O Pastoreio e o Momento da Palavra

O Pastoreio e o Momento da Palavra

Hipertransmissão, Sabedoria, Entropia e Cuidado

O que os pastores pretendem deixar como legado? Que marcas desejam que permaneçam na memória das ovelhas que lhes foram confiadas? Como desejam ser lembrados — se é que desejam? E de que modo sua voz, sua doutrina, sua presença e seu cuidado podem atravessar o tempo e ainda ser ouvidos — não em gravações, mas no coração?

Essas perguntas, que poderiam parecer apenas sentimentais ou pessoais, ganham novo peso diante do tempo em que vivemos. Um tempo em que a palavra humana se multiplicou exponencialmente, ultrapassando barreiras de espaço, forma e preservação. Um tempo em que tudo pode ser dito, registrado, armazenado, indexado — e, ainda assim, nada ser ouvido com atenção, guardado com afeto ou lembrado com reverência. Num mundo onde tudo se comunica, mas pouco se comunica de fato, os pastores são chamados a repensar não apenas o que pregam, mas como e para quem.

Vivemos a era da hipertransmissão: palavras fluem incessantemente nas páginas, nas telas, nos fones, nas nuvens e nos algoritmos. A pregação corre o risco de ser apenas mais um ruído entre tantos, e a doutrina pode ser confundida com opinião religiosa. O coração das ovelhas, muitas vezes já fatigado pelas urgências da vida e pelos múltiplos estímulos da cultura, ouve sem escutar, retém sem meditar, consome sem ruminar. A palavra, que antes era rara e solene, tornou-se abundante e, com isso, banal. Perdeu densidade. Tornou-se leve demais para gerar raízes.

Mas nem sempre foi assim. A história da fé nos mostra que a palavra, quando semeada com temor e zelo, gerava sabedoria. Era fonte de beleza, ordem, pacto e vida. O próprio Deus se revelou em palavras: criou falando, firmou alianças por promessas, sustentou profetas com visões e convocou o seu povo ao ouvir. “Inclina os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá”, diz o Senhor. O pastoreio sempre foi um ministério de palavra: palavra lida, pregada, explicada, cantada, encarnada. Mas agora, nesse tempo de falares excessivos, é preciso recuperar o valor da escuta — não apenas a escuta das ovelhas, mas do próprio pastor.

O momento da palavra exige, acima de tudo, cuidado. Cuidado com o que se diz e com o que se cala. Cuidado com a profundidade daquilo que se ensina e com a formação do coração que o recebe. Cuidado com a tentação de performar, de agradar, de simplificar o que nos tem sido confiado com sangue e glória. Cuidar da palavra é resistir à entropia, à dispersão, à diluição. É buscar uma lufada de ar fresco neste cenário em que o palavrório polui. Mas é também cuidar das ovelhas para que sejam capazes de recebê-la — e isso é mais lento, mais íntimo, mais silencioso.

Gilson Santos, pastorÉ comum os pastores pensarem em transmitir um legado, uma marca, um nome. Geralmente se pensa na palavra para este propósito: escrita, gravada, filmada, reproduzida e distribuída massivamente. Entretanto, a questão essencial talvez já não seja apenas o que ficará para os pósteros, mas que tipo de pósteros estamos formando para receber a palavra. Herdeiros que saibam ouvir com temor, lembrar com gratidão, ruminar com fé. Ovelhas que não apenas repitam o que ouviram, mas que guardem no coração e transmitam com integridade. Isso não se forma com pressa, no ritmo frenético e sôfrego do desassossego, e nem se alcança com métodos. Requer presença pastoral, oração paciente, pregação fiel, discipulado discreto e amor contínuo.

Em tempos de velocidade, ruído e fragmentação, o pastor é chamado a ser um homem de palavra firme, mas também de presença silenciosa. Um semeador que lança não apenas sementes no campo, mas sentido no tempo. E que, ao olhar para trás, não deseje tanto ser lembrado por suas frases pessoais e prediletas, mas por ter ajudado sua igreja a escutar de verdade a voz do Bom Pastor.

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