Batismo de Crentes e Igreja Local: Afinidades e Distinções entre Anabatistas e Batistas
Ao longo da Idade Média, diversos movimentos de contestação à Igreja estabelecida surgiram na Europa, antecipando algumas ideias que mais tarde seriam retomadas pelo anabatismo. Entre os precursores destacam‑se os valdenses, surgidos no século XII sob a liderança de Pedro Valdo, que pregavam a pobreza apostólica, a pregação leiga e a centralidade das Escrituras em língua vernácula. No século XV, os hussitas, seguidores de Jan Hus na Boêmia, reivindicavam a comunhão sob as duas espécies, o sacerdócio universal e reformas profundas na Igreja. Os taboritas, ala mais radical do movimento, chegaram a adotar ideais comunitários e expectativas milenaristas. Também a devotio moderna, especialmente nos Países Baixos e na Alemanha, fomentou uma espiritualidade prática, centrada na imitação de Cristo e na leitura pessoal das Escrituras. Embora não haja continuidade institucional direta entre esses grupos e os anabatistas do século XVI, todos eles revelaram um mesmo impulso de retorno ao evangelho, contestando a cristandade oficial e a fusão entre Igreja e poder civil.
O anabatismo propriamente dito surgiu em 1525, em Zurique, como uma ala radical da Reforma. Seus primeiros líderes — Conrad Grebel, Felix Manz e George Blaurock — romperam com Ulrico Zuínglio por considerarem sua reforma insuficiente. Os anabatistas defendiam que apenas crentes conscientes deveriam ser batizados, rejeitando o batismo infantil como sem fundamento bíblico. Essa convicção, unida à defesa da separação entre Igreja e Estado, da autonomia das comunidades locais e da obediência radical ao Sermão do Monte, colocou‑os em confronto tanto com católicos como com protestantes magisteriais. O movimento se espalhou pelo sul da Alemanha, Áustria, Morávia e Países Baixos, assumindo formas diversas: os irmãos suíços, de caráter pacifista e congregacional; os huteritas, conhecidos pela vida comunitária de bens; e os menonitas, liderados por Menno Simons, que se tornariam a expressão mais duradoura do anabatismo. Embora a maioria fosse pacífica, episódios como a insurreição de Münster (1534‑1535), em que uma ala apocalíptica instaurou um regime teocrático violento, reforçaram a má reputação dos anabatistas aos olhos das autoridades. A repressão foi intensa, com execuções por afogamento, decapitação ou fogueira, levando muitos grupos à clandestinidade e à dispersão.
Nas Ilhas Britânicas, o anabatismo não encontrou terreno fértil. O anglicanismo, estabelecido por Henrique VIII em 1534, manteve rígido controle sobre práticas religiosas divergentes, e qualquer presença anabatista era vista como subversão política. Alguns anabatistas estrangeiros, sobretudo holandeses, foram executados em Londres entre 1530 e 1550, mas não houve comunidades autóctones significativas. Contudo, no final do século XVI e início do XVII, certos separatistas ingleses exilados nos Países Baixos tiveram contato com menonitas. John Smyth, um desses separatistas, chegou a aproximar‑se dos menonitas em Amsterdã e, posteriormente, a defender o batismo de professos como prática bíblica. É nesse ambiente de separatismo e congregacionalismo, e não por descendência direta dos anabatistas, que surgem os primeiros batistas ingleses.
Os batistas herdaram dos separatistas ingleses a organização congregacional e a ênfase na autoridade das Escrituras, mas, ao adotarem o batismo de crentes, aproximaram‑se em certos pontos dos anabatistas. Apesar dessa afinidade, rejeitaram o pacifismo radical, o comunitarismo econômico e as tendências apocalípticas de alguns ramos continentais. Essa distinção era tão importante que, no preâmbulo da Primeira Confissão de Fé Batista de Londres (1644), os batistas particulares declararam: “Certificamos todos os homens, que tem sido nosso trabalho e desejo claro fazer conhecida a nossa fé e crença, para que não sejamos injustamente carregados com a odiosa acusação de anabatistas, que nada temos a ver com tais que correm de forma desordenada, pois nunca fomos de tal mente ou prática.” Assim, os primeiros batistas buscavam afirmar que, embora compartilhassem com os anabatistas o batismo de professos, suas convicções teológicas eram profundamente enraizadas na tradição reformada.
Dessa forma, embora não se possa falar em uma linha de sucessão histórica entre anabatistas e batistas, é legítimo reconhecer um “parentesco espiritual” em alguns princípios eclesiológicos, especialmente na defesa do batismo de professos, da autonomia das igrejas locais e da separação entre Igreja e Estado.
Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça, em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações; dentre estas, uma pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e outra pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Seminário Martin Bucer (Brasil e Portugal), e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir e pai de duas filhas.