Infância em Tempos Acelerados e Espaços Vazios
A infância contemporânea, especialmente nas últimas duas décadas, tem sido atravessada por transformações profundas nas duas dimensões mais elementares da existência: o tempo e o espaço. Essas dimensões, embora frequentemente pensadas apenas em termos físicos ou cronológicos, são também — e sobretudo — psíquicas, afetivas e espirituais. O modo como uma criança vive o tempo e o espaço molda sua memória, sua identidade, sua relação com os outros e interage diretamente em sua percepção de Deus.
No que diz respeito ao tempo, muitas crianças têm sido moldadas pela lógica da aceleração. Aprenderam a viver o agora como um imperativo: tudo precisa ser rápido, disponível, imediato. A espera se torna desconforto; o silêncio, incômodo; a demora, insuportável. O presente se tornou tirano, e a alma infantil, exausta — mesmo quando rodeada de estímulos.
Outras, embora marcadas pela mesma pressa, vivem em um tempo grandemente fragmentado. Começam muitas histórias, mas poucas terminam. Passam de uma atividade a outra, de uma tela a outra, de uma emoção a outra, sem continuidade. A infância perde a sua narrativa: já não há o desejável começo, meio e fim, mas apenas episódios desconexos. E onde não há história, não há identidade.
Em muitos casos, o passado e o futuro vêm desaparecendo como referências. A criança se vê deslocada da memória e desvinculada do amanhã. Vive o presente como único tempo possível — sem herança, sem expectativa, sem vocação. O ontem não é lembrado; o amanhã, não é sonhado. E quando a linha do tempo se rompe, o coração perde direção.
Se a experiência do tempo vem sendo desfeita, o espaço vem sendo esvaziado. Sob a pressão das contingências, muitas crianças vivem, crescentemente, em corpos imóveis, confinadas a apartamentos, telas e cadeiras. O corpo não corre, não explora, não tropeça. E um corpo que não habita o mundo perde seu senso de presença. A percepção mais ampla de realidade se reduz ao que cabe em uma tela — e a fé, muitas vezes, não encontra chão.
Mesmo quando o espaço existe, ele pode se tornar marcadamente funcional e neutro. A casa, apenas o lugar de dormir e comer; a escola, onde se cumpre tarefas; a igreja, um ponto no mapa. Os espaços vêm deixando de ter alma. Já não falam, já não acolhem, já não marcam. Quando os lugares não têm nome, também não abrigam memória — nem promovem encontro.
E há ainda crianças que vivem boa parte da vida no trânsito, em fluxo — de casa em casa, de escola em escola, de relações em relações. São flexíveis, adaptáveis, rápidas. Mas muitas vezes não sabem onde pertencem. Têm rostos ao redor, mas poucos vínculos duradouros. Crescem com medo de enraizar — porque já aprenderam que tudo pode mudar. E onde não há permanência, não há segurança.
Diante desse retrato, a pergunta que se impõe não é apenas como resgatar o tempo e o espaço para as crianças, mas como reapresentar-lhes o Deus que habita a eternidade e que se revelou em lugares concretos. O Deus da Bíblia se move na história — com promessas que se cumprem — e age no espaço — com tendas, montes, casas e cidades. Ele criou a infância com estações, com memória e com morada. E não chamou os pequenos a um mundo abstrato, mas a um caminho real, vivido com o corpo, com vínculos, com chão.
Esse Deus se fez carne. O Verbo eterno entrou no tempo e foi envolto em panos, em uma manjedoura, em Belém. Cresceu em Nazaré, cidade pequena, e passou a ser chamado de “o nazareno”. Era conhecido como “o filho de José e Maria”. Brincou em ruas poeirentas, aprendeu no templo, andou pelas vilas da Galileia. E quando começou a ensinar, chamou as crianças não para longe, mas para perto. Tomou-as nos braços, impôs as mãos sobre elas, abençoou-as (Marcos 10.13-16). O Cristo não apenas falou sobre o Reino — ele o abriu para os pequenos. E no gesto de acolhê-los, deu sentido novo ao tempo e ao espaço da infância. Porque onde Ele está, há casa; e quando Ele chama, há tempo certo.
A vocação da igreja, da família e da comunidade é restaurar a experiência da infância como um caminho com história e um lar com sentido. Crianças precisam de adultos que morem no tempo e no espaço com elas. Que saibam esperar. Que saibam permanecer. Que saibam nomear os lugares e contar as histórias. Que transmitam, com sua presença, o Deus que diz: “Eu estarei contigo todos os dias” — e também em todos os lugares dos “confins da terra”.
- Este texto resultou de uma breve série de pequenos outros textos, cujos focos estiveram em seis crianças brasileiras contemporâneas. A breve série de textos foi publicada em nosso Instagram.