Lutero e o verdadeiro trabalho da vinha
Gilson Santos
“Wir sind gleich den Leuten, die die Wegweiser fleißig lesen und anstarren und doch den Weg nicht gehen, den sie zeigen. Also tun wir auch mit den Vätern. Wir lesen sie und achten sie, aber zum Evangelium und zur Schrift kommen wir nicht, wie sie uns doch dahin führen wollten. Die Schrift aber allein ist die rechte Weinbergarbeit, die wir alle treiben sollen.”
— “Somos como pessoas que leem e contemplam atentamente os marcos de estrada, mas não andam no caminho que eles indicam. Assim fazemos também com os Pais da Igreja. Nós os lemos e os estimamos, mas não chegamos ao Evangelho e à Escritura, para onde eles nos queriam conduzir. A Escritura, porém, somente, é o verdadeiro trabalho da vinha, que todos nós devemos realizar.” (À Nobreza Cristã da Nação Alemã, 1520).
Com esse exemplo vívido, Lutero mostrou a diferença entre meios e fim. Os escritos patrísticos, por mais veneráveis que sejam, não têm a função de substituir a Escritura, mas de apontar para ela. Ler os Pais da Igreja é como observar placas de estrada: são úteis, mas não constituem a própria viagem. A negligência ocorre quando se toma o sinal como destino, quando se para no limiar sem percorrer o caminho que conduz à vinha — e, por definição, o campo de cultivo é a Palavra de Deus.
Essa metáfora ilumina o princípio da Sola Scriptura, formulado no contexto da Reforma. Para Lutero, a Escritura é suficiente e normativa: nela o próprio Deus fala, nela encontramos Cristo, nela se estabelece a medida da fé. Não se trata de a priori rejeitar a tradição ou o testemunho da Igreja, mas de recolocá-los em seu devido lugar, como guias que remetem ao texto sagrado, nunca como rivais da sua autoridade. O “trabalho da vinha”, em rigor, não é erigir e acumular autoridades humanas, mas laborar no Evangelho que brota das páginas inspiradas. Os Pais da Igreja devem ser lidos e estimados, mas devemos chegar “ao Evangelho e à Escritura, para onde eles nos queriam conduzir”.
É nesse horizonte que ecoa, em formulação posterior, o conhecido aforismo: “Um livro é suficiente, mas mil não são demais.” A frase tem sido associada ao pensamento geral de Lutero. De fato, ela exprime bem a tensão que a Reforma herdou e promoveu: um livro é suficiente — a Escritura, clara em sua mensagem de salvação; mas mil não são demais — pois a leitura, o estudo e a difusão de outros escritos podem ser de grande proveito, quando estiverem em função e à luz da Palavra de Deus.
Não é irrelevante lembrar que o século XVI conheceu a revolução de Gutenberg. A prensa tipográfica, surgida poucas décadas antes, foi instrumento providencial para a multiplicação dos textos bíblicos e teológicos. Lutero, tradutor da Bíblia e autor prolífico, beneficiou-se e incentivou uma verdadeira cultura de leitura. A Reforma não apenas recolocou a Escritura no centro, mas também estimulou uma fome de livros, panfletos, catecismos e hinários que alargaram o horizonte cultural da cristandade. A Reforma multiplicou exponencialmente os livros e bibliotecas. O princípio de que “um livro é suficiente” não gerou aversão à leitura, mas a valorização de muitos escritos como meios de instrução, edificação e propagação da fé.
Assim, a imagem de Lutero continua atual. Tal como um servo em direção ao seu trabalho, o cristão que permanece apenas nas placas ou marcos da estrada se engana: o trabalho real é cultivar a vinha da Escritura. Mas quem, entrando nessa vinha, se vale também de mil outros livros, não faz senão confirmar a mesma lição da Reforma: a suficiência da Palavra de Deus não exclui a riqueza da leitura, mas oferece a ela a indispensável luz e a ordena em sua direção.
Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir e pai de duas filhas.