A Graça e a Paz que Vêm do Pai e do Filho
Gálatas 1.1-5
Já alguma vez pensou no peso que damos às primeiras palavras de uma carta? No tempo de Paulo, a saudação inicial não era uma mera formalidade: era carregada de conteúdo teológico e de intenção pastoral. Logo na abertura da epístola aos Gálatas, Paulo defende a autoridade da sua missão e apresenta, de forma condensada, o núcleo do evangelho. Ao fazê-lo, menciona duas vezes em conjunto Jesus Cristo e Deus Pai, retomando ainda a expressão “nosso Deus e Pai”. Nada disto é por acaso. O apóstolo deseja mostrar que a fonte do seu ministério e da nossa salvação é a mesma: o Pai e o Filho, em perfeita unidade de propósito e de acção.
O evangelho que recebemos é de origem divina. Dele provêm a nossa chamada, a nossa libertação e a nossa esperança, tudo orientado para a glória de Deus. Paulo não fala por si mesmo nem depende de legitimidade humana: o seu apostolado é por Jesus Cristo e por Deus Pai, “aquele que ressuscitou Cristo de entre os mortos”. A ressurreição, centro do evangelho, dá fundamento ao ministério do apóstolo e assegura-nos que a nossa fé não assenta em homens, mas no poder de Deus.
A saudação continua com palavras que se tornaram tão familiares que, por vezes, corremos o risco de as esvaziar: “graça” e “paz”. Mas para Paulo estas não são fórmulas gastas; são dons reais, provenientes de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Graça é favor imerecido, dom que nos alcança sem termos qualquer crédito; paz é reconciliação plena, o restabelecimento da harmonia com Deus e com o próximo. Ambas fluem da mesma fonte, o Pai e o Filho.
É então que Paulo introduz a obra redentora de Cristo: “Ele deu a si mesmo pelos nossos pecados”. Não se trata de uma entrega forçada, mas de um acto voluntário e sacrificial. O objectivo é claro: libertar-nos “do presente século mau”. O evangelho não se limita a perdoar a culpa; arranca-nos do domínio e da atmosfera moral do mundo caído. Tudo isto acontece “segundo a vontade do nosso Deus e Pai”, lembrando-nos que a cruz não foi acidente, mas cumprimento de um plano eterno. Diante de tão grande graça, só resta uma resposta: “a Ele seja a glória pelos séculos dos séculos. Ámen”.
Que efeitos deve produzir em nós a convicção de que a nossa salvação e o nosso chamado têm origem na vontade soberana do Pai e na obra perfeita do Filho? Antes de mais, conduz-nos à humildade. Não somos salvos por esforço próprio nem chamados por mérito, mas pela pura graça. Tal certeza afasta qualquer vanglória e gera em nós gratidão reverente. Em segundo lugar, dá-nos segurança inabalável: o Pai que planeou e o Filho que consumou são imutáveis, e por isso podemos descansar na fidelidade de Deus em vez de temer perder aquilo que Ele mesmo nos concedeu.
Essa convicção move-nos também a uma entrega confiante ao serviço cristão. Tal como Paulo, servimos não para conquistar aceitação, mas porque já fomos aceites no Amado. O chamado que nos alcançou tem origem divina, e isso sustenta a nossa perseverança mesmo diante da oposição. Mais ainda, liberta-nos do padrão deste mundo. Cristo morreu para nos arrancar ao “século mau”, e por isso não nos conformamos com os valores contrários à vontade de Deus. Finalmente, leva-nos a uma vida centrada na glória de Deus. Quando percebemos que tudo começa e termina n’Ele, entendemos que o fim último da nossa existência é exaltá-lo em cada palavra, decisão e gesto.
As implicações são práticas e concretas. Conquanto não sejamos apóstolos, somos chamados a confiar na autoridade da Palavra, que tem a mesma origem divina do apostolado de Paulo. Vivemos sustentados pela graça e pela paz que nos são realmente oferecidas, e não apenas declaradas em fórmulas piedosas. Lembramo-nos do propósito da redenção, conscientes de que fomos libertos para não viver presos à mentalidade do mundo. E, sobretudo, glorificamos a Deus continuamente, pois cada bênção recebida aponta para Ele.
Logo nas primeiras linhas da carta, Paulo coloca diante de nós todo o peso do evangelho: origem divina, graça e paz, cruz, libertação, vontade soberana e glória eterna. O Deus que chamou o apóstolo Paulo é o mesmo que nos chamou para Si mediante o evangelho. O Cristo que se entregou pelos nossos pecados é o mesmo que nos sustenta. A nossa vida, o nosso chamado e a nossa esperança procedem da mesma fonte: o Pai e o Filho, em perfeita unidade, agindo para nos salvar.
Senhor, nosso Deus e Pai, nós te louvamos pela graça que nos alcançou e pela paz que nos sustenta. Agradecemos porque nos chamaste para ti, não por mérito nosso, mas por meio de Jesus Cristo, que se entregou pelos nossos pecados para nos libertar deste presente século mau. Ajuda-nos a viver para a tua glória, firmes na tua vontade e confiantes no teu poder. Em nome de Jesus. Ámen.
Transcrição abreviada de Estudo Bíblico em Lectio Continua, ministrado pelo pastor Gilson Santos, na Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, São Paulo, em 13 de agosto de 2025. Este texto foi compartilhado a leitores na variante linguística do português europeu. Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir e pai de duas filhas.