu. Jonas desejou a morte para não ver os inimigos salvos; Jesus entregou a própria vida para salvar os inimigos. Em Cristo vemos a plenitude da compaixão: não apenas palavras, mas sangue derramado em favor de quem não merecia.

O livro de Jonas termina em aberto, sem resposta do profeta. Isso nos coloca diante da decisão: acolheremos a compaixão de Deus e nos alegraremos quando ela alcançar outros, ou permaneceremos como Jonas, irritados e mesquinhos? Que nossa resposta não seja o silêncio, mas a rendição alegre ao coração compassivo de Cristo.

“Senhor nosso Deus, te damos graças porque tua compaixão é maior que a nossa ira e mais ampla que o nosso coração. Perdoa-nos por tantas vezes resistirmos à tua misericórdia. Transforma-nos pelo Espírito Santo, para que vejamos as pessoas com os olhos de Cristo e nos alegremos com cada sinal da tua graça. Dá-nos compaixão para amar, servir e perdoar como o Senhor nos amou, serviu e perdoou em Jesus Cristo. Amém.”

Transcrição abreviada de sermão por pastor Gilson Santos, pregado à Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, São Paulo, em 28 de setembro de 2025. O sermão encerrou uma série de exposições bíblicas com o título “O Deus da Graça e o Profeta Relutante” ministrada pelo presbitério local.

receba nosso conteúdo no seu Email

© Instituto Poimênica 2026

Descubra mais sobre Instituto Poimênica

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo