Filhos da Casa, Mas Não do Senhor
1 Samuel 2–4
A história da igreja, ao longo dos séculos, tem oscilado entre períodos de grande fervor e temor diante do Senhor, e tempos de apatia, indiferença e até escárnio em relação às coisas sagradas. Por vezes, o encantamento diante da presença de Deus vai-se apagando, substituído por um tipo de cinismo religioso que já não se deixa impressionar nem se comove com o peso da glória divina. Em certas épocas, os maiores escândalos não vêm de fora, mas de dentro da própria casa de Deus — e são justamente os que ocupam as posições de maior visibilidade e responsabilidade que mais profundamente corrompem o culto. O texto de 1 Samuel capítulos 2 a 4 oferece uma solene advertência sobre essa realidade, expondo um tempo em que os filhos da casa já não pertenciam, de facto, ao Senhor.
Antes de Jerusalém, Siló era o centro da adoração em Israel. Ali estava o tabernáculo, tenda sagrada erguida originalmente no deserto, durante a peregrinação do povo hebreu, e mantida depois na Terra Prometida como lugar de encontro com Deus. Em Siló ficava também a arca da aliança, símbolo da presença divina entre o povo. Era um lugar solene, carregado de memória e significado, mas que, com o tempo, tornou-se palco de corrupção e desprezo pelo sagrado.
Naquele contexto, encontramos a casa de Eli. Este, o sacerdote responsável pelo santuário, e seus filhos, Hofni e Fineias, também oficiavam como sacerdotes. No entanto, o texto bíblico declara sem rodeios: “Eram filhos de Belial, e não se importavam com o Senhor” (1 Samuel 2.12). Cresceram dentro da linguagem e da cultura da fé, habituaram-se ao espaço sagrado, aos ritos, aos sacrifícios. Contudo, a familiaridade gerou desprezo. A rotina religiosa embotou o temor. Tornaram-se irreverentes, profanos, manipuladores do altar — como se o culto fosse um instrumento para seu próprio benefício. Usavam as ofertas para alimentar a própria avareza. Desprezavam o povo. Corrompiam os rituais. Tinham os trajes sacerdotais, mas não o coração quebrantado.
Deus, então, anuncia juízo sobre a casa de Eli. A sentença é clara: “Farei cumprir contra Eli tudo quanto falei a respeito da sua casa” (1 Samuel 3.12). E o juízo vem. Em 1 Samuel 4, Israel entra em guerra contra os filisteus, leva consigo a arca como se fosse um talismã, mas sem temor, sem santidade. São derrotados. A arca é capturada. Eli e seus filhos morrem. A mulher de Fineias dá à luz em meio ao luto e diz: “Foi-se a glória de Israel” (1 Samuel 4.21). O menino é chamado Icabô — literalmente, “sem glória”. A glória partiu. Deus retirou-se. O centro do culto tornou-se vazio. E, ironicamente, os filisteus demonstram mais temor diante da arca do que os próprios israelitas.
Este episódio revela que a adoração não é uma formalidade religiosa, mas um dever sagrado. O culto não é um serviço que prestamos a Deus apenas com os lábios ou com gestos exteriores, mas com o coração cheio de reverência. O sacerdócio de Eli falhou não apenas por erros pontuais, mas porque tratou com leviandade o que era santo. E a leviandade é sempre o primeiro passo para o declínio. Quando o ministério é reduzido a profissão e a fé se transforma em rotina, o sagrado é banalizado. A familiaridade sem temor gera indiferença. E a indiferença, se não for interrompida pela graça, conduz ao cinismo.
Moisés, diante da sarça ardente, tirou as sandálias dos pés e reconheceu que pisava em terra santa. Os filhos de Eli, porém, pisavam diariamente em terra santa e já não percebiam. O mesmo perigo nos ronda hoje. Também nós podemos habituar-nos tanto à linguagem da fé, à liturgia do culto, aos ambientes da igreja, que tudo nos pareça normal, ordinário, previsível — e, por fim, irrelevante. Quando perdemos o temor, perdemos a glória.
O culto evangélico contemporâneo, em muitos contextos, tem-se deixado seduzir pela banalização. O que deveria ser solene torna-se espectáculo. As ofertas, em vez de expressarem temor, tornam-se transações. A adoração, em vez de resposta ao Deus santo, vira instrumento de autopromoção. No Brasil, já se tem visto de tudo: lutas livres no púlpito, noites temáticas, espetáculos circenses em nome da fé. E não se pode ignorar que os sentimentos e as atitudes cultivadas nesses eventos religiosos moldam a ética e a moralidade da comunidade. Onde não há reverência, não haverá pureza. Onde não há temor, não haverá integridade. Onde não há glória, reina a indiferença.
A forma como tratamos a oferta é, também ela, expressão de culto. Não se trata de simples movimentação financeira, nem de cumprimento ritual. É uma forma concreta de reconhecer que tudo o que temos vem do Senhor. Em nossa igreja, precisamos manter viva a consciência de que o culto é para Deus, e não para o nosso entretenimento. A oferta é uma expressão de entrega, não um pagamento.
Por fim, lembramos o episódio de Jesus na sinagoga de Nazaré, narrado em Marcos 6. Ali, o Filho de Deus foi rejeitado pelos seus conterrâneos. Eram “crentes antigos”, filhos da casa, mas não reconheceram a glória, pois ela estava encarnada na simplicidade de um carpinteiro. Julgaram pela aparência. O que era familiar aos olhos tornou-se motivo de desprezo. Desprezaram a glória do Senhor, e por isso, Jesus “não pôde fazer ali nenhum milagre” (Marcos 6.5). Que o primeiro amor não se apague. Que os que caminham há muito tempo na fé não se tornem insensíveis ao esplendor da graça.
Motivos de oração
Roguemos ao Senhor que, como servos de Cristo, conservemos um senso vivo de temor e reverência na adoração. Que o nosso primeiro amor nunca se apague. Que não lidemos com as coisas de Deus com leviandade nem com cinismo. Que jamais sejamos apenas filhos da casa, mas verdadeiramente filhos do Senhor.
Transcrição abreviada de sermão por pastor Gilson Santos, pregado à Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, São Paulo. O sermão integrou uma longa série de mensagens com o título “Bons e Fiéis Despenseiros”. Texto compartilhado a leitores na variante linguística do português europeu.