Qual o Valor da Misericórdia de Deus?

Qual o Valor da Misericórdia de Deus?

1 Crónicas 21.15-28 (2 Samuel 24.18-25)

A vida espiritual saudável exige equilíbrio entre justiça e misericórdia. Em Cristo, estes dois atributos divinos convergem de forma perfeita. A justiça não é anulada pela misericórdia, nem a misericórdia é apagada pela justiça; antes, ambas se sustentam em plena harmonia. Qual o valor da misericórdia de Deus? O tema que nos ocupa hoje é este: “Quando a misericórdia de Deus não é estimada em pouco”.

Davi, no auge do seu reinado, deixou-se levar pelo orgulho. Envaidecido pelo poder das suas hostes militares, mandou realizar um censo em Israel. Não havia pecado em contar o povo em si mesmo, pois Moisés já o havia feito sob ordem do Senhor (Nm 26). O problema estava nos motivos indignos que moviam o coração do rei. Podia tratar-se de vanglória pessoal, de confiança excessiva nos próprios recursos, de falta de fé nas promessas divinas (Gn 15.5), de ambição hegemónica ou mesmo de intenção de aumentar a carga tributária sobre o povo. Em todo o caso, Davi quis medir a sua força, e descobriu a limitação e até a inutilidade dessa confiança humana diante de Deus.

Como disciplina, o Senhor apresentou-lhe três opções de juízo: fome, guerra ou peste. Davi, ao escolher a peste, demonstrou sabedoria. Reconheceu que na fome e na guerra ele, pessoalmente, teria recursos superiores ao povo, mas na peste estaria exposto igualmente ao perigo. Além disso, sabia que a paixão humana é desmedida, enquanto Deus, sábio e justo, aplica o castigo na medida necessária. A dor não recaiu apenas sobre o rei, mas sobre todo o corpo político de Israel, pois, quando sofre o cabeça, todos os membros sofrem com ele.

A misericórdia divina, porém, manifestou-se de forma notável na eira de Ornã, também chamado Araúna. Desde a manhã até às três horas da tarde, a hora do sacrifício, o anjo do Senhor foi contido e a destruição cessou (2 Sm 24.16). Aquele lugar, na amplitude do contexto, tinha profundo significado espiritual. Fora a terra de Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo, que trouxera pão e vinho a Abraão. Fora também no monte Moriá, onde Isaque esteve prestes a ser sacrificado, até que Deus providenciou o cordeiro substituto. Agora, na eira, onde o trigo era malhado e transformado em pão, o Senhor revelou o triunfo da sua misericórdia, permitindo que o sangue da vítima substituísse o do povo.

Davi não quis receber o terreno como dádiva gratuita. Pagou cinquenta siclos de prata pela eira rochosa e seiscentos siclos de ouro por todo o terreno. A sua declaração tornou-se célebre: “Não oferecerei ao Senhor um sacrifício que não me custe nada”. Ali, mais tarde, Salomão edificou o templo, e até hoje aquele lugar, no monte, conserva marcas da adoração, ainda que cobertas pela Mesquita de Omar.

Esta atitude de Davi mostra a estima altíssima que ele dava à misericórdia de Deus. Abel trouxe dos primogénitos do seu rebanho (Gn 4.4; Hb 11.4). A viúva pobre lançou no gazofilácio duas pequenas moedas, mas deu mais do que todos (Mc 12.41-44). As igrejas da Macedónia contribuíram voluntariamente, não só conforme as suas posses, mas acima delas (2 Co 8.1-5). O sacrifício verdadeiro sempre custa.

À luz da Escritura, é possível estabelecer uma distinção entre graça e misericórdia. Graça é Deus dar-nos o que não merecemos; misericórdia é Deus não nos dar o que mereceríamos. Jesus ilustrou a misericórdia na parábola do bom samaritano: “vendo-o, compadeceu-se dele” (Lc 10.33) e, no fim, “o que usou de misericórdia para com ele” (Lc 10.37). Os salmos e profetas exaltam este atributo: “no Senhor há misericórdia; nele, copiosa redenção” (Sl 130.7); “as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos” (Lm 3.22). O Salmo 136, repetido em forma antífona, proclama vinte e seis vezes: “porque a sua misericórdia dura para sempre”.

Mas a expressão mais plena da misericórdia está em Cristo e na sua cruz. Ele é o sumo sacerdote que se compadece das nossas fraquezas (Hb 4.14-16) e o Salvador que nos resgatou, não pelas nossas obras, mas pela sua misericórdia, mediante o lavar regenerador do Espírito (Tt 3.4-5).

Diante disto, precisamos refletir. Muitas vezes a preciosa misericórdia de Deus é estimada em pouco. Quando recebemos muito sem discernir o custo, quando nos persuadimos de que merecemos as bênçãos, quando perdemos a noção de graça, acabamos por fixar o coração em direitos próprios e esquecemo-nos do sacrifício. Davi, porém, contemplou e experimentou afetivamente o sacrifício, e por isso declarou: “Não oferecerei ao Senhor um sacrifício que não me custe nada”.

Claro, a misericórdia e a graça se interpõem livre e soberanamente antes, e jamais serão “pagas” por nós. Nada obstante, quem não partilha da experiência do custo não percebe o valor do dom. Que também a nossa cooperação, inclusive a financeira, expresse algo que tenha valor real para nós. Não se trata de desculpas ou cálculos, de barganhas ou méritos, mas de graça: que tipo de crente sou, que tipo de coração tenho? Deus nos amou de tal maneira que deu o seu Filho (Jo 3.16), e em Cristo nos abençoou com todas as bênçãos espirituais (Ef 1.3).

Finalmente, somos chamados a vir a Cristo, manancial da misericórdia de Deus. “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28.13). “Vós que, antes, não éreis povo, agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, agora alcançastes misericórdia” (1 Pe 2.10). Foi assim com os cegos de Jericó que clamaram por misericórdia, e com o leproso samaritano que voltou para dar glória a Deus.

A misericórdia de Deus é imensa, eterna e transformadora. Não a estimemos em pouco, mas respondamos com fé, gratidão e sacrifício vivo diante do Senhor. Indague-se, portanto: Qual o valor da misericórdia de Deus?

Transcrição abreviada de sermão por pastor Gilson Santos, pregado à Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, São Paulo. O sermão integrou uma longa série de mensagens com o título “Bons e Fiéis Despenseiros”. Texto compartilhado a leitores na variante linguística do português europeu.

receba nosso conteúdo no seu Email

© Instituto Poimênica 2026

Descubra mais sobre Instituto Poimênica

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading