O Contentamento em Deus: Entre a Flauta e o Lamento
Lucas 7.18-35
As lembranças da infância evocam muitas brincadeiras. Jogar futebol com bola de meia, disputar partidas de bola de gude, brincar de pique-esconde, pular amarelinha, empurrar carrinhos de rolimã ou cantar em roda cantigas simples que misturavam ritmo e imaginação. Também no tempo de Jesus as crianças inventavam brincadeiras, e uma delas consistia em simular festas e funerais: uns tocavam flauta para dançar, outros entoavam lamentos como num cortejo fúnebre. Mas havia sempre os que, contrariados, recusavam qualquer proposta, dizendo apenas: “Não quero brincar”.
É essa cena infantil que Jesus evoca em Lucas 7 para descrever os fariseus e doutores da lei — Os fariseus formavam a seita mais estrita e zelosa do judaísmo, comprometida com tradições religiosas e práticas rigorosas. Já os doutores da lei eram os intérpretes especializados, advogados da Escritura, homens que copiavam, preservavam e ensinavam a Lei. Muitos eram fariseus, mas nem todos. Eram, de facto, uma classe profissional, detentora de prestígio.
Jesus, porém, mostra que por detrás dessa aparência respeitável havia um coração resistente à voz de Deus. Eles eram como meninos mimados que não se contentam com nada. João Batista veio com austeridade, jejum e simplicidade, e disseram que ele tinha demónio. Jesus veio com alegria, partilhando refeições, acolhendo pecadores e multiplicando pão e vinho, e disseram que era um glutão e beberrão. Não havia resposta que os satisfizesse, porque o problema não estava em João nem em Jesus, mas no coração deles.
O batismo de João foi recebido pelo povo simples e até por publicanos, que reconheceram na mensagem de arrependimento a justiça de Deus. “Justificaram a sabedoria de Deus”, isto é, concordaram que o plano divino era justo e necessário. Já os fariseus e doutores da lei rejeitaram esse conselho contra si mesmos. Fecharam-se ao convite de arrependimento, recusaram-se a ser batizados e, em consequência, acabaram por rejeitar o próprio Cristo. Diante do maior privilégio que poderiam ter recebido — o anúncio do Messias — voltaram-se contra ele, preferindo apegar-se às próprias ideias e à própria imagem.
Jesus mostra que essa postura não é apenas uma escolha teológica ou intelectual, mas uma imaturidade espiritual. É o coração que não encontra satisfação em Deus. Quando o coração está obstinadamente endurecido, nada basta. O austero parece estranho demais, o festivo parece frouxo demais, e assim tudo é motivo de crítica. A insatisfação torna-se um modo de viver, marcado por palavras duras, rótulos depreciativos e ataques à reputação alheia. Essa linguagem, como advertiu Jesus no Sermão do Monte, revela um espírito contrário à própria Lei de Deus.
Chegados aqui, surge a pergunta crucial: por que o coração humano é tão propenso ao não-contentamento? O texto ajuda-nos a responder em três focos pastorais. Primeiro, porque não se reconhece a justiça de Deus. Quem rejeitava o batismo de João, rejeitava o diagnóstico divino sobre si mesmo, e quem rejeita a Cristo, rejeita a cura oferecida. O não-contentamento começa quando discordamos de Deus a respeito de quem somos e do que precisamos. Esta trágica lógica teve início no Éden. Em segundo lugar, porque se absolutiza a própria vontade. Como crianças birrentas, os religiosos da época só aceitariam uma música que confirmasse os seus gostos. Quando a nossa medida é apenas o nosso gosto, tornamo-nos incapazes de nos alegrar com a verdade de Deus. Terceiro, porque o coração farto de si mesmo perde o sabor do mel divino. “A alma farta pisa o favo de mel, mas à alma faminta todo amargo é doce” (Provérbios 27.7). Só quem reconhece a própria fome pode saborear a doçura de Cristo.
O verdadeiro contentamento, portanto, nasce quando nos rendemos ao conselho de Deus, aceitamos o diagnóstico do arrependimento e nos deixamos fartar por Cristo. O coração que se alegra na justiça de Deus não opera regularmente pelo padrão da zombaria, do desdém, da acusação. Antes, justifica a sabedoria de Deus e louva-o, dando fruto de lábios que confessam: “A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nele” (Lamentações 3.24). Em Cristo me contento. Ele é a minha água, o meu pão, o meu caminho, a minha vida. O melhor amigo em meu pranto, e a minha grande alegria.
Transcrição abreviada de sermão por pastor Gilson Santos, pregado à Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, São Paulo. O sermão integrou uma série de mensagens com o título “Contentamento e Graça”. Texto compartilhado a leitores na variante linguística do português europeu.